Lembro
perfeitamente da primeira vez que assisti a esse filme na TV, em uma tarde
chuvosa de domingo. Eu era moleque e fiquei completamente fissurado pela ideia
de um garoto, trancado no sótão de uma escola, ditando os rumos de um mundo
inteiro através das páginas de um livro velho. Aquilo explodiu minha cabeça.
Hoje, olhando para trás, percebo que essa obra não é só uma fantasia infantil
qualquer; é uma baita lição sobre amadurecimento, coragem e o peso das nossas
próprias escolhas.
Se você, assim como eu, cresceu nos anos 80 ou 90, sabe
exatamente do sentimento que estou falando. Vamos resgatar essa nostalgia e
entender por que essa produção se tornou um marco absoluto da cultura pop.
Qual é a origem e o contexto de A História Sem Fim?
Para entender o impacto do filme, a gente precisa voltar
para 1984, o ano de
lançamento dessa obra-prima. O cinema passava por uma era de ouro dos efeitos
práticos, e o diretor alemão Wolfgang Petersen aceitou o desafio
hercúleo de adaptar o complexo livro homônimo de Michael Ende. Com o título
original de The NeverEnding Story,
o longa se tornou a produção mais cara da história da Alemanha Ocidental na
época.
A trama acompanha Bastian, um garoto comum que usa a
leitura para fugir do luto pela perda da mãe e do bullying na escola. Ao
começar a ler o misterioso livro que dá título ao filme, ele é transportado
para o reino de Fantasia, um lugar que está sendo engolido pelo
"Nada" — uma força obscura que representa o esquecimento e a perda
dos sonhos humanos. O herói da história, o jovem guerreiro Atreyu, é enviado em
uma jornada épica para salvar a Imperatriz Criança e impedir a destruição total
desse universo.
Quem faz parte do elenco e onde o filme foi rodado?
O elenco mirim entregou atuações que ficaram marcadas na
memória de uma geração inteira. O trio principal é composto por:
·
Barret
Oliver como o sensível e focado Bastian.
·
Noah
Hathaway na pele do destemido guerreiro
Atreyu.
·
Tami
Stronach como a enigmática Imperatriz
Criança.
Embora a história passe uma sensação de estarmos isolados
em florestas e desertos misteriosos, a maior parte das locações e filmagens
aconteceu nos estúdios Bavaria Studios, em Munique, na Alemanha.
Algumas cenas externas, como as sequências do mundo real
no início do filme, foram rodadas em Vancouver, no Canadá.
Toda aquela ambientação fantástica que parecia gigantesca na tela foi
construída de forma artesanal dentro de pavilhões fechados, o que mostra o
nível de genialidade da equipe de produção daquela época.
Quais são as maiores curiosidades dos bastidores?
Cara, os bastidores desse filme são quase tão intensos
quanto a própria jornada do Atreyu. Separando os fatos mais marcantes, a gente
descobre coisas bizarras sobre a produção:
·
O
autor odiou o resultado: Michael Ende, o
escritor do livro original, ficou tão revoltado com as alterações que a
produção fez na história que exigiu que seu nome fosse retirado dos créditos
iniciais. Ele chegou a processar o estúdio, mas perdeu.
·
O
sofrimento com o Artax: A cena do cavalo
Artax afundando no Pântano da Tristeza traumatizou todo mundo. Felizmente,
nenhum animal se machucou de verdade. O cavalo passou por semanas de
treinamento para aceitar ficar imóvel em uma plataforma que afundava lentamente
na lama cenográfica.
·
O
peso do Falkor: O dragão da sorte, que
parece uma mistura de cachorro gigante com criatura mística, era um boneco
animatrônico imenso, pesando mais de duas toneladas. Foram necessários mais de
dez operadores simultâneos para dar vida aos movimentos de olhos, boca e corpo
dele.
Até hoje, o filme mantém uma reputação sólida entre os
cinéfilos do mundo todo, sustentando uma nota 7.3 no IMDB, o
que é um feito gigante para um filme de fantasia familiar feito há mais de
quarenta anos.
O clássico ainda vale a pena ou envelheceu mal?
Sendo bem direto ao ponto: o filme não só vale a pena,
como ganha novas camadas quando assistimos com a cabeça de adulto. Minha
crítica sobre a obra é que ela funciona como um espelho psicológico. O "Nada",
aquela névoa escura que destrói Fantasia, nada mais é do que uma metáfora
cirúrgica para o cinismo, a depressão e a apatia que a gente vai adquirindo
conforme envelhece e deixa as responsabilidades do dia a dia engolirem nossa
imaginação.
Claro que, visualmente, alguns efeitos de tela azul da
década de 1980 entregam a idade do filme. Mas a maquiagem, os monstros de látex
e os cenários reais têm um peso físico e uma alma que o CGI moderno
simplesmente não consegue replicar.
A trilha sonora pop-sintetizada do Giorgio Moroder,
coroada pela música-tema inesquecível cantada por Limahl, amarra a experiência
de um jeito que é impossível não sentir um estalo de motivação no peito. É uma
obra que ensina sobre enfrentar o medo de cabeça erguida, honrar suas promessas
e entender que a nossa criatividade é a única ferramenta capaz de manter o
mundo um lugar minimamente interessante.
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