Perdidos na Noite

 

Sempre tive um pé atrás com filmes que tentam ser "profundos" demais, mas Perdidos na Noite (ou Midnight Cowboy, no original) joga limpo. O filme não tenta te convencer de nada; ele apenas mostra a Nova York do final dos anos 60 como ela era: barulhenta, suja e indiferente. Se você gosta de cinema que prioriza a construção de personagem sobre explosões ou reviravoltas mirabolantes, esse aqui é obrigatório.

O choque de realidade de Joe Buck

Lançado em 1969, o filme conta a história de Joe Buck, um cara do Texas que decide tentar a sorte na cidade grande. Ele chega em Nova York achando que sua aparência de cowboy vai conquistar todas as mulheres ricas da Quinta Avenida, mas a realidade bate na cara dele logo no primeiro dia. Ele não é um conquistador; ele é só mais um cara deslocado em um mar de gente que não está nem aí para ele.

A direção do John Schlesinger é seca e direta. Ele não doura a pílula. A Nova York que vemos aqui não é a dos cartões-postais, mas a da Times Square decadente, cheia de poeira e neon barato. É nesse cenário que Joe conhece Rico "Ratso" Rizzo, e é aí que o filme realmente começa a mostrar a que veio.

Dustin Hoffman, Jon Voight e a química do fracasso

Não dá para falar desse filme sem citar as atuações. Jon Voight entrega um Joe Buck que transita entre a ingenuidade irritante e uma solidão profunda. Mas, para mim, o destaque absoluto é o Dustin Hoffman. O cara se transformou fisicamente para viver o Ratso, um malandro de rua que manqueja e tosse o tempo todo.

A dinâmica entre os dois é o que segura o filme. É uma amizade que nasce da necessidade e evolui para algo real, sem precisar de discursos emocionados ou trilhas sonoras manipuladoras. Atualmente, o filme segura uma nota 7.8 no IMDb, o que eu considero até baixo para o impacto que ele teve na época.

Bastidores, trilha sonora e o Oscar

Uma das coisas que mais me chama a atenção em Midnight Cowboy é a sua trilha sonora. A música "Everybody's Talkin'", na voz do Harry Nilsson, virou um clássico instantâneo e define perfeitamente o clima de isolamento do filme. Além disso, as locações de filmagem foram quase todas reais, usando as ruas de Manhattan e até Miami, o que dá um tom documental para a obra.

O filme também fez história nas premiações. Foi o único filme com classificação original "X" (para maiores de 18 anos na época, devido ao conteúdo adulto) a vencer o Oscar de Melhor Filme. Além dessa categoria, levou também os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado.

Algumas curiosidades que você talvez não saiba:

  • A famosa cena do "I'm walkin' here!" ("Eu estou andando aqui!"), onde Dustin Hoffman quase é atropelado por um táxi, foi improvisada. O táxi realmente furou o bloqueio das filmagens e quase acertou o ator.

  • Jon Voight recebeu um salário mínimo para o papel, só porque queria muito trabalhar no projeto.

  • O filme é baseado no romance homônimo de James Leo Herlihy.

Por que você deveria assistir hoje?

Mesmo sendo um filme de 1969, Perdidos na Noite não envelheceu. O sentimento de solidão urbana e a busca por conexão em um mundo caótico continuam atuais. É uma aula de como contar uma história humana sem precisar de excessos. Se você busca uma narrativa honesta, com atuações de peso e uma fotografia que captura a essência de uma época, dê o play sem medo.



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