Se você cresceu ouvindo os graves de "Billie Jean" ou tentando
imitar o Moonwalk na sala de casa, sabe o peso que o nome de Michael Jackson
carrega. Quando anunciaram uma cinebiografia grandiosa sobre o Rei do Pop, o
mundo inteiro olhou com desconfiança. Afinal, como resumir uma das vidas mais
complexas, geniais e controversas da história da cultura pop em algumas horas
de projeção?
Assisti ao filme com aquela velha postura de quem morde o lábio e espera
ver mais do mesmo, mas saí da sala impressionado com a escala do projeto. O
longa não quer ser apenas um documentário musical; ele tenta ser um drama
visceral sobre o preço da genialidade e a pressão de carregar o mundo nas
costas desde a infância.
Qual é o foco da história em Michael?
Lançado no circuito comercial em 2026 com o título
original de apenas Michael, o longa foca na ascensão
meteórica e no auge criativo do artista. A narrativa não perde tempo e nos joga
direto na dinâmica pesada dos anos 1960 com o Jackson 5, mostrando o início da
genialidade do garoto em Gary, Indiana, e vai rasgando o tempo até a gigantesca
turnê mundial do álbum Bad, no final da década de 1980.
Quem comanda a engrenagem atrás das câmeras é o diretor Antoine Fuqua, um cara que sabe filmar tensão e ritmo
como poucos (basta lembrar de Dia de Treinamento).
Fuqua traz um peso dramático cru para a infância de Michael, mostrando os
ensaios exaustivos comandados pelo pai, e equilibra isso com sequências de
dança que parecem verdadeiros espetáculos de arena dentro do cinema.
Quem assume a responsabilidade de
interpretar o Rei do Pop?
O maior acerto do filme foi uma aposta de risco que pagou cada centavo.
O papel principal ficou com Jaafar Jackson, que
é simplesmente o sobrinho da vida real de Michael. O cara faz sua estreia no
cinema entregando uma atuação impressionante. Não é uma imitação barata de
programa de humor; ele pegou os trejeitos, o olhar tímido nas entrevistas e a
energia explosiva do tio no palco de um jeito quase assustador. A versão
infantil do cantor fica por conta do jovem Juliano Valdi, que também manda
muito bem.
No elenco de apoio, o nível continua alto. Colman Domingo
entrega um Joseph Jackson intimidador e complexo — você consegue sentir o medo
que os filhos tinham dele, mas o roteiro também mostra sua visão comercial
implacável. Nia Long interpreta a mãe, Katherine, servindo como o
porto seguro da família, enquanto Miles Teller aparece
na pele de John Branca, o icônico e estratégico advogado de Michael. Temos
ainda Laura Harrier interpretando Suzanne de Passe, a executiva da Motown que
ajudou a catapultar o grupo ao estrelato.
Quais foram as locações reais e as
principais curiosidades da produção?
Para fazer o público acreditar no que estava vendo, a produção não
economizou. As filmagens aconteceram inteiramente no estado da Califórnia, nos Estados Unidos. O nível de compromisso
com o mundo real do cantor foi bizarro: a equipe restaurou o verdadeiro rancho
de Neverland, em Los Olivos, trazendo de volta os brinquedos do parque de
diversões para as telas.
O trabalho de reconstrução histórica rendeu bastidores fantásticos que merecem
destaque:
·
No mesmo chão: A clássica sequência de dança de
"Thriller" foi rodada exatamente na Union Pacific Avenue, na zona
leste de Los Angeles — a mesma rua onde o videoclipe original foi gravado em
1983.
·
Guarda-roupa de peso: A cantora Lady
Gaga, que é fã assumida e comprou centenas de figurinos originais de Michael em
leilões ao longo dos anos, emprestou várias peças reais do cantor para a
produção usar nas filmagens.
·
Nostalgia comercial: Eles reconstruíram
uma loja inteira da Toys "R" Us dos anos 1980 do zero apenas para
ilustrar as famosas idas do cantor às compras na calada da noite.
O que a crítica achou e o filme
realmente vale o seu ingresso?
Atualmente, o longa sustenta uma nota 7.7 no IMDb,
uma média muito sólida que reflete o impacto direto com o público.
Minha leitura sobre a obra é que ela funciona como um espetáculo visual
e musical impecável, mas tem seus pontos de debate. O filme é blindado pela
família e pelo espólio do cantor, o que significa que o roteiro de John Logan
dá uma bela suavizada nas polêmicas mais pesadas que cercaram a vida do astro,
focando mais na sua perspectiva de isolamento e incompreensão.
Se você procura uma investigação jornalística profunda e ácida, talvez
saia um pouco frustrado. Porém, como cinema, a experiência é brutal. A edição
de som é espetacular e a fotografia de Dion Beebe transforma cada show em um
soco de nostalgia. Vale muito o ingresso pela performance histórica de Jaafar
Jackson e pela chance de entender, pelo menos um pouco, o que se passava na
cabeça do homem mais famoso do planeta.
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