Se você curte aquele tipo de cinema que te deixa meio desconfortável,
mas totalmente preso na tela, senta aí. Vamos trocar uma ideia sobre um dos
filmes mais viscerais, bizarros e geniais do cinema brasileiro moderno: O Cheiro do Ralo.
Lembro perfeitamente da primeira vez que assisti a essa obra de arte
meio torta. Sabe aquela sensação de entrar num lugar meio decadente, onde o ar
é pesado, mas você simplesmente não consegue dar meia-volta? É exatamente isso.
O filme é um soco no estômago disfarçado de comédia ácida, e hoje eu vou te
contar por que ele merece sua atenção.
Qual é a história por trás de O Cheiro do Ralo?
Lançado nos cinemas em 2007 (embora tenha
rodado festivais em 2006), o longa é baseado no livro homônimo do quadrinista Lourenço
Mutarelli. A trama acompanha Lourenço, um homem que ganha a vida comprando
objetos usados de pessoas que estão na pior, espremidas pela grana.
Ele opera em um escritório cinzento e claustrofóbico em São Paulo, que serve como a locação principal e quase
como um personagem vivo da história. É ali dentro que a mágica (ou a desgraça)
acontece. Lourenço não compra apenas relógios velhos ou discos riscados; ele se
alimenta da dignidade e do desespero dos outros, sentindo um prazer quase
sexual em pagar uma mixaria pelas memórias das pessoas. Tudo isso enquanto um
cheiro insuportável, vindo do ralo do banheiro do escritório, começa a
empestear o lugar e a mente dele.
Quem dá vida a esse universo bizarro?
O filme tem o título original idêntico ao do livro, O Cheiro do Ralo, e foi comandado pelo diretor Heitor Dhalia, que conseguiu traduzir perfeitamente o
clima claustrofóbico e a mente perturbada do protagonista.
No elenco, temos uma atuação que, para mim, é a melhor da carreira do Selton Mello. Ele interpreta o Lourenço com um cinismo,
uma frieza e, ao mesmo tempo, uma fragilidade que pouquíssimos atores
conseguiriam entregar. No elenco de apoio, temos figuras incríveis como Paula
Braun (a dona da bunda que vira a obsessão dele), Lourenço Mutarelli (o próprio
autor do livro faz uma ponta genial como o segurança), além de participações de
peso como Lázaro Ramos, Milhem Cortaz e Martha Meola. Cada vendedor que entra
naquela sala traz um peso dramático bizarro para a tela.
Quais são as maiores curiosidades
sobre a produção?
Uma das coisas que mais pira nesse filme é como ele foi feito.
Mutarelli escreveu o livro em um momento difícil, e a adaptação pro cinema
manteve essa crueza.
·
Metacinema: O criador da história, Lourenço Mutarelli,
atua no filme como o segurança silencioso que passa o tempo todo ao lado do
protagonista. É quase como se o criador estivesse vigiando sua própria criatura
perder o controle.
·
Orçamento apertado: O filme foi rodado
em pouquíssimo tempo e com um orçamento bem enxuto, o que acabou jogando a
favor da estética. A locação única do escritório foca toda a nossa atenção nos
diálogos e nas expressões faciais.
·
Nota no IMDb: No termômetro gringo e dos
cinéfilos, o filme sustenta uma nota 7.3 no IMDb,
uma avaliação bem sólida para um filme independente e com um humor tão fora do
padrão.
Vale a pena assistir a essa obra hoje
em dia?
Sendo muito direto com você: vale cada minuto, mas não vá esperando um
filme leve para assistir comendo pipoca no domingo à tarde. A minha crítica
sobre a obra é que ela funciona como um espelho meio sujo da nossa própria
ganância e das nossas obsessões mais mesquinhas.
O filme mexe muito com o ego, com o poder e com a objetificação — tanto
das coisas quanto das pessoas. A busca implacável do protagonista por controle
vai desmoronando conforme o cheiro do ralo piora. É uma metáfora animal para a
podridão interna que a gente tenta esconder atrás de posses ou de uma postura
de superioridade. No fim das contas, a produção entrega uma narrativa fluida,
diálogos afiados e um final daqueles que te deixa pensativo por alguns dias,
olhando para o teto e processando o que acabou de ver. Se você gosta de um
cinema de respeito, com identidade e sem medo de chocar, faça um favor a si
mesmo e vá atrás de assistir.
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