O Despertar dos Deuses (Prisoners of the Sun)

 

Sabe aquele tipo de filme que você assiste esperando uma aventura épica à la Indiana Jones e termina com a sensação de que perdeu 90 minutos da sua vida? Pois é. O Despertar dos Deuses (ou Prisoners of the Sun, de 2013) é exatamente esse tipo de experiência.

Vou ser direto: o filme tenta beber da fonte de clássicos da arqueologia fantástica, mas acaba engasgando no próprio roteiro. Se você está pensando em dar o play, senta aqui, toma um café e deixa eu te contar por que essa produção é um exemplo perfeito de como uma boa ideia pode ser mal executada.

O que é Prisoners of the Sun e por que o título engana

O título original é Prisoners of the Sun, mas aqui no Brasil resolveram batizar de O Despertar dos Deuses. A direção ficou nas mãos de Peter Atkins, e o filme foi lançado oficialmente em 2013, embora pareça ter saído direto de uma fita VHS mofada dos anos 90.

A trama segue a receita de bolo de sempre: uma expedição arqueológica no Egito descobre uma pirâmide perdida. O problema é que, em vez de ouro e glória, eles encontram deuses antigos querendo exterminar a humanidade. No papel, parece interessante. Na tela, a narrativa se arrasta e os efeitos visuais não ajudam nem um pouco a manter a suspensão de descrença.

Elenco e a nota amarga no IMDB

O elenco conta com nomes como John Rhys-Davies (que eu respeito muito por O Senhor dos Anéis, mas aqui parece estar apenas pagando as contas), David CharvetCarmen Chaplin e Nick Moran. É aquele tipo de atuação burocrática: ninguém parece realmente acreditar que está em perigo real.

Se você der uma olhada no IMDB, a nota reflete bem o desânimo geral: um sofrido 3.1/10. Não é à toa. O filme não levou nenhuma premiação relevante e passou longe do radar da crítica especializada de forma positiva. É o tipo de produção que cai direto no limbo dos serviços de streaming.

Produção, trilha sonora e locações

Temos que dar um ponto positivo, se é que isso é possível: as locações de filmagem. O filme foi rodado no Marrocos, o que garante paisagens desérticas reais e uma luz natural que nenhum estúdio conseguiria replicar. Mas a beleza do deserto acaba aí.

trilha sonora é genérica. Sabe aquele som de "suspense de deserto" que você já ouviu em outros mil filmes melhores? É isso. Ela não marca, não cria tensão e serve apenas como um ruído de fundo para as cenas de ação mal coreografadas. O som não ajuda a salvar o ritmo lento da história.

Curiosidades e por que passar longe

Mesmo sendo uma produção difícil de engolir, existem algumas curiosidades sobre os bastidores:

  • O filme demorou anos para ser finalizado e lançado, o que geralmente é um sinal vermelho na indústria.

  • O diretor Peter Atkins é mais conhecido por seus roteiros na franquia Hellraiser, o que explica a tentativa de colocar elementos de terror e deuses ancestrais, mas aqui a mão pesou do jeito errado.

  • Muitas pessoas confundem esse filme com produções de orçamento maior devido ao pôster, que é bem mais bonito que o filme em si.

Conclusão

No fim das contas, O Despertar dos Deuses é um filme vazio. Não entrega o terror que promete, falha na aventura e tem um desfecho que te faz questionar suas escolhas de entretenimento. Se você quer ver algo sobre pirâmides e maldições, melhor rever os clássicos e deixar esse aqui enterrado na areia.



Perdidos na Noite (Midnight Cowboy)

 

Sempre tive um pé atrás com filmes que tentam ser "profundos" demais, mas Perdidos na Noite (ou Midnight Cowboy, no original) joga limpo. O filme não tenta te convencer de nada; ele apenas mostra a Nova York do final dos anos 60 como ela era: barulhenta, suja e indiferente. Se você gosta de cinema que prioriza a construção de personagem sobre explosões ou reviravoltas mirabolantes, esse aqui é obrigatório.

O choque de realidade de Joe Buck

Lançado em 1969, o filme conta a história de Joe Buck, um cara do Texas que decide tentar a sorte na cidade grande. Ele chega em Nova York achando que sua aparência de cowboy vai conquistar todas as mulheres ricas da Quinta Avenida, mas a realidade bate na cara dele logo no primeiro dia. Ele não é um conquistador; ele é só mais um cara deslocado em um mar de gente que não está nem aí para ele.

A direção do John Schlesinger é seca e direta. Ele não doura a pílula. A Nova York que vemos aqui não é a dos cartões-postais, mas a da Times Square decadente, cheia de poeira e neon barato. É nesse cenário que Joe conhece Rico "Ratso" Rizzo, e é aí que o filme realmente começa a mostrar a que veio.

Dustin Hoffman, Jon Voight e a química do fracasso

Não dá para falar desse filme sem citar as atuações. Jon Voight entrega um Joe Buck que transita entre a ingenuidade irritante e uma solidão profunda. Mas, para mim, o destaque absoluto é o Dustin Hoffman. O cara se transformou fisicamente para viver o Ratso, um malandro de rua que manqueja e tosse o tempo todo.

A dinâmica entre os dois é o que segura o filme. É uma amizade que nasce da necessidade e evolui para algo real, sem precisar de discursos emocionados ou trilhas sonoras manipuladoras. Atualmente, o filme segura uma nota 7.8 no IMDb, o que eu considero até baixo para o impacto que ele teve na época.

Bastidores, trilha sonora e o Oscar

Uma das coisas que mais me chama a atenção em Midnight Cowboy é a sua trilha sonora. A música "Everybody's Talkin'", na voz do Harry Nilsson, virou um clássico instantâneo e define perfeitamente o clima de isolamento do filme. Além disso, as locações de filmagem foram quase todas reais, usando as ruas de Manhattan e até Miami, o que dá um tom documental para a obra.

O filme também fez história nas premiações. Foi o único filme com classificação original "X" (para maiores de 18 anos na época, devido ao conteúdo adulto) a vencer o Oscar de Melhor Filme. Além dessa categoria, levou também os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado.

Algumas curiosidades que você talvez não saiba:

  • A famosa cena do "I'm walkin' here!" ("Eu estou andando aqui!"), onde Dustin Hoffman quase é atropelado por um táxi, foi improvisada. O táxi realmente furou o bloqueio das filmagens e quase acertou o ator.

  • Jon Voight recebeu um salário mínimo para o papel, só porque queria muito trabalhar no projeto.

  • O filme é baseado no romance homônimo de James Leo Herlihy.

Por que você deveria assistir hoje?

Mesmo sendo um filme de 1969, Perdidos na Noite não envelheceu. O sentimento de solidão urbana e a busca por conexão em um mundo caótico continuam atuais. É uma aula de como contar uma história humana sem precisar de excessos. Se você busca uma narrativa honesta, com atuações de peso e uma fotografia que captura a essência de uma época, dê o play sem medo.