Se você é fã de cinema nacional e curte uma boa história de guerra
baseada em fatos, precisa colocar Guerra de Canudos na
sua lista hoje mesmo. Lembro perfeitamente da primeira vez que assisti a esse
filme na escola e, mais tarde, com outros olhos, em casa. A produção
impressiona pelo realismo e pela crueza ao retratar um dos episódios mais
sangrentos e complexos da história do Brasil.
Bora bater um papo sobre esse clássico, entender o que funcionou, o que
ficou meio datado e por que ele ainda é tão atual?
Qual é o contexto inicial e a
história por trás do filme?
Para entender o filme, a gente precisa voltar um pouco no tempo, lá para
o final do século XIX, logo após a Proclamação da República. O Nordeste
enfrentava uma seca brutal, abandono político e muita miséria. É nesse cenário
castigado que surge Antônio Conselheiro, uma figura mística que começou a
arrastar multidões prometendo uma vida digna e a salvação espiritual.
Eles fundaram o arraial de Canudos, no sertão da Bahia. O problema é que
a comunidade cresceu tanto que começou a incomodar a Igreja e os grandes
latifundiários. O governo republicano viu aquilo como uma ameaça monarquista e
enviou o exército para destruir tudo. O filme foca justamente nesse choque: de
um lado, soldados armados até os dentes; do outro, sertanejos defendendo sua fé
e sua terra com o que tinham em mãos. É um soco no estômago sobre como o Estado
brasileiro historicamente lidou com as suas margens.
Quem está por trás da produção e qual
o ano de lançamento?
O longa chegou aos cinemas em 1997, bem no meio do
período que chamamos de Retomada do Cinema Novo, quando o país voltou a
produzir filmes de grande escala. O título original é
apenas Guerra de Canudos, direto e sem rodeios.
Quem assina a direção é o experiente Sérgio Rezende, um
cara que sabe como ninguém conduzir dramas históricos e épicos políticos no
Brasil. Ele conseguiu transformar um orçamento apertado para os padrões
hollywoodianos em uma produção monumental para a nossa realidade na época,
entregando batalhas campais épicas e uma fotografia que sufoca a gente com o
calor do sertão.
Atualmente, se você buscar a nota IMDb do filme,
vai ver que ele ostenta um 6.5/10. Olha, sendo
bem sincero, acho uma nota injusta. Para quem avalia de fora, talvez pareça
apenas mais um drama histórico, mas para nós, brasileiros, o peso cultural e o
valor da produção mereciam pelo menos um 7.5.
Como funciona o elenco e onde foram
as locações?
O elenco desse filme é uma verdadeira seleção brasileira de talentos. O
mestre José Wilker entrega um Antônio Conselheiro visceral,
magnético e assustador na medida certa. Ao lado dele, temos Marieta Severo e um jovem Selton Mello, que
dão um show de atuação. Mas, para mim, quem rouba a cena é Paulo Betti no papel do Zé Lucena, mostrando o lado
militar e a tensão da guerra.
Para dar o tom de realismo necessário, Rezende não quis saber de estúdio
fechado. As locações principais foram no próprio sertão da Bahia,
em cidades como Canudos (a nova cidade, já que a antiga foi inundada por uma
represa) e arredores.
O clima pesado, a poeira e o sol escalpante que você vê na tela não são
efeitos especiais; os atores realmente comeram poeira e suaram a camisa ali no
calor do Nordeste, o que trouxe uma crueza foda para o resultado final.
Quais são as principais curiosidades
e a minha crítica da obra?
Uma das maiores curiosidades da produção é que,
para construir o arraial que seria destruído nas cenas de batalha, a equipe
ergueu uma cidade cenográfica gigante. Eles contrataram centenas de moradores
locais como figurantes. Isso gerou emprego na região e trouxe uma autenticidade
absurda para as telas, já que muitos daqueles figurantes eram descendentes
diretos dos sobreviventes reais da guerra. É mole?
Analisando a obra hoje, minha crítica é muito
positiva, embora com algumas ressalvas. O ritmo do filme é excelente, as cenas
de combate são brutais e não poupam o espectador da violência da guerra. A
trilha sonora também ajuda a ditar a tensão de forma cirúrgica.
O único ponto fraco, a meu ver, é que em alguns momentos o roteiro tenta
criar subtramas românticas ou melodramáticas que quebram um pouco o peso do
documentário histórico. Eu preferia que o foco ficasse 100% na estratégia
militar e no fanatismo de ambos os lados. Mesmo assim, continua sendo um
filmaço indispensável, um soco no peito que mostra que a nossa história não é
feita apenas de heróis, mas de muitas feridas abertas. Vale cada minuto do seu
tempo.
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