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No Mundo de 2020 (Soylent Green)


Se você curte ficção científica das boas, daquelas que te dão um sentimento de nulidade e fazem você olhar para o prato de comida com uma certa desconfiança, precisa conhecer o universo sombrio de Soylent Green (lançado no Brasil com o título No Mundo de 2020). Há algum tempo decidi rever esse clássico dos anos 1970 para ver como ele tinha envelhecido. O resultado? O filme continua atual, incômodo e com uma atmosfera pesada que prende do começo ao fim. 

Aqui vou te contar por que essa obra é um marco do cinema distópico, passando pelos bastidores, premiações e o motivo dessa história ainda nos fazer pensar.

Como é a história de No Mundo de 2020?

A trama nos joga em uma Nova York sufocante. O planeta foi devastado pelo superaquecimento global, pela poluição e pelo colapso dos recursos naturais. A população da cidade passa de 40 milhões de pessoas, todas amontoadas em escadarias, ruas e carros velhos. Comida de verdade — como carne, frutas ou um simples pedaço de queijo — virou um luxo inacessível, exclusivo para uma elite bilionária. A massa sobrevive à base de rações sintéticas distribuídas pelo governo, produzidas pela corporação Soylent. A mais nova e cobiçada ração é o tal Soylent Green, um tablete verde supostamente feito de plâncton marinho. 

Nesse cenário decadente, eu acompanho o detetive Frank Thorn (interpretado pelo lendário Charlton Heston). Ele é um sujeito cascudo, durão, mas prático, que tenta fazer o seu trabalho enquanto divide um quarto caindo aos pedaços com Sol Roth, um idoso intelectual que ainda se lembra de como o mundo era bonito antes do colapso. Quando um dos diretores da Soylent Corporation é assassinado em seu apartamento de luxo, Thorn é escalado para investigar. O que parecia um assalto comum logo se transforma em uma teia de conspiração, levando o detetive a descobrir um segredo macabro sobre a verdadeira origem daquele alimento.

Quais são os detalhes técnicos e o elenco do filme?

Lançado originalmente em 1973 sob o título Soylent Green, o filme tem uma nota bem justa no IMDb: 6,9/10. A direção ficou nas mãos de Richard Fleischer, um cara que sabia conduzir um suspense urbano com mestria. 

O elenco é um show à parte:

·         Charlton Heston faz o detetive Frank Thorn com aquele carisma bruto e focado. 

·         Edward G. Robinson entrega uma atuação emocionante como Sol Roth. 

·         Leigh Taylor-Young interpreta Shirl. 

·         Joseph Cotten aparece como o executivo assassinado, William R. Simonson. 

A produção foi toda filmada nos estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer, em Califórnia, mas a direção de arte e a fotografia conseguem criar a ilusão perfeita de uma Nova York abafada, suja e superpovoada. 

Outro ponto alto é o uso da trilha sonora. A música composta por Fred Myrow dita o tom tenso da investigação. No entanto, o ápice musical acontece em uma cena clássica ao som de compositores eruditos como Beethoven e Tchaikovsky. A música clássica contrasta com a feiura do mundo lá fora, criando um momento de pura poesia triste.

Quais premiações e curiosidades marcam essa obra?

O impacto do filme na época foi imediato. Em 1973, ele venceu o Saturn Award de Melhor Filme de Ficção Científica e levou também o prestigiado Nebula Award de Melhor Apresentação Dramática. 

Nos bastidores, o filme carrega histórias marcantes:

·         A despedida de uma lenda: Edward G. Robinson estava muito doente durante as filmagens e faleceu poucas semanas após o término das gravações. Soylent Green foi o seu último filme. A emocionante cena de despedida do seu personagem ganha um peso surreal quando você sabe que Heston estava chorando de verdade no set, sabendo do estado de saúde do amigo. 

·         Adaptação literária: O filme foi vagamente baseado no livro Make Room! Make Room! (1966), de Harry Harrison. Porém, a grande reviravolta sobre a composição da ração verde foi criada para o cinema. 

·         O ano da ficção: Embora no Brasil o filme tenha recebido o título No Mundo de 2020, a história original se passa no ano de 2022. 

Qual é a verdadeira crítica por trás do filme?

Olhando para a obra hoje, ela vai muito além de um simples filme de suspense com estética setentista. A fita faz uma crítica ao consumismo desbragado, à destruição do meio ambiente e ao controle corporativo sobre as necessidades mais básicas da humanidade. 

O que mais impressiona é a frieza com que a sociedade daquele futuro trata a vida humana. Os idosos e pobres são vistos como estorvo ou recurso, enquanto os ricos vivem em bolhas com ar-condicionado e comida de verdade. A jornada de Frank Thorn não é a de um herói que vai salvar o planeta; é a busca de um homem comum tentando manter um mínimo de dignidade no meio do caos. O desfecho, com o famoso grito de revelação de Heston, permanece como um dos momentos mais marcantes da história do cinema cult. 

Se você gosta de ficção científica com pegada policial, pé no chão e uma mensagem que dá o que pensar, vale a pena colocar esse clássico na sua lista.

Oblivion

 

Se você curte uma boa ficção científica, daquelas com visual de tirar o fôlego, naves animais e uma trama que te faz explodir a cabeça no final, senta aí. Hoje eu quero trocar uma ideia sobre um filme que, na minha opinião, merece muito mais destaque do que teve na época do seu lançamento. Estou falando de Oblivion, um baita projeto que combina mistério, isolamento e máquinas futuristas de um jeito único.

Quando assisti a esse filme pela primeira vez, o que me pegou de cara foi a solidão do protagonista no meio de uma Terra completamente devastada, cuidando de drones de combate e tentando entender o que sobrou da nossa história. Se você gosta de mecânica, tecnologia de ponta e cenários pós-apocalípticos brutais, mas incrivelmente belos, esse filme foi feito para você. Vamos destrinchar o que torna essa obra tão marcante.

Qual é o contexto inicial e a história de Oblivion?

O longa nos transporta para o ano de 2077. A Terra foi atacada por uma raça alienígena e, embora a humanidade tenha vencido a guerra, o planeta ficou totalmente destruído e radioativo. Os sobreviventes migraram para Titã, uma das luas de Saturno. É aí que entra o protagonista, Jack Harper.

Ele é um dos poucos técnicos que restaram no planeta, responsável pela manutenção dos drones de segurança que protegem gigantescas plataformas que sugam a água dos oceanos para gerar energia para a colônia em Titã. Junto com sua parceira e oficial de comunicações, Victoria, ele vive em uma base flutuante espetacular chamada de "Torre de Comando". Faltando apenas duas semanas para terminar sua missão e finalmente se juntar ao resto da humanidade, Jack resgata uma linda desconhecida de uma nave que caiu, o que faz com que ele comece a questionar absolutamente tudo o que sabe sobre a guerra, sobre o planeta e sobre si mesmo.

Quem está por trás da ficha técnica e do elenco do filme?

Lançado originalmente com o título Oblivion no ano de lançamento de 2013, o filme tem uma identidade visual e sonora absurda. A direção ficou nas mãos de Joseph Kosinski, o mesmo cara que depois comandou o espetacular Top Gun: Maverick. Dá para perceber que o cara entende de tomadas aéreas e velocidade, porque o design da nave do protagonista (a Bubble Ship) e as cenas de perseguição no céu são espetaculares.

No elenco, temos ninguém menos que Tom Cruise interpretando Jack Harper com a intensidade física e o carisma de sempre — o cara realmente entrega tudo nas cenas de ação. Ao lado dele, temos o lendário Morgan Freeman como Malcolm Beech, um líder enigmático que muda o rumo da história, Olga Kurylenko como Julia, a mulher misteriosa do passado de Jack, e Andrea Riseborough como Victoria, mantendo a ordem na base. Atualmente, o longa sustenta uma nota IMDb de 7,0, uma pontuação sólida, mas que, na minha humilde opinião, poderia ser ainda mais alta pelo nível de entrega técnica da produção.

Onde foram feitas as filmagens e quais são as melhores curiosidades?

Uma das coisas que mais chama a atenção em Oblivion é que a destruição do planeta não parece artificial. Isso acontece porque a principal locação escolhida para representar a Terra devastada foi a Islândia. Kosinski levou a equipe para gravar em desertos de areia negra vulcânica e formações rochosas reais sob o sol da meia-noite, dando um tom visceral e cru para os cenários.

Entre as maiores curiosidades dos bastidores, destaca-se a engenhosidade do diretor em relação aos efeitos visuais. Ele e o diretor de fotografia odiavam usar telas azuis ou verdes para as cenas na Torre de Comando de vidro. A solução? Eles subiram o vulcão Haleakalā, no Havaí, filmaram o céu e as nuvens em altíssima resolução por semanas e projetaram essas imagens ao vivo em telas gigantescas de LED em volta do cenário. Toda aquela luz suave do amanhecer ou do pôr do sol que bate no rosto dos atores é real, o que dá um realismo impressionante para o ambiente. Além disso, a trilha sonora foi composta pela banda eletrônica francesa M83, criando uma atmosfera futurista e nostálgica que gruda na cabeça.

Vale a pena assistir? Confira a nossa crítica da obra

Se você está procurando uma ficção científica raiz, que não foca apenas em explosões baratas, mas sim em mistério e no peso das escolhas de um homem, a resposta é um baita sim. Oblivion funciona muito bem porque mexe com o nosso instinto de exploração e sobrevivência. Jack Harper é o tipo de protagonista com quem a gente se identifica: um cara focado no trabalho, fã de rock clássico (com direito a vinil no seu refúgio secreto), mas que não consegue ignorar quando sente que algo está profundamente errado.

A reviravolta na metade do filme muda totalmente a perspectiva da narrativa e te faz rever os detalhes desde o início. Os drones de combate têm um design intimidador e um som mecânico assustador, funcionando quase como personagens na caçada humana que se desenrola. O ritmo pode parecer um pouco mais cadenciado no começo para construir o mistério, mas o terceiro ato entrega toda a adrenalina e as respostas que a gente espera. É um filme inteligente, esteticamente impecável e com uma identidade muito própria que se sustenta muito bem mesmo anos após o lançamento. Se você ainda não viu, vale cada minuto no sofá.