Mestres do Universo (Masters of the Universe)

 

Mestres do Universo

Se você cresceu nos anos 80 ou passou a infância grudado na TV assistindo a desenhos animados, com certeza lembra do grito "Pelos poderes de Grayskull!". Pois é, a franquia do He-Man era uma febre absurda. No meio de todo esse sucesso, os produtores de Hollywood olharam para aquela montanha de dinheiro e pensaram: "Por que não colocar um cara musculoso de sunga de couro na tela grande?".

O resultado dessa ideia genial foi Mestres do Universo (Masters of the Universe), lançado em 1987. Eu assisti a essa pérola recentemente com aquela ponta de nostalgia, esperando uma aventura épica de espada e feitiçaria, mas o que encontrei foi um verdadeiro desastre cinematográfico. A nota no IMDb é 5.4, e sendo bem honesto, acho que o pessoal foi bastante generoso por pura memória afetiva.

Dirigido por Gary Goddard — que claramente não sabia muito bem o que estava fazendo com o orçamento que tinha —, o filme traz o grandalhão Dolph Lundgren como He-Man e o lendário Frank Langella debaixo de quilos de maquiagem na pele do vilão Esqueleto. No elenco, ainda temos uma jovem Courteney Cox (muito antes de estourar em Friends) interpretando Julie, uma adolescente terráquea que cai de paraquedas no meio dessa bagunça.

Por que o filme do He-Man não se passa em Eternia?

Essa é a primeira grande decepção que bate na nossa cara logo nos primeiros minutos. Quando pensamos em He-Man, imaginamos o planeta Eternia, o Castelo de Grayskull, florestas místicas e criaturas fantásticas, certo? Esquece. Por pura limitação de orçamento, a produção decidiu mandar o He-Man e seus aliados direto para a Terra através de uma "chave cósmica" (que mais parece um sintetizador musical japonês dos anos 80).

A maior parte da história se passa em cenários urbanos genéricos dos Estados Unidos. As gravações aconteceram principalmente na cidade de Whittier, na Califórnia. Ver o herói mais poderoso do universo correndo por becos escuros, se escondendo em lojas de eletrônicos e interagindo com policiais americanos tira todo o peso mítico que o desenho tinha. Em vez de uma fantasia medieval futurista, o filme virou uma ficção científica urbana barata de segunda linha.

Quais são as maiores curiosidades dos bastidores de Mestres do Universo?

Se o filme na tela já é uma loucura, os bastidores não ficam atrás. Separando o que aconteceu por trás das câmeras, dá para entender como esse monstro ganhou vida:

·         O sotaque do He-Man: Dolph Lundgren estava no auge da forma física após viver o icônico Ivan Drago em Rocky IV, mas o seu inglês ainda era muito limitado. O sotaque sueco dele era tão travado que o diretor cogitou dublar todas as falas do ator na pós-produção. No fim, deixaram a voz original, o que rende diálogos bem robotizados.

·         O terno pesado do Esqueleto: Frank Langella aceitou o papel de Esqueleto porque o filho dele era um fã alucinado do desenho. Ele se dedicou tanto que a sua atuação espalhafatosa é a única coisa que realmente diverte. Porém, a fantasia dele era tão quente e pesada que o ator quase desmaiava entre as tomadas.

·         A falência da produtora: O filme foi produzido pela lendária e caótica Cannon Films. Eles gastaram tanto dinheiro com efeitos que não podiam pagar que a produção simplesmente ficou sem verba antes de filmar o final original. A cena da batalha final foi improvisada às pressas porque o dinheiro acabou de verdade.

Onde a produção errou a mão e estragou o clássico?

Para ser direto: o filme falha em praticamente tudo o que se propõe. A começar pelo visual dos personagens. Cadê o Gato Guerreiro? Não tem, porque seria caro demais animar um tigre verde gigante. Cadê o Gorpo? Substituíram por um personagem bizarro inventado para o filme chamado Gwildor, que parece um duende saído de um pesadelo de efeitos práticos ruins.

Até o visual do He-Man ficou estranho. Lundgren tem o porte físico, mas colocaram uma capa vermelha nele e uma bermuda que parecem saídas de uma festa à fantasia de baixo custo. Para piorar, o He-Man passa metade do filme usando armas de fogo e lasers em vez de resolver as coisas na base da sua famosa Espada do Poder. Ver o defensor de Eternia dando tiros com um rifle laser em um telhado da Califórnia quebra qualquer lógica da infância de quem era fã.

Vale a pena assistir a esse desastre dos anos 80 hoje em dia?

Olha, se você estiver reunido com os amigos no fim de semana, com uma pizza e a fim de dar boas risadas de um cinema tosco, talvez valha o play pelo valor cômico involuntário. Mas se você busca uma boa adaptação, passe longe.

Mestres do Universo é um exemplo clássico de como Hollywood tentou surfar em uma marca de sucesso sem entender absolutamente nada do que fazia aquela propriedade intelectual ser querida. O roteiro é fraco, o ritmo é arrastado e a transição para a Terra destrói o charme da fantasia original. É aquele tipo de filme que envelheceu mal, mas muito mal mesmo. O Esqueleto salva algumas cenas com sua vilania exagerada digna de teatro, mas não é o suficiente para resgatar uma obra que, no fim das contas, acabou ajudando a enterrar a produtora e a congelar a franquia nos cinemas por décadas.

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