Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness)

 

Assistir a Ensaio sobre a Cegueira (Blindness) é um daqueles exercícios que tiram a gente da zona de conforto. Baseado na obra-prima de José Saramago, o filme não tenta ser gentil. Ele te joga em uma situação limite onde a humanidade perde a visão e, consequentemente, as suas máscaras sociais. É um soco no estômago, mas do tipo que faz a gente pensar por dias.

Lançado em 2008, com direção do brasileiro Fernando Meirelles, o longa carrega uma nota 6.6 no IMDb. Pode parecer uma nota mediana, mas não se engane: o filme é polarizador justamente porque é cru. Com um elenco de peso liderado por Julianne MooreMark RuffaloGael García Bernal e Alice Braga, a trama explora o colapso de uma civilização atingida por uma "treva branca" inexplicável.

Como começa a trama de Ensaio sobre a Cegueira?

A história não perde tempo com explicações científicas, e isso é o que eu acho mais interessante. Um homem fica cego no trânsito, mas em vez de escuridão, ele vê apenas um branco leitoso. Rapidamente, essa "cegueira branca" se torna uma epidemia. O governo, em uma tentativa desesperada e inútil de contenção, decide isolar os primeiros infectados em um hospital psiquiátrico abandonado.

Acompanhamos a Mulher do Médico (Julianne Moore), que, por algum motivo, é a única que mantém a visão, mas finge estar cega para acompanhar o marido (Mark Ruffalo) no isolamento. Ali dentro, o cenário é de guerra: falta comida, falta higiene e sobra medo. O filme foca muito na degradação das relações humanas quando o instinto de sobrevivência fala mais alto que a moral.

Quem está por trás dessa produção internacional?

O que me chama a atenção é como essa produção conseguiu ser global sem perder a alma. O diretor Fernando Meirelles, vindo do sucesso de Cidade de Deus, trouxe uma estética muito específica. Ele usa o excesso de luz e o desfoque para que nós, espectadores, também nos sintamos um pouco "cegos" ou perdidos naquela brancura.

As locações também dão um tom realista e meio atemporal. Grande parte do filme foi rodada em São Paulo, usando o Edifício Copan e o Viaduto do Chá como cenários de uma metrópole em colapso. Outras cenas foram filmadas em Toronto e Montevidéu. Ver São Paulo servindo de palco para esse caos traz uma proximidade estranha e desconfortável para quem conhece a cidade.

Quais são as melhores curiosidades sobre o filme?

Existem alguns detalhes de bastidores que mostram o nível de dedicação da equipe. Meirelles e o elenco realmente queriam entender o que é não enxergar.

  • Laboratório de cegueira: Antes das filmagens, os atores passaram por workshops onde ficavam vendados por horas para aguçar os outros sentidos e entender a desorientação espacial.

  • O "Ok" de Saramago: O autor José Saramago era famosamente rígido com adaptações. Ele só cedeu os direitos após Meirelles garantir que o filme focaria na "desintegração social" e não em um filme de terror convencional.

  • Figuração de peso: Muitos figurantes nas cenas de isolamento eram, de fato, pessoas com deficiência visual, o que trouxe uma camada de autenticidade para a movimentação das massas no filme.

Vale a pena assistir ou ler o livro antes?

Minha opinião de quem gosta de um cinema mais direto: o filme é excelente como obra isolada. Ele consegue traduzir visualmente o que Saramago descreveu com pontuação caótica no papel. A crítica que faço é sobre o ritmo na metade final; o ambiente do hospital é tão opressor que pode cansar quem busca apenas entretenimento leve.

Julianne Moore entrega uma das melhores atuações da carreira. Ela é o nosso guia moral e visual. O filme questiona: se ninguém está vendo, o que nos impede de sermos monstros? Ou melhor, o que nos mantém humanos? É uma obra essencial para quem curte distopias realistas e quer algo que vá além da ação superficial. Se você curte histórias sobre a resiliência (e a podridão) humana, precisa dar o play. Ler o livro antes mudará a sua percepção sobre o filme e eu recomendo.



Gigolô Americano (American Gigolo)

 



O filme Gigolô Americano (American Gigolo), lançado em 1980, é um daqueles marcos que definiram não só uma estética, mas toda uma década que estava apenas começando. Assistir a essa obra hoje é como abrir uma cápsula do tempo para a Los Angeles dos anos 80: superfícies cromadas, ternos impecáveis e uma solidão profunda escondida sob luzes de neon.

No filme, acompanhamos Julian Kaye, interpretado por um Richard Gere no auge da forma. Ele vive uma vida de luxo sustentada pelo seu trabalho como acompanhante de luxo para mulheres ricas. Tudo vai bem até que ele se vê envolvido em uma trama de assassinato, onde sua única saída é contar com a ajuda de uma cliente por quem ele começa a desenvolver sentimentos reais.

Ficha Técnica e Contexto

  • Título Original: American Gigolo

  • Diretor: Paul Schrader

  • Elenco: Richard Gere, Lauren Hutton, Hector Elizondo e Bill Duke.

  • Nota IMDb: 6.3/10

  • Locação: Los Angeles, Califórnia (especialmente Beverly Hills e Malibu).

Por que Gigolô Americano mudou a estética do cinema?

A primeira coisa que você nota ao dar o play é o visual. O diretor Paul Schrader não queria apenas contar uma história de crime; ele queria mostrar a superfície fria e elegante do consumo. Foi aqui que o estilista Giorgio Armani fez sua estreia triunfal em Hollywood, vestindo Gere com cortes que transformaram o guarda-roupa masculino para sempre.

A paleta de cores, os carros conversíveis e a trilha sonora icônica de Giorgio Moroder (com o hit "Call Me", do Blondie) criaram uma atmosfera que influenciaria desde videoclipes até séries como Miami Vice. É um filme que você assiste tanto pela trama quanto pelo design de produção.

Qual é o peso da atuação de Richard Gere no filme?

Não dá para falar de Gigolô Americano sem mencionar que este foi o papel que transformou Richard Gere em um sex symbol global. Ele interpreta Julian com uma mistura de arrogância e vulnerabilidade. O cara é extremamente vaidoso — há uma cena famosa dele escolhendo roupas na cama que é pura ostentação de estilo — mas, conforme o cerco fecha, vemos o desespero de um homem que percebe que ninguém realmente se importa com ele além da sua aparência.

Lauren Hutton também entrega uma performance elegante como Michelle Stratton, a esposa de um político que se torna o interesse amoroso e o dilema moral de Julian. A química entre os dois funciona porque ambos parecem deslocados naquele mundo de aparências.

Quais são as curiosidades e bastidores da produção?

Uma das maiores curiosidades é que Richard Gere não foi a primeira escolha. O papel de Julian foi oferecido originalmente a John Travolta, que chegou a aceitar, mas desistiu pouco antes do início das filmagens. Christopher Reeve também recusou o convite. No fim das contas, a energia mais introspectiva de Gere caiu como uma luva para o tom existencialista que Schrader queria imprimir.

Outro ponto interessante é o carro de Julian: um Mercedes-Benz 450SL preto. Na época, o carro se tornou um objeto de desejo absoluto, reforçando a ideia de que o sucesso era medido pelo que você dirigia e vestia. O filme também é creditado por popularizar a ideia do "homem objeto" no cinema comercial, invertendo um papel que geralmente era destinado às mulheres.

Vale a pena assistir ao filme hoje em dia?

Sendo direto: sim, mas com a mentalidade certa. Se você espera um thriller de ação frenético, pode se decepcionar. O ritmo é mais lento, típico do cinema noir moderno. A crítica principal à obra, inclusive na época, era de que o filme era "frio demais".

No entanto, como estudo de personagem e documento histórico de uma época, ele é brilhante. Paul Schrader, que escreveu Taxi Driver, traz aqui um tema recorrente em sua carreira: o homem solitário em busca de redenção em uma cidade podre. A nota 6.3 no IMDb pode parecer baixa para os padrões atuais, mas não se engane; o impacto cultural de Gigolô Americano é muito maior do que qualquer métrica de site de avaliação. É um filme sobre a descoberta de que, no fim do dia, a única coisa que não tem preço é a lealdade.