O Pequeno Buda (Little Buddha)

 

Se você curte cinema que faz pensar e ainda entrega um visual absurdo, precisa conhecer (ou rever) Pequeno Buda. Assisti ao filme recentemente e resolvi dissecar por que essa obra de 1993 ainda é tão relevante, sem aquele papo místico exagerado, focando no que realmente importa: a execução técnica e a história.

O que é Pequeno Buda e por que ele importa?

O título original é Little Buddha. O filme foi lançado em 1993 (chegou ao Brasil em 1994) e foi dirigido pelo mestre Bernardo Bertolucci. Se você conhece o trabalho dele em O Último Imperador, já sabe que o cara não brinca em serviço quando o assunto é épico histórico.

A trama é dividida em duas frentes. De um lado, acompanhamos um grupo de monges tibetanos que acredita ter encontrado a reencarnação de um grande mestre em um garoto americano chamado Jesse, em Seattle. Do outro, vemos a própria jornada de Siddharta Gautama, o príncipe que abandonou tudo para buscar a iluminação e se tornar o Buda.

Aqui vão os dados técnicos rápidos para você se situar:

  • Diretor: Bernardo Bertolucci.

  • Elenco Principal: Keanu Reeves (como Siddharta), Chris Isaak, Bridget Fonda e Alex Wiesendanger.

  • Nota IMDb: Atualmente flutua em torno de 6.1/10.

  • Premiações: Foi indicado ao Grammy pela trilha sonora e venceu prêmios de fotografia (que é impecável).

A estética visual e as locações de tirar o fôlego

Uma das coisas que mais me impressionou não foi nem a filosofia em si, mas como o filme foi rodado. Bertolucci usou um contraste de cores muito foda: Seattle é fria, azulada e moderna; já o passado de Buda e o Nepal são vibrantes, laranjas e quentes.

As locações de filmagem foram fundamentais para esse realismo. O filme passou por:

  1. Catmandu, Nepal: Onde a espiritualidade transborda na tela.

  2. Butão: Foi um dos primeiros grandes filmes ocidentais a ter permissão para filmar lá.

  3. Seattle, EUA: Representando o contraponto ocidental e cético.

A trilha sonora e a atuação improvável de Keanu Reeves

Muita gente torceu o nariz na época quando soube que o Keanu Reeves seria o Buda. Mas, honestamente? Ele entregou uma performance contida e física que faz todo sentido para o papel. Ele precisou perder peso e passar por um processo de maquiagem pesado para as cenas de ascetismo.

trilha sonora, composta pelo japonês Ryuichi Sakamoto, é um espetáculo à parte. Sakamoto já tinha levado o Oscar por O Último Imperador e aqui ele mistura sintetizadores com instrumentos tradicionais asiáticos. É o tipo de música que conduz o filme sem precisar de diálogos explicativos.

Curiosidades que você provavelmente não sabia

Para quem gosta de bastidores, Pequeno Buda tem algumas histórias interessantes:

  • Consultoria Real: O filme teve a supervisão de monges budistas reais para garantir que os rituais e ensinamentos não fossem deturpados.

  • Keanu e o Jejum: Reeves levou o papel a sério e seguiu uma dieta rigorosa de laranjas e alface para filmar as cenas em que Siddharta quase morre de fome.

  • Fotografia de Mestre: O diretor de fotografia, Vittorio Storaro, usou três tipos de película diferentes para distinguir as "realidades" do filme.

Vale a pena assistir hoje em dia?

Sem dúvida. Mesmo que você não seja uma pessoa espiritualizada, o filme funciona como uma aula de história e de estética cinematográfica. Ele não tenta te converter a nada, apenas apresenta uma jornada de autodescoberta que é universal. É um cinema feito com paciência, algo raro hoje em dia.

Pequeno Buda é um daqueles filmes que você termina de ver e sente que viajou sem sair do sofá. Se você busca algo com substância e um visual de cair o queixo, dê o play.


O Clã das Adagas Voadoras (十面埋伏)

 

O Clã das Adagas Voadoras

Se você curte cinema de artes marciais que vai além da pancadaria gratuita, com certeza já ouviu falar de O Clã das Adagas Voadoras (House of Flying Daggers). Eu revi esse clássico recentemente e decidi analisar por que, mesmo depois de tantos anos, ele continua sendo uma referência visual absoluta.

Vou direto ao ponto: o filme é uma aula de estética. Sem enrolação, aqui está tudo o que você precisa saber sobre essa obra-prima do gênero wuxia.

Ficha técnica e contexto histórico

Lançado oficialmente em 2004, o filme chegou em uma época onde o cinema chinês estava ganhando o mundo. O diretor por trás dessa máquina é o mestre Zhang Yimou, o mesmo cara que entregou Herói.

A história se passa no ano de 859 d.C., durante o declínio da Dinastia Tang. O governo está corrupto e um grupo rebelde — o tal Clã das Adagas Voadoras — começa a ganhar força. No meio disso, temos dois capitães da polícia local que bolam um plano para infiltrar o grupo através de uma dançarina cega.

  • Título Original: Shi mian mai fu

  • Nota IMDb: 7.5/10

  • Protagonistas: Takeshi Kaneshiro, Andy Lau e a icônica Zhang Ziyi.

O visual e as locações: onde a mágica acontece

O que me prende nesse filme não é só a história, mas como ele é filmado. Muita gente acha que foi tudo feito em estúdio na China, mas a verdade é mais interessante.

As famosas cenas de floresta, com aquele verde vibrante, e as sequências de neve foram filmadas em sua maioria na Ucrânia (Parque Nacional de Hutsulshchyna) e em algumas partes da China. A escolha das locações faz toda a diferença; o cenário não é apenas um fundo, ele é um personagem que dita o ritmo das lutas.

A fotografia de Zhao Xiaoding é tão precisa que cada frame parece uma pintura. Não é à toa que o filme foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia.

Trilha sonora e premiações

A trilha sonora é outro ponto alto. Composta por Shigeru Umebayashi, ela foge do óbvio. A música consegue ser tensa nos momentos de combate e minimalista nos diálogos. A canção tema, "Lovers", interpretada pela soprano Kathleen Battle, fecha o filme com o peso necessário.

Sobre o reconhecimento da crítica, o filme não passou batido:

  • Indicado ao Oscar (Fotografia).

  • Várias indicações ao BAFTA (Melhor Atriz, Figurino, Som, Efeitos Visuais).

  • Venceu diversos prêmios técnicos em festivais asiáticos e europeus.

Curiosidades que você (provavelmente) não sabia

Para quem gosta de detalhes de bastidores, separei alguns pontos que mostram o trabalho insano que deu para fazer esse filme:

  1. A Dança dos Ecos: Aquela cena inicial dos tambores? Zhang Ziyi treinou por meses. Embora tivesse dublês de corpo para alguns movimentos, boa parte da coreografia é dela.

  2. Neve real: A cena final, que acontece em uma nevasca, não estava totalmente planejada para ser assim. Começou a nevar de verdade durante as filmagens na Ucrânia, e o diretor decidiu adaptar o roteiro para aproveitar o clima, o que deu um tom muito mais dramático para o desfecho.

  3. Homenagem: O filme é dedicado a Anita Mui, uma lenda do cinema de Hong Kong que faleceu de câncer antes de filmar suas cenas. O diretor preferiu alterar o roteiro a substituí-la.

O Clã das Adagas Voadoras é um filme seco no diálogo, mas gigante na execução técnica. Se você busca uma narrativa direta, coreografias que desafiam a gravidade e uma estética impecável, vale o play. É cinema de ação feito com cérebro e olhos atentos aos detalhes.