Os Intocáveis (The Untouchables)

 

A gente precisa falar sobre cinema de verdade, daquele que não se faz mais com tanta frequência. Quando o assunto é filme de máfia, muita gente corre direto para O Poderoso Chefão, mas tem um título de 1987 que entrega uma experiência bem mais visceral e direta: Os Intocáveis (ou The Untouchables, no original).

Se você curte uma narrativa de "polícia e ladrão" levada ao nível máximo de execução, esse aqui é o seu filme.

O duelo de gigantes na Chicago da Lei Seca

O filme, lançado em 3 de junho de 1987, te joga direto na Chicago dos anos 30. O diretor Brian De Palma — que estava no auge da forma — não perde tempo com firulas. A trama foca no agente federal Eliot Ness, interpretado por Kevin Costner, que chega na cidade com a missão ingrata de derrubar Al Capone.

O problema é que a polícia inteira estava no bolso do gângster. É aí que o filme ganha corpo: Ness percebe que não pode confiar no sistema. Ele precisa montar um time de caras que não aceitam suborno. Daí vem o nome. É um faroeste urbano, onde a moralidade é testada a cada esquina.

O elenco que carregou o piano

Não dá para falar desse filme sem exaltar quem estava na frente das câmeras. O elenco é um absurdo de bom:

  • Kevin Costner: O herói idealista que vai endurecendo conforme o jogo fica sujo.

  • Sean Connery: Como Jim Malone, o policial veterano que ensina a "maneira de Chicago" de resolver as coisas. Ele rouba todas as cenas.

  • Robert De Niro: No papel de Al Capone. O cara engordou e mudou a linha do cabelo só para o papel. Ele é a personificação da ameaça constante.

  • Andy Garcia: O recruta bom de tiro que completa o time.

A química entre eles funciona porque não parece forçada. Você acredita que aqueles caras realmente estão arriscando o pescoço um pelo outro. No IMDb, a nota reflete essa qualidade: um sólido 7.9, baseado em décadas de aprovação do público.

A trilha sonora e a estética de De Palma

Um dos pontos que mais me pega nesse filme é a música. A trilha sonora foi composta pelo mestre Ennio Morricone. Diferente de outros trabalhos dele, aqui ele mistura uma tensão urbana com uma melancolia que dita o ritmo de cada tiroteio. Não é à toa que o filme é lembrado pela sua atmosfera.

As locações também ajudam muito. Grande parte das filmagens aconteceu em Chicago, usando prédios históricos reais que sobreviveram ao tempo, e em partes de Montana. Isso dá uma textura real, você sente o frio e o concreto da cidade. Visualmente, o filme é impecável, com figurinos assinados por ninguém menos que Giorgio Armani.

Premiações e o legado dos "Homens de Lei"

O reconhecimento veio pesado na época. Sean Connery levou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, o que foi mais do que justo — o personagem dele é a alma do filme. Além disso, a obra acumulou indicações em categorias como Direção de Arte, Figurino e, claro, a trilha sonora icônica de Morricone.

O que faz Os Intocáveis sobreviver tão bem é que ele não tenta ser um estudo psicológico profundo sobre o crime. Ele é um filme de ação clássico, com heróis e vilões bem definidos, mas com uma execução técnica que beira a perfeição.

Curiosidades que você talvez não saiba

Para fechar o papo, separei alguns detalhes de bastidores que mostram o nível da produção:

  1. A Escadaria: A cena do carrinho de bebê na estação de trem é uma homenagem direta ao filme O Encouraçado Potemkin. É uma aula de montagem e suspense.

  2. De Niro sendo De Niro: Ele insistiu em usar roupas íntimas de seda idênticas às que o verdadeiro Al Capone usava, mesmo que ninguém fosse ver no filme. Era pelo método.

  3. Escolha de Elenco: Antes de Kevin Costner assumir o papel, nomes como Harrison Ford e Mel Gibson foram cogitados para viver Eliot Ness.

  4. Malone Real: Embora Jim Malone seja um personagem fictício, ele foi inspirado em vários policiais reais que ajudaram Ness na vida real, embora a história original tenha sido bem menos "explosiva" que o filme.

Se você ainda não viu, ou não revê há muito tempo, faça um favor a si mesmo. É cinema bruto, bem feito e sem frescura.



Uma Cilada para Roger Rabbit (Who Framed Roger Rabbit)

 

Se você gosta de cinema, sabe que existem filmes que mudam o jogo. Uma Cilada para Roger Rabbit (Who Framed Roger Rabbit), lançado em 1988, é exatamente esse tipo de obra. Lembro da primeira vez que assisti e a sensação foi de que algo impossível estava acontecendo na tela: desenhos animados e seres humanos dividindo o mesmo espaço de forma real, com sombra, peso e interação física.

Não é só um filme infantil. É um film noir clássico, com detetive amargurado, uma femme fatale e uma conspiração industrial, tudo temperado com o caos dos Looney Tunes e da Disney. Vamos dar uma olhada no que faz esse longa ser um pilar do entretenimento até hoje.

O time por trás da mistura entre humanos e desenhos

Para tirar esse projeto do papel, foi necessário um "dream team" de Hollywood. A direção ficou nas mãos de Robert Zemeckis, que já tinha mostrado do que era capaz em De Volta para o Futuro. Ele não queria apenas colocar desenhos no fundo; ele queria que eles fossem atores reais.

O elenco humano segura o piano com maestria. Bob Hoskins interpreta Eddie Valiant, o detetive que odeia "toons". O cara faz um trabalho absurdo atuando sozinho contra o vazio, já que os desenhos foram inseridos depois. Temos também Christopher Lloyd como o aterrorizante Juiz Doom e Joanna Cassidy como Dolores. No lado da animação, Charles Fleischer deu voz ao Roger Rabbit, e Kathleen Turner (não creditada na época) emprestou aquela voz rouca e icônica para a Jessica Rabbit.

Reconhecimento, trilha sonora e o impacto técnico

O filme não foi apenas um sucesso de bilheteria; ele foi atropelado por elogios da crítica. No IMDb, ele mantém uma nota sólida de 7.7, o que é alto para uma comédia híbrida. Mas o brilho real veio nas premiações. O longa levou 3 Oscars (Montagem, Efeitos Visuais e Edição de Som), além de um prêmio especial pela direção de animação de Richard Williams.

A ambientação da Los Angeles de 1947 não estaria completa sem a música. A trilha sonora de Alan Silvestri é impecável, alternando entre o clima de suspense policial e as fanfarras frenéticas dos desenhos. E se você se pergunta onde tudo aquilo aconteceu, as locações de filmagem se dividiram entre os estúdios Elstree, na Inglaterra, e ruas reais de Los Angeles, que serviram de base para a construção da nossa querida "Desenholândia".

Curiosidades que você provavelmente não sabia

O que acontece nos bastidores desse filme é tão interessante quanto a trama. Aqui estão alguns pontos que mostram a complexidade da produção:

  • Pacto de Gigantes: Foi a primeira (e única) vez que personagens da Disney (Mickey) e da Warner Bros (Pernalonga) apareceram juntos na mesma cena. O contrato exigia que ambos tivessem exatamente o mesmo tempo de tela.

  • Sem Piscar: Robert Zemeckis desafiou Bob Hoskins a não piscar enquanto estivesse interagindo com desenhos, para não quebrar a ilusão de que ele estava olhando para algo sólido.

  • O Título: O título original não tem ponto de interrogação (Who Framed Roger Rabbit). Diz a lenda que existe uma superstição em Hollywood de que filmes com interrogação no título fracassam na bilheteria.

Por que assistir (ou rever) hoje em dia?

Mesmo com toda a tecnologia CGI que temos hoje, a técnica de animação à mão usada aqui ainda parece mais "viva" do que muita coisa moderna. É uma aula de narrativa fluida, onde o roteiro não te trata como criança, mas entrega uma trama de investigação robusta.

É um filme sobre nostalgia, preconceito e a preservação da arte. Se você quer entender como o cinema moderno de efeitos visuais nasceu, precisa passar por aqui. É divertido, tecnicamente impecável e tem um ritmo que não deixa ninguém desgrudar do sofá.