A Feitiçaria Através dos Tempos (Haxan)



Sempre fui daquele tipo de cara que gosta de cavoucar as raízes das coisas que consome. Se curto um bom filme de terror moderno, é natural querer saber de onde veio toda essa engrenagem de sustos e atmosferas sombrias. Foi nessa busca por entender a evolução do gênero que esbarrei em uma verdadeira relíquia: um filme que, mesmo feito há mais de um século, bota muito suspense atual no chinelo. Estou falando de uma produção que quebrou barreiras e chocou o mundo na década de 1920. Seu título original é simplesmente Häxan (frequentemente traduzido por aqui como A Feitiçaria Através dos Tempos). Lançado no distante ano de 1922, essa obra mista de documentário e ficção carrega até hoje uma respeitável nota 7.7 no IMDb. O comando dessa insanidade visual ficou por conta do ousado diretor dinamarquês Benjamin Christensen, que não apenas assinou o roteiro e a direção, mas também resolveu entrar na brincadeira e encarnar o próprio coisa ruim na tela.

Por que Häxan é considerado uma obra-prima à frente do seu tempo?

Para entender o impacto de Häxan, a gente precisa esquecer um pouco a fórmula padrão do cinema de terror moderno. Ele não é apenas um filme de monstros ou uma historinha linear com começo, meio e fim. O longa funciona como uma espécie de ensaio visual robusto dividido em capítulos. A grande sacada do diretor foi tentar traçar uma linha histórica entre a feitiçaria medieval, a paranoia da Inquisição e o que a medicina da sua época diagnosticava como "histeria" feminina.

Toda a gravação aconteceu nos Hellerup Studios, localizados na Dinamarca, embora o financiamento principal tenha vindo de uma produtora sueca. O elenco traz atuações viscerais de nomes como Maren Pedersen, que interpreta uma idosa marginalizada acusada de bruxaria, além de Astrid Holm, Clara Pontoppidan e Tora Teje. Ver essas atrizes entregando expressões puras de desespero e fanatismo religioso, sem uma única palavra dita, é algo que prende o olhar do início ao fim.

Como Benjamin Christensen revolucionou o cinema em 1922?

O que me impressiona de verdade no trabalho do diretor é o nível de ambição técnica. Numa época em que as câmeras eram pesadas, estáticas e os recursos escassos, Christensen operou verdadeiros milagres visuais. Ele não queria apenas ilustrar um livro de história; ele queria que o público sentisse o peso do sobrenatural e o terror psicológico daqueles julgamentos cruéis e absurdos.

O uso das sombras, a iluminação expressionista e os cortes de câmera criam uma atmosfera densa, pesada e sufocante. Em vez de se apoiar excessivamente em cartões de texto para explicar o enredo, o diretor confiou no poder da imagem pura. Ele usou truques de dupla exposição na película, animações primitivas em stop-motion e efeitos práticos de maquiagem que continuam bizarros e assustadores até hoje. É o tipo de direção cirúrgica que mostra que o cara sabia exatamente onde e como chocar o público.

Quais são as maiores curiosidades dos bastidores deste clássico?

Se a gente olhar para o que aconteceu por trás das câmeras, a história fica ainda melhor. Para começo de conversa, Häxan ostentou por muito tempo o título de filme escandinavo mais caro da era do cinema mudo. O orçamento final disparou porque o diretor era absurdamente detalhista e exigente com os cenários e figurinos.

Uma das passagens mais icônicas mostra um bando de bruxas voando sobre uma cidade à noite. Para fazer esse take sem nenhum pingo de computação gráfica, os técnicos construíram uma maquete gigantesca de uma cidade sobre um carrossel mecânico real, com mais de 250 casinhas detalhadas. Foram necessários 20 homens para girar aquela estrutura enorme enquanto mais de 75 atrizes eram filmadas simulando o voo, empurradas pelo vento de um motor de avião de verdade instalado dentro do estúdio.

Outro fato curioso envolve o realismo bizarro da produção: durante as gravações das cenas de tortura com ferramentas medievais autênticas, uma das atrizes insistiu muito para testar o esmagador de polegares para ver se a dor era real. O diretor apertou a tarracha de leve e registrou a reação genuína de aflição da mulher. Infelizmente, toda essa ousadia cobrou seu preço na época do lançamento. O filme foi pesadamente censurado e banido em vários países da Europa e nos Estados Unidos por causa das representações gráficas de nudez, anticlericalismo e das cenas de sadomasoquismo nas visões do sabá satânico.

Qual é a minha crítica sincera sobre Häxan hoje?

Olhando com os olhos do presente, minha avaliação é de que Häxan resistiu ao teste do tempo como poucos clássicos conseguiram. Não dá para negar que a primeira parte do filme, mais voltada para explicações históricas com gravuras e diagramas, pode parecer um pouco lenta para o espectador moderno que está acostumado com cortes de cena frenéticos. Mas assim que as encenações e dramatizações começam, o negócio engrena de um jeito absurdo.

A grande força da obra está na sua mensagem profunda, camuflada sob uma estética de terror grotesco. No fundo, Christensen estava fazendo uma crítica feroz à ignorância humana e à brutalidade dos homens da Igreja. Ele deixa claro que aquelas mulheres queimadas vivas não estavam possuídas pelo demônio, mas sim sofrendo de condições psiquiátricas graves ou sendo vítimas de um sistema cruel e supersticioso. É um filme forte, visualmente imbatível para a sua era e um marco obrigatório para qualquer um que respeite de verdade a evolução do cinema de horror.

 


 







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