A Morte (La Commare Secca)

 

A Morte (La commare secca): Análise do início de Bertolucci

Recentemente, parei para assistir a "A Morte" (título original: La commare secca). Se você curte cinema italiano ou quer entender onde grandes diretores começaram, esse filme é parada obrigatória. Não espere um blockbuster cheio de ação desenfreada. O que temos aqui é cinema de arte, cru e direto ao ponto.

Vou ser franco: o filme é uma peça de estudo sobre a verdade. Assisti com um olhar mais técnico, analisando como um garoto de 21 anos — sim, essa era a idade do diretor na época — conseguiu entregar uma obra tão madura. Abaixo, detalho o que você precisa saber antes de dar o play.



O enredo: Um crime, várias verdades

A premissa é simples, mas a execução é complexa. O corpo de uma prostituta é encontrado às margens do rio Tibre, em Roma. A partir daí, a polícia começa a interrogar os suspeitos que estavam no parque na noite do crime.

O filme não te entrega o assassino de bandeja. A narrativa funciona como um quebra-cabeça. Cada suspeito conta a sua versão daquela noite. Vemos a história se repetir sob diferentes perspectivas — um ladrão, um gigolô, soldados, garotos de rua. É o clássico estilo Rashomon (do Kurosawa), mas com uma pegada italiana bem suja e realista.

O foco aqui não é só descobrir "quem matou", mas entender a vida miserável daquelas pessoas na periferia romana. É uma investigação sociológica disfarçada de filme policial.

Ficha técnica e a sombra de Pasolini

Para entender La commare secca, você tem que olhar para quem estava por trás das câmeras. O filme marca a estreia de Bernardo Bertolucci na direção. Porém, a alma do filme tem outro dono: Pier Paolo Pasolini.

Pasolini escreveu o roteiro e você percebe a mão dele em cada diálogo e na escolha dos personagens marginais. Bertolucci, que tinha sido assistente de Pasolini em Accattone, pegou esse texto e deu a sua própria identidade visual.

  • Título Original: La commare secca

  • Ano de Lançamento: 1962

  • Diretor: Bernardo Bertolucci

  • Roteiro: Pier Paolo Pasolini e Sergio Citti

  • Elenco: A maioria são não-atores ou atores desconhecidos na época, como Francesco Rutan, Giancarlo De Rosa e Vincenzo Ciccora. Isso garante um realismo documental.

Atmosfera, locações e a nota técnica

O filme foi rodado inteiramente em Roma, mas esqueça o Coliseu ou a Fontana di Trevi. As locações são o parque Paolino e as margens lamacentas do Tibre. A fotografia em preto e branco reforça o clima árido e pessimista. Chove durante boa parte do filme, o que deixa tudo com um aspecto ainda mais pesado.

trilha sonora fica por conta de Piero Piccioni, que mistura jazz com melodias mais clássicas, criando um contraste interessante com a pobreza mostrada na tela.

Sobre a recepção crítica:

  • Nota IMDb: O filme oscila geralmente entre 6.8 e 7.0. É uma nota sólida para um filme de estreia e de nicho.

  • Ritmo: A narrativa é fluida, mas exige atenção. Como eu disse, não é entretenimento vazio, é cinema para quem gosta de observar detalhes.

Curiosidades que você não sabia

Para fechar, separei alguns fatos que notei e pesquisei que dão mais peso à obra:

  1. O Significado do Título: "La commare secca" é uma expressão do dialeto romano que se refere à "Morte" (a Ceifadora). Literalmente, seria algo como "A madrinha seca".

  2. Diferenças de Estilo: Enquanto Pasolini preferia a câmera fixa e frontal, Bertolucci, mesmo jovem, já mostrava que gostava de mover a câmera. O filme tem travellings (movimentos de câmera) muito elegantes que destoam da sujeira do cenário.

  3. Bilheteria vs. Crítica: O filme não foi um estouro de bilheteria na época, mas serviu como cartão de visitas para Bertolucci, que depois faria obras gigantescas como O Último Imperador e O Último Tango em Paris.

Em resumo, "A Morte" é um filme frio, calculado e tecnicamente impressionante para um diretor estreante. Vale a pena assistir para ver o nascimento de um mestre do cinema.



Oldboy (올드보이)

 

Oldboy: Por que este clássico da vingança é obrigatório?

Eu vejo muita gente discutindo cinema asiático hoje em dia, principalmente depois do sucesso de Parasita. Mas, se você quer entender onde a coisa ficou séria de verdade, precisa voltar um pouco no tempo e assistir Oldboy. Não estou falando do remake americano de 2013 — esqueça que isso existe. Estou falando do original sul-coreano de 2003.

Assisti a esse filme novamente na semana passada e a impressão continua a mesma: é uma obra crua, direta e tecnicamente impecável. Não é um filme para quem tem estômago fraco, mas se você curte um thriller psicológico bem construído, sem aquela enrolação melodramática, esse texto é para você. Vou te passar a visão geral, sem estragar a surpresa do final.


A Ficha Técnica que impõe respeito

Antes de entrar na história, vamos aos fatos. Oldboy não é apenas um filme qualquer; ele faz parte da famosa "Trilogia da Vingança" do diretor Park Chan-wook. O cara sabe o que faz com uma câmera na mão.

O título original é Oldeuboi. Lançado em 2003, o longa envelheceu muito bem. A nota no IMDb reflete a qualidade: ostenta um sólido 8.4, o que coloca o filme entre os melhores da história no site.

No elenco, temos uma atuação monstro do Choi Min-sik (o protagonista Oh Dae-su). O cara carrega o filme nas costas. O antagonista é vivido por Yoo Ji-tae, que entrega uma frieza calculista necessária para o papel.

O Enredo: 15 anos num quarto fechado

A premissa é simples e aterrorizante. Imagine um cara comum, Oh Dae-su. Ele é sequestrado do nada, num dia chuvoso, e trancado em um quarto de hotel barato. Não tem explicação, não tem resgate, não tem contato com o mundo exterior, apenas uma TV.

Ele passa 15 anos nesse cativeiro. O tempo todo treinando o corpo e a mente, tentando entender quem o prendeu e por quê.

Quando ele é finalmente solto — de forma tão misteriosa quanto foi preso —, ele tem apenas um objetivo: encontrar o responsável e se vingar. O filme não perde tempo com choradeira. É uma caçada. O protagonista se torna uma máquina de bater, focada em descobrir a verdade. A narrativa flui bem porque você sabe tanto quanto ele: quase nada. Você vai montando o quebra-cabeça junto com o personagem.

Estilo, Trilha Sonora e Locações

O visual de Oldboy é sujo e elegante ao mesmo tempo. As filmagens aconteceram majoritariamente na Coreia do Sul, passando por locações em Seul e Busan, além de algumas cenas na Nova Zelândia. Mas o que pega mesmo são os ambientes claustrofóbicos e as ruas noturnas iluminadas por neon.

trilha sonora merece destaque. Diferente do que se espera de um filme de ação comum, aqui temos muita música clássica e valsas (compostas por Jo Yeong-wook). Esse contraste entre a violência gráfica na tela e a música erudita no fundo cria uma atmosfera única. É irônico e brutal.

E claro, não dá para falar da direção sem citar a famosa cena do corredor. É um plano-sequência (sem cortes aparentes) onde o protagonista enfrenta uma gangue inteira usando apenas um martelo. Sem truques de câmera exagerados, apenas coreografia e exaustão física. É uma das melhores cenas de luta do cinema, ponto.

Curiosidades de bastidores

Se você acha que o que vê na tela é intenso, os bastidores foram piores. O comprometimento do ator Choi Min-sik foi total. Aqui vão algumas curiosidades que mostram o nível da produção:

  1. O Polvo: Sabe aquela cena em que ele come um polvo vivo no restaurante de sushi? Aquilo foi real. O ator é budista e vegetariano, mas comeu quatro polvos vivos para conseguir o take perfeito. Ele rezava por cada animal após as filmagens.

  2. O Treino: Para fazer o papel, Choi Min-sik perdeu cerca de 10 quilos e treinou boxe intensamente. Ele fez a maioria das cenas sem dublê.

  3. Tarantino: O filme impressionou tanto que Quentin Tarantino, presidente do júri em Cannes na época, lutou para que o filme ganhasse a Palma de Ouro. Acabou levando o Grande Prêmio do Júri.

Resumindo: Oldboy é um soco no estômago necessário. Se você gosta de cinema que te desafia e não te trata como criança, vá assistir.