A Noite das Bruxas (A Haunting in Venice)

 

A Noite das Bruxas

Se você é fã de uma boa história de mistério, daquelas que te prendem na cadeira enquanto tenta juntar as pistas antes do protagonista, sabe que o detetive Hercule Poirot é uma lenda. Quando soube que ele voltaria para os cinemas com uma roupagem muito mais sombria, confesso que meu interesse disparou. O filme A Noite das Bruxas traz o famoso investigador belga saindo da aposentadoria para enfrentar algo bem diferente dos crimes comuns: uma sessão espírita que dá terrivelmente errado.

Neste texto, vou te levar para os bastidores dessa produção, destrinchar os detalhes técnicos e entregar uma visão sincera sobre o filme. Prepare o seu café e venha comigo descobrir se essa obra realmente vale o seu tempo.

Qual é o contexto inicial e a história por trás da obra?

Para entender o peso de A Noite das Bruxas, cujo título original é A Haunting in Venice, precisamos olhar para a trajetória do diretor britânico Kenneth Branagh. Ele assumiu a missão de revitalizar o universo de Agatha Christie no cinema moderno. Primeiro, ele nos trouxe o clássico confinamento ferroviário em Assassinato no Expresso do Oriente (2017) e, depois, o visual exuberante de Morte no Nilo (2022).

O longa chegou aos cinemas no ano de lançamento de 2023, com uma proposta bem diferente dos seus antecessores. Esqueça o glamour dos trens de luxo ou dos cruzeiros ensolarados. Aqui, o roteirista Michael Green adaptou, de forma bastante livre, o livro A Noite das Bruxas (originalmente Hallowe'en Party, de 1969).

A trama nos joga na Veneza pós-Segunda Guerra Mundial, em 1947. Poirot está aposentado, cético e isolado do mundo, até que sua velha amiga e escritora Ariadne Oliver o convence a participar de uma sessão espírita na noite de Halloween. O objetivo? Desmascarar uma médium famosa em um palazzo supostamente assombrado. Quando um dos presentes é assassinado dentro da propriedade trancada, o detetive se vê forçado a usar sua lógica fria para descobrir o culpado, enquanto lida com fenômenos que desafiam a sua própria sanidade.

Quem comanda o diretor e o elenco de peso?

A assinatura visual e narrativa do filme vem inteiramente de Kenneth Branagh, que além de dirigir, veste o imponente bigode de Hercule Poirot pela terceira vez. Ele sabe como conduzir um suspense clássico, mas aqui decidiu flertar agressivamente com o terror gótico e o suspense sobrenatural.

O elenco de apoio é formidável e entrega exatamente a tensão necessária para manter o espectador desconfiado de absolutamente todo mundo. Temos a vencedora do Oscar Michelle Yeoh interpretando Joyce Reynolds, a enigmática médium. Tina Fey brilha saindo totalmente de sua zona de conforto cômica para viver a afiada escritora Ariadne Oliver.

O time de suspeitos e envolvidos ainda conta com Jamie Dornan como o atormentado Dr. Leslie Ferrier, o jovem Jude Hill como seu filho Leopold, Kelly Reilly na pele da sofrida Rowena Drake, além de Camille Cottin, Kyle Allen e Riccardo Scamarcio. É uma dinâmica pesada, onde os olhares captados pela câmera dizem muito mais do que os próprios diálogos.

Onde fica a locação real do filme?

Visualmente, o filme é um espetáculo de sombras e confinamento, e a locação escolhida faz toda a diferença para criar esse clima enclausurado. A história se passa inteiramente na icônica cidade de Veneza, na Itália. A produção realmente gravou diversas cenas externas por lá, aproveitando canais enevoados, a famosa Piazza San Marco, o Palazzo Malipiero e a icônica ponte Ponte dei Conzafelzi.

Contudo, há um segredo de bastidores fascinante: o assustador palazzo onde a maior parte do crime acontece foi construído quase do zero nos palcos dos estúdios Pinewood, na Inglaterra.

Os cenógrafos recriaram interiores detalhados baseados em palácios reais da Itália, como o Palazzo Pisani. Para dar o realismo das ondas fortes e da tempestade batendo contra as paredes de pedra, a equipe chegou a construir réplicas em menor escala na cidade inglesa de Reading para controlar os efeitos da água. Essa mistura de locações reais com cenários controlados deu ao filme uma atmosfera sufocante, quase claustrofóbica.

Quais são as maiores curiosidades da produção?

Gosto de reparar nos pequenos detalhes que tornam uma obra única, e os bastidores deste longa escondem fatos ótimos para contar numa mesa de bar:

·         Mudança radical de cenário: O livro original de Agatha Christie se passa em uma pacata e bucólica vila no interior da Inglaterra. Mudar a história para Veneza foi uma jogada puramente cinematográfica para aumentar o drama e o isolamento dos personagens durante uma tempestade.

·         Sustos reais no set: Kenneth Branagh não avisou o elenco sobre certos efeitos práticos que aconteceriam durante as gravações da sessão espírita. Luzes piscando, barulhos inesperados e correntes de ar frio pegaram os atores de surpresa, gerando reações de espanto genuínas que foram direto para a edição final.

·         Trilha sonora premiada: A música ficou a cargo da compositora islandesa Hildur Guðnadóttir (famosa pelo trabalho em Coringa e Chernobyl). Ela usou instrumentos da época gravados de forma distorcida para criar um ambiente sonoro desconfortável e sombrio.

·         Reencontros de elenco: O filme marca o reencontro de Jamie Dornan e o garoto Jude Hill, que interpretaram pai e filho no aclamado filme Belfast (2021), também dirigido por Branagh.

Qual é a nota IMDb e a minha crítica sincera sobre o filme?

Se formos olhar a recepção geral do público, a nota IMDb atualizada gira na casa dos 6.5 de 10. É uma média sólida, que reflete bem o que a obra entrega: um entretenimento competente que divide opiniões entre os puristas da literatura e os fãs de cinema de gênero.

Na minha crítica da obra, considero este o melhor capítulo da trilogia de Branagh. O diretor finalmente encontrou um equilíbrio excelente ao abandonar a computação gráfica excessiva dos filmes anteriores e apostar em lentes grande-angulares, ângulos holandeses (aquelas câmeras levemente inclinadas que geram desconforto) e muita sombra. O filme funciona quase como um jogo de tabuleiro de sobrevivência.

O roteiro constrói muito bem a dúvida: estamos lidando com fantasmas reais de crianças assassinadas ou apenas com a ganância e a mente distorcida de um ser humano de carne e osso? A resolução do mistério mantém a lógica clássica de Agatha Christie, o que pode decepcionar quem esperava uma reviravolta puramente fantástica, mas que agrada quem valoriza uma dedução bem estruturada. É um filme direto, sem enrolação, com pouco mais de 100 minutos de duração que passam voando. Se você quer um suspense de respeito com uma forte pegada gótica para assistir no fim de semana, pode dar o play sem medo.

 

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