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Ilha das Flores

 


Assisti hoje a “Ilha das Flores”, só 13 minutos. Esperava um documentário tradicional, meio parado, mas o que vi na tela me deixou impressionado pela genialidade. O filme te pega pelo humor rápido e ironia fina no começo, mas termina te fazendo encarar uma realidade crua que arrepia. 

Lançado em 1989, o curta-metragem atende pelo título original de Ilha das Flores. O trabalho alcança uma nota espetacular de 8,5 no IMDb, o que mostra o apelo do público e da crítica mundial ao longo das décadas. Com direção e roteiro do mestre Jorge Furtado, a obra tem como fio condutor a voz marcante do narrador Paulo José, acompanhado no elenco por nomes como Ciça Reckziegel (Dona Anete) e Takahiro Suzuki (Sr. Suzuki). 

A trama foi gravada principalmente em Porto Alegre e na própria localidade da Ilha dos Marinheiros (no Delta do Jacuí, usada para representar a Ilha das Flores). A trilha sonora, assinada por Geraldo Flach, usa trechos de músicas clássicas de forma brilhante, incluindo "O Barbeiro de Sevilha" de Rossini em um ritmo acelerado para ditar a ironia de cada cena.

Como um simples tomate explica a lógica do consumo global?

O filme usa a trajetória de um tomate para construir uma das maiores sátiras sociais já feitas no cinema mundial. A mecânica é direta: um japonês cultiva o tomate, vende para um supermercado, uma dona de casa compra para fazer molho, acha um fruto estragado e o joga fora. Esse tomate vai parar em um lixão na tal Ilha das Flores. 

A partir aí, a lógica do consumo é exposta de forma afiada. O narrador explica conceitos como dinheiro, polegar opositor e encéfalo altamente desenvolvido como se estivesse ensinando um extraterrestre. Parece comédia didática no início, mas é apenas a preparação para a grande virada da história.

Por que a sequência final do lixão causa tanto impacto?

O momento em que a narrativa chega ao lixão da Ilha das Flores muda o tom do filme. Lá, os porcos de um criador local têm prioridade para comer a lavagem e os restos orgânicos colhidos do lixo. O lixo que os porcos rejeitam serve de alimento para mulheres e crianças miseráveis da região, que recebem exatamente cinco minutos para coletar o que sobrou. 

Essa sequência escancara a desigualdade sem rodeios. O contraste entre a capacidade racional do ser humano e a condição sub-humana em que parte da população vive traz um impacto gigante. Não há drama apelativo ou choro na tela, apenas a apresentação fria de fatos e dados que pesam no peito de qualquer um.

Quais prêmios transformaram esse curta em uma lenda do cinema?

A obra não passou batida pelos maiores festivais do mundo. O curta varreu o Festival de Gramado em 1989, levando prêmios nas categorias de Melhor Curta, Melhor Roteiro, Melhor Edição e Prêmio da Crítica e do Público. 

Internacionalmente, conquistou o prestigiado Urso de Prata no Festival de Berlim (1990) e o Prêmio Especial do Júri no Festival de Clermont-Ferrand na França (1991). Para coroar o impacto, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) elegeu a obra como o melhor curta-metragem brasileiro da história.

O que torna essa obra uma referência obrigatória até hoje?

Uma das maiores curiosidades dos bastidores envolve a inspiração do roteiro: a frase inicial citando a poetisa Cecília Meireles dá o tom poético que guia a narrativa. Além disso, a edição frenética comandada por Giba Assis Brasil antecipou em anos a linguagem ágil de cortes rápidos que vemos na internet e na televisão atual. 

Minha crítica direta ao filme é que ele continua incrivelmente atual, o que ao mesmo tempo mostra sua genialidade e a tragédia da nossa sociedade. Trata-se de uma obra-prima de apenas 13 minutos que entrega uma reflexão mais profunda sobre economia, humanidade e desigualdade do que muito longa-metragem de duas horas. É o tipo de cinema inteligente, rápido e cirúrgico que todo mundo deveria assistir ao menos uma vez na vida.

 

400 Contra 1: A História do Comando Vermelho

 


Sempre fui fascinado por obras que mergulham nas entranhas da história brasileira, principalmente quando o assunto envolve o crime organizado e as dinâmicas sociais do nosso país. Quando decidi assistir a 400 Contra 1: A História do Comando Vermelho, minha expectativa era entender como uma das organizações mais influentes do Rio de Janeiro se estruturou dentro do sistema prisional. O longa entrega esse panorama com uma pegada direta, focada na camaradagem, no instinto de sobrevivência e na brutalidade da rotina do cárcere. 

Qual é a origem e a proposta técnica de 400 Contra 1? 

Lançado em 2010 e dirigido por Caco Souza, o filme tem como título original 400 Contra 1 - Uma História do Crime Organizado. A trama é baseada no livro autobiográfico de William da Silva Lima, um dos fundadores do Comando Vermelho. No IMDb, a obra ostenta uma nota modesta de 5,3/10, o que reflete bem a recepção mista do público e da crítica.

 

O elenco principal conta com Daniel de Oliveira no papel do protagonista William, além de nomes como Fabrício Boliveira (Cavanha), Daniela Escobar (Tereza), Negra Li (Geni) e Jonathan Azevedo. As gravações ocorreram em locações marcantes, incluindo o próprio presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro, o famoso "Caldeirão do Diabo". A trilha sonora, assinada por Max de Castro, é um ponto alto e muito relevante: ela mistura groove, soul e ritmos urbanos para dar o tom certo de tensão e estilo às sequências de assaltos dos anos 70 e 80. 

Como a trama desenvolve a criação da facção? 

A narrativa foca no encontro dentro do Instituto Penal Cândido Mendes entre criminosos comuns e presos políticos detidos pela ditadura militar. É desse choque cultural e ideológico que surge a ideia de organização, solidariedade e proteção mútua entre os detentos. O roteiro mostra como preceitos de respeito e divisão de tarefas se transformaram em uma rede de poder que logo transbordou para os assaltos a bancos nas ruas cariocas. 

Quais são as principais curiosidades e recepção de premiações? 

O filme não teve um caminho marcado por grandes prêmios no circuito de festivais, focando mais no apelo comercial e na distribuição em salas de cinema nacionais. Entre as curiosidades dos bastidores, destaca-se o desafio de rodar em um presídio real desativado, o que trouxe uma atmosfera claustrofóbica e autêntica para a fotografia. Além disso, o autor do livro original, William da Silva Lima, continuava em situação com a justiça na época da produção, trazendo ainda mais debate sobre o tom do longa. 

O filme realmente vale a pena ser assistido? 

Sendo bem sincero sobre a qualidade técnica, o filme tem problemas claros. As atuações no geral e a maquiagem deixam a desejar, pecando em momentos dramáticos decisivos e no envelhecimento dos personagens ao longo das décadas. No entanto, a produção ainda se sustenta. Vale pelo contexto histórico e a compreensão da formação das facções no Brasil, mostrando como a ausência do Estado dentro dos presídios acabou gestando um poder paralelo gigantesco. Se você curte o gênero policial e quer entender mais sobre a história recente do país, é uma pedida interessante para encarar sem grandes expectativas técnicas. 

No fim das contas, a obra funciona como um registro simplificado sobre o impacto da convivência forçada entre o crime comum e os movimentos políticos na Ilha Grande. Para quem busca entender a gênese desse cenário sob uma perspectiva focada em ação e lealdade de grupo, a experiência entrega um panorama válido.

 

O Cheiro do Ralo

 

Se você curte aquele tipo de cinema que te deixa meio desconfortável, mas totalmente preso na tela, senta aí. Vamos trocar uma ideia sobre um dos filmes mais viscerais, bizarros e geniais do cinema brasileiro moderno: O Cheiro do Ralo.

Lembro perfeitamente da primeira vez que assisti a essa obra de arte meio torta. Sabe aquela sensação de entrar num lugar meio decadente, onde o ar é pesado, mas você simplesmente não consegue dar meia-volta? É exatamente isso. O filme é um soco no estômago disfarçado de comédia ácida, e hoje eu vou te contar por que ele merece sua atenção.

Qual é a história por trás de O Cheiro do Ralo?

Lançado nos cinemas em 2007 (embora tenha rodado festivais em 2006), o longa é baseado no livro homônimo do quadrinista Lourenço Mutarelli. A trama acompanha Lourenço, um homem que ganha a vida comprando objetos usados de pessoas que estão na pior, espremidas pela grana.

Ele opera em um escritório cinzento e claustrofóbico em São Paulo, que serve como a locação principal e quase como um personagem vivo da história. É ali dentro que a mágica (ou a desgraça) acontece. Lourenço não compra apenas relógios velhos ou discos riscados; ele se alimenta da dignidade e do desespero dos outros, sentindo um prazer quase sexual em pagar uma mixaria pelas memórias das pessoas. Tudo isso enquanto um cheiro insuportável, vindo do ralo do banheiro do escritório, começa a empestear o lugar e a mente dele.

Quem dá vida a esse universo bizarro?

O filme tem o título original idêntico ao do livro, O Cheiro do Ralo, e foi comandado pelo diretor Heitor Dhalia, que conseguiu traduzir perfeitamente o clima claustrofóbico e a mente perturbada do protagonista.

No elenco, temos uma atuação que, para mim, é a melhor da carreira do Selton Mello. Ele interpreta o Lourenço com um cinismo, uma frieza e, ao mesmo tempo, uma fragilidade que pouquíssimos atores conseguiriam entregar. No elenco de apoio, temos figuras incríveis como Paula Braun (a dona da bunda que vira a obsessão dele), Lourenço Mutarelli (o próprio autor do livro faz uma ponta genial como o segurança), além de participações de peso como Lázaro Ramos, Milhem Cortaz e Martha Meola. Cada vendedor que entra naquela sala traz um peso dramático bizarro para a tela.

Quais são as maiores curiosidades sobre a produção?

Uma das coisas que mais pira nesse filme é como ele foi feito. Mutarelli escreveu o livro em um momento difícil, e a adaptação pro cinema manteve essa crueza.

·         Metacinema: O criador da história, Lourenço Mutarelli, atua no filme como o segurança silencioso que passa o tempo todo ao lado do protagonista. É quase como se o criador estivesse vigiando sua própria criatura perder o controle.

·         Orçamento apertado: O filme foi rodado em pouquíssimo tempo e com um orçamento bem enxuto, o que acabou jogando a favor da estética. A locação única do escritório foca toda a nossa atenção nos diálogos e nas expressões faciais.

·         Nota no IMDb: No termômetro gringo e dos cinéfilos, o filme sustenta uma nota 7.3 no IMDb, uma avaliação bem sólida para um filme independente e com um humor tão fora do padrão.

Vale a pena assistir a essa obra hoje em dia?

Sendo muito direto com você: vale cada minuto, mas não vá esperando um filme leve para assistir comendo pipoca no domingo à tarde. A minha crítica sobre a obra é que ela funciona como um espelho meio sujo da nossa própria ganância e das nossas obsessões mais mesquinhas.

O filme mexe muito com o ego, com o poder e com a objetificação — tanto das coisas quanto das pessoas. A busca implacável do protagonista por controle vai desmoronando conforme o cheiro do ralo piora. É uma metáfora animal para a podridão interna que a gente tenta esconder atrás de posses ou de uma postura de superioridade. No fim das contas, a produção entrega uma narrativa fluida, diálogos afiados e um final daqueles que te deixa pensativo por alguns dias, olhando para o teto e processando o que acabou de ver. Se você gosta de um cinema de respeito, com identidade e sem medo de chocar, faça um favor a si mesmo e vá atrás de assistir.

 

Cidade de Deus

 


"Cidade de Deus": 

Lembro-me bem da primeira vez que ouvi falar de Cidade de Deus. Era 2002 e o burburinho já estava enorme, algo que ia muito além do cinema brasileiro comum. Como alguém que aprecia uma boa história, especialmente aquelas que nos tiram da zona de conforto, tive que conferir. E, honestamente, é uma experiência que carrego até hoje. Este não é só um filme; é um retrato cru e frenético de uma realidade complexa, contado com uma energia que poucos conseguem replicar.

A Trajetória de um Clássico Inesperado

Quando Cidade de Deus chegou aos cinemas em 30 de agosto de 2002, causou um impacto imediato. Seu título original, que é o mesmo, "Cidade de Deus", não podia ser mais direto. O longa foi aclamado tanto no Brasil quanto no exterior, e rapidamente se tornou um marco do cinema mundial. O filme é baseado em fatos, adaptando o livro homônimo de Paulo Lins, mas a forma como a história foi contada na tela é o que realmente o elevou. A direção de Fernando Meirelles (em parceria com Kátia Lund) é um show à parte, imprimindo um ritmo alucinante e uma estética quase documental, mas incrivelmente estilizada.

  • Diretor: Fernando Meirelles (co-direção de Kátia Lund)

  • Lançamento: 30 de agosto de 2002 (Brasil)

  • Atores Principais: Alexandre Rodrigues (Buscapé), Leandro Firmino (Zé Pequeno), Phellipe Haagensen (Bené), Seu Jorge (Mané Galinha).

Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a escolha do elenco. Muitos dos atores eram não-profissionais e vieram da própria comunidade. Isso injetou uma autenticidade na atuação que é palpável. O Leandro Firmino, como Zé Pequeno, por exemplo, é de um carisma aterrorizante.

Por Trás das Câmeras: Trilha, Locações e a Nota que Não Mente

Se você está buscando um filme que te prenda do início ao fim, a nota do IMDb não mente. Cidade de Deus ostenta uma impressionante nota de 8.6/10, solidificando sua posição entre os melhores filmes já feitos. E eu entendo o porquê.

trilha sonora é um personagem à parte. Misturando ritmos brasileiros como samba, funk e soul, ela complementa a narrativa de forma genial. Ela te coloca dentro da ação, vibrando com a energia da rua. Músicas como "Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda" (Kid Abelha) e a marcante composição original de Antonio Pinto e Ed Cortês ajudam a ditar o tom da história de forma espetacular.

Quanto às locações de filmagem, curiosamente, o filme não foi gravado na verdadeira Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, devido à logística e, claro, à segurança. A maior parte das cenas foi rodada na região conhecida como Conjunto Habitacional Cidade Alta, também no Rio de Janeiro. A produção conseguiu recriar o ambiente de forma tão fiel que a diferença é imperceptível para o espectador.

Curiosidades: A História que Continua Impactando

Um detalhe que achei fascinante sobre a produção foi a forma como o diretor Fernando Meirelles trabalhou com o elenco jovem. Ele usou técnicas de improvisação e jogos de atuação para desenvolver as performances. Isso resultou em cenas com uma naturalidade e espontaneidade incríveis, fugindo do melodrama.

Outra curiosidade importante é que o filme recebeu quatro indicações ao Oscar em 2004, incluindo Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado. O fato de um filme brasileiro, com elenco majoritariamente não-profissional e gravado em português, ter alcançado tal feito mostra a força da sua história e da sua execução técnica.

  • A versão inicial do filme tinha mais de 3 horas; a versão final foi editada para um ritmo mais acelerado.

  • O ator Seu Jorge, que interpreta Mané Galinha, já era um músico renomado antes do filme, mas foi o longa que o impulsionou para a carreira internacional no cinema.

Um Veredito

Cidade de Deus é uma aula de cinema e de história. A narrativa, contada através dos olhos do Buscapé, um jovem que sonha em ser fotógrafo e se recusa a entrar para o crime, te guia por décadas de transformações na comunidade. A forma como ele lida com a violência e a esperança, sem sentimentalismo exagerado, é o que torna o filme tão poderoso para mim. Não vou dar spoilers, mas posso garantir: a jornada de amadurecimento e sobrevivência é intensa e eletrizante.

Se você ainda não viu, ou se faz tempo que viu, vale a pena revisitar essa obra-prima. É um filme que te faz refletir sobre o caos, a resilição e as escolhas que definem uma vida, tudo isso com uma qualidade técnica de tirar o chapéu. Definitivamente, um dos melhores filmes que já assisti.