O Chamado (The Ring)

 

Se você viveu a virada dos anos 90 para os anos 2000, sabe muito bem que o terror mudou da água para o vinho em um piscar de olhos. Nós vínhamos de uma onda de assassinos mascarados com tiradas sarcásticas, mas, de repente, o medo mudou de formato. Lembro perfeitamente da sensação de frio na espinha quando assisti a um filme que fez todo mundo olhar para o aparelho de TV com desconfiança. Estou falando de uma obra-prima do suspense psicológico que pegou um conceito simples — uma fita VHS amaldiçoada — e o transformou no pior pesadelo de uma geração.

O filme em questão é O Chamado, cujo título original é The Ring. Lançado nos cinemas em 2002, o longa se tornou um divisor de águas absoluto. No agregador de notas IMDb, ele sustenta uma média sólida de 7,1/10, o que é um feito e tanto para o gênero de terror, que costuma sofrer na mão dos críticos e do público. O comando de toda essa atmosfera sufocante ficou por conta do diretor Gore Verbinski, que mais tarde ficaria famoso por Piratas do Caribe. No elenco, temos uma atuação impecável de Naomi Watts como a protagonista Rachel Keller, acompanhada por Martin Henderson (Noah), David Dorfman (o bizarro garotinho Aidan) e Brian Cox.

Como a atmosfera fria de O Chamado foi construída?

Para criar aquela sensação constante de desespero e isolamento, a escolha das locações foi fundamental. A maior parte das filmagens externas aconteceu no Noroeste Pacífico dos Estados Unidos, passando por cidades do estado de Washington, como Seattle e Monroe, além do litoral do Oregon.

Toda aquela paleta de cores verde-azulada e cinzenta não foi por acaso. A equipe buscou o clima nublado e chuvoso daquela região para dar um tom melancólico e claustrofóbico à história. Sabe aquela cabine isolada onde a fita é assistida pela primeira vez? Ela fica em Stanwood, Washington. Já o icônico e sombrio farol da fictícia Ilha de Moesko é, na verdade, o Yaquina Head Lighthouse, localizado em Newport, Oregon. Curiosamente, quase todas as cenas de interiores foram rodadas em estúdios bem ensolarados em Los Angeles, na Califórnia, provando a genialidade da equipe de design de produção e fotografia em manter o clima gelado.

Quais são as maiores curiosidades dos bastidores da produção?

Produções desse calibre sempre carregam histórias bizarras de bastidores, e com essa não foi diferente. Uma das lendas urbanas mais famosas envolve a icônica árvore de folhas vermelhas que aparece perto do poço de Samara. Aquela árvore, batizada de "Árvore de Fogo", era completamente artificial, feita de tubos de aço e gesso com folhas de seda. O bizarro é que, todas as vezes que a equipe a montava nas locações em Washington, ventos misteriosos de quase 160 km/h surgiam do nada e a derrubavam. Eles tentaram montá-la novamente em Los Angeles, em um dia perfeitamente calmo, e uma ventania isolada de 100 km/h a destruiu de novo.

Outro detalhe genial de marketing da época: para promover o lançamento em 2002, a distribuidora jogou cópias da fita amaldiçoada (sem nenhum logotipo ou aviso do filme) nos para-brisas de carros e em assentos de cinemas. Quem pegava o VHS e colocava no videocassete assistia exatamente ao mesmo vídeo bizarro do filme, terminando com a tela preta. Imagina o susto do sujeito em casa recebendo aquilo do nada. Além disso, se você prestar atenção ao filme inteiro, não há um único corte de cena tradicional (o famoso "fade to black" ou transição suave). Cada corte é seco e abrupto, feito de propósito para manter o seu cérebro em constante estado de alerta.

Por que o filme se tornou um clássico absoluto do terror?

Se olharmos para trás com distanciamento crítico, o grande mérito de O Chamado foi saber traduzir o terror oriental para o público ocidental sem perder a essência. Ele é um remake de Ringu (filme japonês de 1998 baseado no livro de Koji Suzuki), mas Verbinski adicionou uma roupagem de investigação policial que funciona como um relógio. Rachel não está apenas fugindo de um monstro; ela é uma jornalista correndo contra o tempo para decifrar um quebra-cabeça e salvar a vida do próprio filho.

O ritmo do filme é um baita exemplo de como conduzir uma narrativa sem precisar apelar para sangue coagulado ou monstros pulando na tela a cada cinco minutos. O medo aqui é psicológico, construído através do som estático da TV, de imagens desconfortáveis e do peso do prazo dos "sete dias". É um filme visualmente limpo, elegante e pesado, que joga com o inevitável. Quando a famosa cena da TV acontece no terceiro ato, o impacto é devastador justamente porque o filme passou duas horas preparando o terreno na sua mente.

O Chamado ainda consegue assustar nos dias de hoje?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Estamos em 2026, a tecnologia de fita VHS virou peça de museu e as novas gerações mal sabem o que é o som de uma linha telefônica fixa chamando. À primeira vista, o conceito central do filme poderia parecer datado. Mas a verdade é que o medo do desconhecido e a sensação de que o tempo está correndo contra você são sentimentos universais.

O design de som e a trilha sonora minimalista de Hans Zimmer envelheceram como um bom vinho. Mesmo se você assistir hoje em uma tela de alta definição via streaming, aquela estética industrial e fria do início dos anos 2000 ainda cumpre o papel de te deixar desconfortável na poltrona. A figura de Samara Morgan, com o cabelo jogado para a frente e o corpo retorcido, transcendeu a própria obra e virou um ícone da cultura pop. Se você quer um suspense de primeira linha, bem amarrado e focado na atmosfera, apague as luzes da sala e dê o play. Só garanta que o seu celular esteja no silencioso para evitar sustos desnecessários depois que os créditos rolarem.

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