Sabe quando você apaga as luzes, senta no sofá e coloca um filme
esperando aqueles sustos fáceis, cheios de barulho, mas acaba encontrando algo
que gruda na sua mente de um jeito completamente diferente? Foi exatamente isso
que me aconteceu quando decidi assistir a A Maldição da Bruxa.
Se você curte o chamado "terror de atmosfera" — aquele que não tem
pressa nenhuma de te assustar, mas te deixa desconfortável do primeiro ao
último minuto —, precisa entender o peso dessa obra.
Como o filme constrói sua atmosfera
sombria?
Lançado oficialmente em 2017, o longa é uma
produção independente que foge totalmente daquela fórmula batida que Hollywood
adora repetir. O título original é Hagazussa (ou Hagazussa: A Heathen's Curse), uma palavra do antigo
alemão que se refere justamente à figura da bruxa ou criatura da floresta.
A história se passa no século XV, no topo dos Alpes Austríacos.
Acompanhamos a vida de Albrun, uma mulher que cresce isolada do mundo, cercada
pela paranoia, pela extrema rejeição dos moradores locais e pela forte sombra
da herança pagã de sua mãe. O filme não tem grandes discursos. Na verdade,
quase não há diálogos. Tudo é construído através do som do vento, do rangido
das árvores e do isolamento brutal daquela realidade.
Quem está por trás da direção e do
elenco?
Quem comanda essa jornada visual impressionante é o diretor austríaco Lukas Feigelfeld. O mais surpreendente é que este foi o
filme de estreia dele, desenvolvido originalmente como seu projeto de conclusão
de curso de cinema. O cara demonstrou a maturidade de um veterano ao escolher
focar na construção visual e sensorial, dividindo a narrativa em quatro
capítulos muito bem definidos: Sombra, Chifre, Sangue e Fogo.
No elenco, o grande destaque vai para a atriz Aleksandra
Cwen, que interpreta a versão adulta de Albrun. Ela carrega o filme
praticamente inteira nas costas, entregando uma atuação quase silenciosa, mas
cheia de intensidade no olhar e na linguagem corporal. A versão jovem da
protagonista fica por conta de Celina Peter, e o
elenco de apoio ainda conta com nomes como Claudia Martini
(interpretando a mãe) e Tanja Petrovsky.
Onde o filme foi gravado e quais são
suas curiosidades?
A locação de A Maldição da Bruxa é, sem dúvidas,
um dos personagens principais da trama. As filmagens aconteceram nas paisagens
isoladas e imponentes dos Alpes Austríacos e
também em algumas regiões densas da Alemanha. O visual é
daqueles que te fazem sentir o frio e a umidade da floresta direto do sofá.
Por ser uma produção de baixo orçamento e independente, o filme guarda
algumas curiosidades de bastidores bem interessantes:
·
Trilha sonora de peso: A música arrastada
e perturbadora que dita o ritmo do filme foi inteiramente composta pelo duo
grego de música experimental MMMD (Mohammad). O
som é feito com instrumentos de corda graves que criam uma vibração constante
de angústia.
·
Orçamento curto, paciência longa: Lukas Feigelfeld
demorou cerca de quatro anos para conseguir finalizar o filme, contando com
campanhas de financiamento coletivo para dar conta dos custos de pós-produção.
·
A comparação inevitável: O filme costuma
ser muito comparado a The VVitch (A Bruxa, de Robert
Eggers), lançado um pouco antes. Embora bebam da mesma fonte do terror folclórico,
o longa austríaco consegue ser ainda mais experimental e ousado em suas
imagens.
Qual é a nota IMDb e a minha crítica
sobre a obra?
Atualmente, o filme sustenta uma nota IMDb de 5.8.
Pode parecer um número baixo para quem está acostumado com blockbusters, mas no
terreno do horror artístico e experimental, essa pontuação reflete o quanto a
obra divide opiniões. Ele não foi feito para agradar a massa.
Minha leitura sobre o filme é muito positiva, desde que você saiba
exatamente o que vai assistir. Não espere monstros pulando na tela ou
reviravoltas mirabolantes a cada dez minutos. O terror aqui é psicológico e
visceral. Ele lida com a degradação da sanidade mental de uma mulher caçada
pelo preconceito e pela solidão profunda.
As cenas finais são fortes, flertam com o delírio e a psicodelia, e
entregam imagens que, honestamente, são difíceis de esquecer. É uma experiência
pesada, crua e muito bonita visualmente. Se você tem estômago para narrativas
lentas que cobram a sua paciência e te pagam com puro desconforto psicológico,
apague as luzes e dê uma chance a esse pesadelo alpino.