Se você jogou os primeiros games no PlayStation original ou no PS2, sabe
exatamente o que é sentir aquele frio na espinha ao ouvir o chiado do rádio
analógico. Quando soube que fariam uma adaptação para o cinema, confesso que
balancei a cabeça com desconfiança — afinal, o histórico de Hollywood com jogos
sempre foi bem complicado. Mas, cara, Terror em Silent Hill
(ou Silent Hill, no título original) me surpreendeu
positivamente. Lançado lá em 2006, o longa
conseguiu o que muitos achavam impossível: transpor aquela atmosfera sufocante
e opressora das telas dos consoles para as telas do cinema.
Hoje, vou te levar para dar uma volta por aquela cidade coberta de
cinzas e névoa, dissecando os bastidores, a produção e o porquê desse filme
ainda figurar na lista de respeito de muita gente que curte um horror de
primeira. Pegue seu rádio, acenda a lanterna e vem comigo.
Quem está por trás da criação desse
pesadelo?
Para dar vida a um universo tão complexo, era preciso alguém que
realmente entendesse a essência psicológica do horror japonês. O comando do
projeto ficou nas mãos do diretor francês Christophe Gans, um
cara que já tinha mostrado serviço no excelente O Pacto dos Lobos.
Gans é assumidamente fã do jogo, e essa paixão fez toda a diferença para o
projeto sair do papel com dignidade.
No elenco, a decisão de mudar o protagonista do jogo original (Harry
Mason) por uma mãe desesperada trouxe uma dinâmica pesada e visceral para a
história. Radha Mitchell entrega uma atuação sólida na pele de
Rose Da Silva, a mulher que entra na cidade maldita para salvar a filha
adotiva, Sharon, interpretada pela jovem Jodelle Ferland (que
entrega uma performance assustadora). Para fechar o time principal, ainda temos
o veterano Sean Bean como o marido preocupado, Christopher, e a
durona Laurie Holden interpretando a policial Cybil Bennett.
As filmagens aconteceram quase todas no Canadá, usando locações reais em
cidades como Brantford e Hamilton, além de estúdios em Toronto. Eles
conseguiram recriar aquelas ruas desertas e fachadas decrépitas de um jeito que
você quase consegue sentir o cheiro de mofo e ferrugem projetado na tela.
O que torna a atmosfera do filme tão
fiel aos jogos?
A nota de 6.5 no IMDb pode parecer mediana
para quem olha de fora, mas para o gênero de terror — e especialmente para
adaptações de games —, é um número bastante respeitável. O grande trunfo aqui é
o visual. A transição do "Mundo da Névoa" para o "Mundo das
Trevas" (quando a sirene toca e a realidade descasca como pele queimada) é
espetacular.
O design das criaturas é um show à parte. Ver o icônico Pyramid Head
arrastando aquela espada gigantesca pelas escadas ou as enfermeiras sinistras
se contorcendo no escuro dá um impacto visual absurdo. Christophe Gans optou
por usar dançarinos e contorcionistas reais com maquiagem protética em vez de
abusar de efeitos digitais mal-acabados. O resultado? Os monstros têm peso, têm
presença física e assustam de verdade.
Para melhorar, a trilha sonora icônica de Akira Yamaoka,
extraída direto dos jogos, foi mantida. Aqueles acordes de guitarra
melancólicos misturados com sons industriais pesados batem forte na nossa
nostalgia e constroem uma tensão constante.
Quais são as maiores curiosidades dos
bastidores?
Uma das coisas mais legais sobre a produção é que a cidade fictícia de
Silent Hill foi inspirada em um lugar real: Centralia, no estado
da Pensilvânia. Nos anos 1960, um incêndio começou em uma mina de carvão
subterrânea bem debaixo da cidade. Esse fogo queima até hoje, abrindo
rachaduras no asfalto e liberando gases tóxicos, o que transformou o lugar em
uma legítima cidade-fantasma.
Outro ponto curioso envolve o personagem de Sean Bean. No roteiro
original focado apenas em Rose, quase não havia papéis masculinos relevantes. O
estúdio ficou com receio de o filme não atrair o público e exigiu que Gans
escrevesse uma subtrama para o marido investigar o sumiço da esposa. No fim, a
edição cortou bastante essas cenas para não quebrar o ritmo do terror, mas o
arco dele acabou servindo para explicar a história da cidade ao público.
O veredito final: vale a pena
assistir hoje em dia?
Olhando para trás, com duas décadas de distanciamento, dá para dizer com
tranquilidade que Terror em Silent Hill envelheceu
muito bem. Ele não é perfeito; o roteiro às vezes se perde em longas
explicações no terceiro ato e alguns diálogos são um pouco travados. Porém, o
saldo final é extremamente positivo.
O filme entrega uma jornada de sobrevivência crua. Não é apenas sobre
tomar sustos fáceis com barulhos altos, é sobre o incômodo visual e a sensação
de isolamento. Se você busca uma produção que respeita o material de origem,
tem colhões para entregar cenas pesadas de gore (violência explícita) e
constrói uma mitologia rica, esse longa merece um espaço na sua noite de
sábado. É uma das poucas adaptações que conseguiu capturar a alma do videogame
e transformá-la em cinema de verdade.
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