Lembro perfeitamente de quando decidi assistir a esse filme à noite, com
as luzes apagadas, esperando apenas mais uma história genérica de homenzinhos
verdes. Cara, como eu estava errado. Se você curte mistério, teorias de
conspiração e aquele suspense psicológico que mexe com a sua cabeça a ponto de
te fazer olhar duas vezes para a janela do quarto antes de dormir, precisa
entender o fenômeno por trás de Contatos de 4º Grau.
Lançado no ano de lançamento de 2009, o longa
chegou aos cinemas com uma proposta ousada: misturar ficção com supostas
gravações reais. O título original, The Fourth Kind, faz referência direta à escala de
contatos extraterrestres criada pelo astrônomo J. Allen Hynek, onde o quarto grau
representa a abdução propriamente dita. Dirigido pelo diretor Olatunde Osunsanmi, o projeto dividiu opiniões
e ostenta uma nota IMDb de 5.9/10 — o que, convenhamos, não faz
justiça ao impacto psicológico que ele causa em quem assiste de peito aberto.
Qual é a história real por trás de
Contatos de 4º Grau?
A trama nos joga em Nome, uma cidadezinha isolada no Alasca profundo,
onde a psicóloga Dra. Abigail Tyler começa a notar um padrão assustador em seus
pacientes. Todos eles sofrem de insônia severa e relatam a mesmíssima visão:
uma coruja branca estática olhando para eles através da janela, no meio da
madrugada.
Quando a médica decide usar a hipnose clínica para desbloquear as
memórias dessas pessoas, o cenário muda de figura. O que parecia um distúrbio psicológico
coletivo se transforma em relatos de horror puro, envolvendo invasões
domiciliares noturnas, levitações e sons guturais em uma língua antiga que
lembra o sumério. O ritmo do roteiro é muito bem amarrado. A narrativa avança
conforme a própria Abigail se vê envolvida no mistério, lidando com o sumiço da
filha e a desconfiança da polícia local, enquanto tenta provar que forças que
não pertencem a este mundo estão operando naquela comunidade.
Quem faz parte do elenco e onde o
filme foi gravado?
O grande trunfo da produção está na dinâmica de seu formato. O diretor
escalou a icônica Milla Jovovich para viver a versão dramatizada da Dra.
Abigail Tyler. Milla entrega uma atuação firme e madura, bem distante daquela
pegada cheia de ação de Resident Evil. Ao
lado dela, temos ótimos coadjuvantes como Elias Koteas, interpretando o
terapeuta e amigo Abel Campos, e Will Patton, no papel do cético e durão Xerife
August.
Um detalhe técnico que engana muita gente é a locação.
Embora a história se passe integralmente no Alasca, a maior parte das filmagens
aconteceu, na verdade, na Bulgária (com
algumas externas gravadas na Colúmbia Britânica, no Canadá). Os cenários
fechados de estúdio e as florestas densas da Europa Oriental foram cirúrgicos
para recriar aquela atmosfera cinzenta, claustrofóbica e totalmente isolada do
norte americano. Mas o que realmente mexe com o telespectador é a presença da
atriz britânica Charlotte Milchard. Ela interpreta a "verdadeira"
Dra. Tyler nas supostas filmagens de arquivo que o filme exibe em tela dividida
(split-screen), dividindo a atenção com a encenação de
Milla.
Quais são as maiores curiosidades dos
bastidores?
Aqui é onde o bicho pega e o marketing de Hollywood mostra a sua força.
A Universal Pictures executou uma das campanhas de divulgação mais agressivas e
controversas do cinema de suspense moderno. Se liga em como eles armaram a
jogada:
·
Marketing de guerrilha: Meses antes da
estreia, o estúdio criou sites falsos de jornais de medicina e arquivos de
notícias do Alasca para dar embasamento à existência da Dra. Abigail Tyler. A
farsa foi tão bem montada que jornais reais começaram a investigar o caso.
·
Processos e retratação: A farra dos sites
falsos custou caro. A Universal acabou sendo processada pela união de
jornalistas do Alasca por usar nomes de veículos reais em notícias inventadas,
resultando em um acordo financeiro e na remoção dos conteúdos do ar.
·
A posição do FBI: O filme abre afirmando que o FBI
realizou mais de duas mil investigações na região devido a desaparecimentos. Na
vida real, o FBI de fato esteve em Nome, mas concluiu que os sumiços históricos
estavam ligados ao consumo de álcool combinado ao rigoroso inverno local de
-50°C, e não a abduções.
Vale a pena assistir a esse suspense
de abdução?
Minha crítica sincera sobre a obra é que ela funciona perfeitamente como
um exercício de imersão e medo psicológico. O uso das duas telas simultâneas —
mostrando a reconstituição dos atores de um lado e o suposto vídeo caseiro em
VHS do outro — cria uma tensão bizarra. Mesmo sabendo que o material de arquivo
é tão fictício quanto a atuação de Milla, os efeitos de distorção de áudio, os
gritos desesperados nas sessões de hipnose e o visual perturbador da Charlotte
Milchard na câmera estática causam um desconforto genuíno.
O filme peca um pouco no terceiro ato ao tentar abraçar explicações
mitológicas complexas, mas o saldo final é extremamente positivo para quem
busca uma experiência que foge dos clichês de sustos fáceis (jump scares). Não é uma obra-prima intocável do cinema,
mas cumpre com maestria o papel de te deixar intrigado. Se você gosta de uma
narrativa fluida, claustrofóbica e que testa os limites entre realidade e
ficção, Contatos de 4º Grau merece um espaço na sua lista de
reprodução no próximo fim de semana. Só garanta que as cortinas estejam bem
fechadas.
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