Se você curte aquele terror claustrofóbico, que se passa quase inteiro
em um único cenário e te deixa tenso na cadeira, provavelmente já esbarrou com Cadáver no catálogo de algum streaming. O filme, cujo
título original é The Possession of Hannah Grace, foi
lançado no final de 2018 (chegando com mais força nos
cinemas brasileiros no início de 2019) e traz uma pegada bem específica: a
mistura de suspense policial com possessão demoníaca clássica.
A história acompanha Megan Reed, uma ex-policial que está tentando
reconstruir a vida após passar por traumas pesados no serviço. Para ocupar a
mente e pagar as contas, ela aceita o turno da noite no necrotério de um
hospital de grande porte. O trabalho já seria bizarro por si só, mas tudo
degringola de vez quando chega o corpo de Hannah Grace, uma jovem que morreu
durante um exorcismo malsucedido. A partir daí, o ambiente fechado vira um
verdadeiro inferno.
No IMDb, o filme ostenta uma nota de 5.2/10. Não é nenhuma obra-prima unânime da crítica,
mas para quem é fã do gênero e sabe o que esperar, ele entrega um passatempo
honesto com bons sustos.
Vamos destrinchar os detalhes dessa produção para entender se vale o seu
play.
Quem está por trás da direção e do
elenco do filme?
A direção ficou nas mãos do holandês Diederik Van Rooijen,
que faz aqui a sua estreia em Hollywood. Ele trouxe uma estética bem
interessante para o longa, apostando em planos longos e no uso inteligente do
silêncio para criar uma atmosfera de desconforto.
No elenco, o grande destaque é Shay Mitchell (muito
conhecida pela série Pretty Little Liars), que segura o
filme praticamente sozinha nas costas no papel da protagonista Megan. A atuação
dela como uma mulher fragilizada psicologicamente, mas que precisa resgatar seu
instinto de sobrevivência, é bem convincente. O papel da perturbada Hannah
Grace ficou com a dançarina e contorcionista Kirby Johnson, uma
escolha cirúrgica do diretor, já que a flexibilidade dela dispensou grande
parte dos efeitos digitais nas cenas em que o corpo possuído se move de formas
bizarras. O elenco de apoio ainda conta com Grey Damon e Stana Katic.
Onde o filme foi gravado e como a
locação ajuda no terror?
Toda a ambientação de Cadáver se passa em
um necrotério com arquitetura brutalista, cheio de corredores de concreto frio,
tetos altos e luzes com sensores de movimento que se apagam nos piores momentos
possíveis. Curiosamente, o filme não foi rodado em um necrotério real e nem
totalmente em estúdio.
A principal locação foi o New England Executive Park,
em Burlington, Massachusetts, além de algumas cenas gravadas em Boston. A
produção transformou um prédio de escritórios moderno e vazio nesse complexo
hospitalar sombrio. Essa escolha de design foi certeira. O visual limpo,
cinzento e tecnológico do lugar contrasta perfeitamente com a natureza
visceral, suja e caótica da força demoníaca que habita o corpo de Hannah. Você
se sente preso junto com a Megan naquelas salas frias.
Quais são as melhores curiosidades
dos bastidores de Cadáver?
Como todo bom filme de terror, os bastidores de The Possession of Hannah Grace escondem alguns fatos
bem curiosos que mudam a forma como a gente assiste à obra. Separei os três
pontos que achei mais interessantes:
·
Contorcionismo real: Como mencionei
antes, Kirby Johnson é contorcionista profissional. Aquelas posições grotescas
e os estalos de ossos que dão arrepios na espinha não são computação gráfica
(CGI). Ela realmente dobrou o próprio corpo daquele jeito, o que tornou o set
muito mais assustador para os outros atores.
·
Gravado com câmeras de celular? quase: Este foi o
primeiro longa-metragem de Hollywood totalmente filmado com a câmera Sony a7S II, uma câmera espelho (mirrorless) de lente
intercambiável relativamente barata e acessível para o público geral. O diretor
escolheu esse equipamento pelo tamanho reduzido, o que permitiu enfiar a câmera
em cantos apertados do cenário, e pela excelente capacidade de gravar no escuro
com pouquíssima luz.
·
Mudança de título: O filme passou por
algumas crises de identidade antes de sair. O título de produção original era Cadaver, depois mudou para The Possession of Hannah Grace
nos mercados de língua inglesa, e no Brasil acabou virando uma fusão dos dois: Cadáver (The Possession of Hannah Grace).
Vale a pena assistir ou o filme é só
mais um clichê?
Olhando para a obra de forma direta e sem rodeios: Cadáver não vai revolucionar o cinema de terror, mas
cumpre o papel de te deixar tenso por 1h25. O grande trunfo do roteiro é usar a
vulnerabilidade da protagonista a favor do suspense. Como Megan sofre de
ansiedade e estresse pós-traumático, quando as coisas bizarras começam a
acontecer, nem ela (e nem quem está assistindo) sabe direito se aquilo é real
ou apenas uma alucinação da cabeça dela por conta do isolamento noturno.
A primeira metade do filme é excelente, apostando no mistério, na falta
de iluminação e no som ambiente das geladeiras e gavetas metálicas do
necrotério. O ritmo flui muito bem enquanto se mantém como um suspense
psicológico.
Onde o filme escorrega um pouco é no terço final, quando decide abraçar
a ação e o terror mais convencional de "monstro perseguindo vítimas",
apelando para alguns sustos fáceis (os famosos jumpscares) e
soluções de roteiro um tanto previsíveis. Ainda assim, a maquiagem da criatura
é muito bem feita e a curta duração do longa impede que ele fique arrastado ou
cansativo. Se você busca um terror direto ao ponto para assistir no escuro do
quarto em um fim de semana, a experiência vale a pena.
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