A Falha (Jestem REN)

 

Sabe quando você liga a TV procurando um suspense psicológico despretensioso e acaba deparando com uma ficção científica que te deixa fritando os neurônios por dias? Foi exatamente o que aconteceu comigo quando assisti a A Falha (título original: Jestem REN).

Lançado em 2019 e dirigido pelo polonês Piotr Ryczko, esse filme passou meio fora do radar do grande público, mas entrega uma daquelas tramas cerebrais que mexem com a nossa percepção da realidade. A história acompanha Renata, interpretada pela atriz Marta Król, que vive uma vida aparentemente normal no campo com o marido Jan (Mariusz Zaniewski) e o filho Kamil. O elenco ainda conta com Janusz Chabior e Ela Antoniak. Tudo parece sob controle, até que uma falha no comportamento de Renata muda o rumo das coisas: ela começa a acreditar que é uma inteligência artificial de última geração, um androide modelo REN, e que sua família está correndo perigo.

Se você curte produções no estilo Black Mirror ou Ex Machina, mas com aquela pegada mais crua do cinema europeu, esse filme é um prato cheio. Vamos destrinchar o que faz essa obra valer o seu tempo.

Qual é o grande mistério por trás da história de A Falha?

O roteiro joga a gente direto na cabeça da Renata. Depois de um colapso emocional ou o que o filme chama de "erro de sistema", ela passa a se enxergar como uma máquina projetada para ser a esposa e mãe perfeita. O grande trunfo do diretor Piotr Ryczko é deixar o espectador em uma corda bamba constante.

A pergunta que fica na nossa mente o tempo todo é: estamos acompanhando o surto psicótico de uma mulher real que perdeu o chão ou ela é mesmo um robô que desenvolveu consciência e está sendo boicotada pelas pessoas ao redor? Essa dubiedade é o motor do filme. A narrativa não te entrega respostas fáceis, o que te obriga a prestar atenção em cada pequeno detalhe do cenário e das reações dos personagens.

Onde o filme foi gravado e como a locação dita o clima?

A maior parte da produção se passa em uma casa isolada, cercada por uma floresta densa e uma névoa quase constante. Essas locações na Polônia foram escolhidas a dedo. Em vez de optar por aquele visual futurista clássico, cheio de neon e metal escovado, o diretor preferiu um ambiente rural, meio rústico e claustrofóbico.

Essa escolha cria um contraste absurdo. Você tem uma discussão sobre tecnologia de ponta e inteligência artificial acontecendo no meio do mato, em uma casa de campo que parece saída de um drama familiar comum. Essa solidão geográfica amplifica a paranoia da protagonista. Você sente o isolamento dela na pele; não há para onde fugir e não há vizinhos para pedir ajuda. É um cenário minimalista que foca 100% no peso psicológico da situação.

Quais são as melhores curiosidades sobre os bastidores da obra?

Uma das coisas mais interessantes sobre Jestem REN é como o diretor usou o próprio orçamento enxuto a favor da narrativa. Como não havia rios de dinheiro para efeitos visuais de última geração, o longa se sustenta na direção de arte e na atuação cirúrgica de Marta Król. Ela consegue passar aquela rigidez mecânica de um robô apenas no olhar e na postura, sem precisar de maquiagem pesada ou computação gráfica.

Outro ponto curioso é o nome "REN". Na mitologia egípcia, o Ren é a parte da alma que representa o nome secreto e a identidade de uma pessoa — aquilo que a mantém viva enquanto o nome for pronunciado. No contexto do filme, isso ganha uma camada profunda: a busca da protagonista por descobrir quem ou o que ela realmente é. É o tipo de detalhe que mostra que o roteiro foi pensado com muito cuidado.

Vale a pena assistir A Falha mesmo com a nota atual do IMDb?

Se você der uma olhada rápida no IMDb, vai ver que A Falha está com nota 5.1. Para muita gente, isso seria um motivo para passar longe, mas aqui vale aquele conselho de amigo: não se deixe levar totalmente pelos números. O cinema polonês de ficção científica costuma ser mais lento, focado em atmosfera e debates filosóficos, o que costuma afastar o público que espera uma ação frenética à la Hollywood.

A minha crítica sincera sobre a obra é que ela entrega uma experiência psicológica crua e muito honesta. O filme aborda temas pesados, como depressão pós-parto, pressões sociais sobre a maternidade e a frieza das relações modernas, tudo isso camuflado sob a roupagem da inteligência artificial. O ritmo mais cadenciado do meio para o final pode incomodar quem busca respostas mastigadas, mas se você aprecia uma boa construção de mistério e um clima de suspense que te deixa desconfortável na poltrona, é uma baita recomendação para o seu próximo final de semana.

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