Já assisti a muito filme que tenta ser profundo e acaba sendo só chato. Mas com Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin), o papo é outro. O filme, lançado em 1987, é um daqueles clássicos que você precisa ver pelo menos uma vez na vida para entender o que é cinema de verdade, sem os truques baratos de Hollywood.
Vou te contar por que esse filme do Wim Wenders continua sendo relevante hoje, sem firulas e direto ao ponto.
O que torna Asas do Desejo um filme fora da curva?
A premissa é simples, mas a execução é genial. A história gira em torno de anjos que observam a Berlim dividida pelo Muro. Mas esqueça aquela imagem de anjos com harpas; aqui, eles usam sobretudos e apenas ouvem os pensamentos dos humanos, tentando dar um pouco de conforto em meio ao caos urbano.
O diretor Wim Wenders entrega uma narrativa que te prende pela atmosfera. O filme começa em preto e branco — representando a visão dos anjos, que não sentem o mundo físico — e muda para cores quando a perspectiva se torna humana. É um recurso visual que funciona muito bem para mostrar o peso da existência. Se você busca algo com ritmo frenético, não é aqui. Mas se quer um filme que te faça pensar sobre a rotina sem ser piegas, ele entrega.
Elenco, trilha sonora e o visual de uma Berlim dividida
O elenco é um dos pilares que sustenta a obra. Bruno Ganz interpreta Damiel, o anjo protagonista, com uma sobriedade impressionante. Mas o destaque inesperado vai para Peter Falk (sim, o eterno Columbo), interpretando a si mesmo, ou melhor, um ator que tem uma conexão especial com esse mundo espiritual.
Além deles, temos:
Solveig Dommartin como Marion.
Otto Sander como Cassiel.
Curt Bois como Homer.
A trilha sonora é um capítulo à parte. Ela não serve apenas como fundo; ela é parte do cenário. Temos a presença marcante de Nick Cave and the Bad Seeds e Crime & the City Solution, que capturam perfeitamente a estética underground de Berlim na década de 80. As locações de filmagem são históricas, passando pela Potsdamer Platz (que na época era um terreno baldio perto do Muro) e a Biblioteca Estadual de Berlim.
Reconhecimento, nota IMDb e premiações
Não sou só eu que acho esse filme acima da média. A crítica mundial carimbou a qualidade da obra logo de cara. No IMDb, o filme mantém uma nota sólida de 8.0/10, o que é bem alto para um drama artístico europeu.
Em termos de prêmios, o filme limpou o chão em festivais importantes:
Festival de Cannes: Wim Wenders levou o prêmio de Melhor Diretor.
European Film Awards: Venceu como Melhor Filme e Melhor Diretor.
BAFTA: Foi indicado a Melhor Filme Estrangeiro.
Isso mostra que, além de ser um filme "cabeça", ele tem técnica suficiente para ser respeitado por quem realmente entende do assunto.
Curiosidades que você provavelmente não sabia
Para fechar, separei alguns detalhes de bastidores que deixam a experiência de assistir ainda mais interessante:
Improviso real: O roteiro não estava totalmente pronto quando as filmagens começaram. Muitas falas e diálogos foram escritos pelo poeta Peter Handke conforme o filme avançava.
O "Columbo" em Berlim: A escolha de Peter Falk foi uma jogada de mestre de Wenders. Ele queria alguém que o público já confiasse imediatamente.
Remake americano: Se você acha a história familiar, talvez tenha visto Cidade dos Anjos (1998), com Nicolas Cage. Mas vou te mandar o papo real: o original de 87 é infinitamente superior e menos meloso.
O Diretor de Fotografia: Henri Alekan, o gênio por trás das câmeras, tinha 80 anos na época e usou uma meia-calça de seda da sua avó como filtro para criar o tom sépia do preto e branco.
Asas do Desejo é cinema puro. É sobre observar, ouvir e entender o que nos faz humanos, sem precisar de explosões ou reviravoltas mirabolantes. Se você curte uma narrativa mais densa e visualmente impecável, coloca na lista.
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