Se
você curte aquele cinema de ação clássico do final dos anos 90, mas que entrega
algo além de pancadaria gratuita, precisa redescobrir Legionário. Eu me
lembro perfeitamente da primeira vez que assisti a esse longa. Esperava ver os
tradicionais chutes giratórios e espacates que consagraram o protagonista, mas
o que encontrei foi uma jornada brutal sobre redenção, honra e sobrevivência no
meio do deserto. É aquele tipo de filme que prende a nossa atenção do início ao
fim pelo peso da história.
Lançado no ano de 1998, com o título
original de Légionnaire, o longa
traz uma atmosfera imersiva na Marselha da década de 1920. A trama acompanha
Alain Lefèvre, um boxeador francês que se mete com a máfia local após se recusar
a entregar uma luta. Sem saída e caçado pelos capangas de um chefe do crime, a
única alternativa de Alain para salvar a própria pele é se alistar na Legião
Estrangeira Francesa. A partir daí, ele é enviado para o norte da África,
trocando o asfalto europeu pelas areias escaldantes do Marrocos, onde a
verdadeira batalha pela vida começa.
Qual é a história por trás de Legionário?
O enredo funciona muito bem porque trabalha com escolhas
extremas. Alain aceita o dinheiro para perder o combate, mas o orgulho e o
instinto de lutador falam mais alto no ringue. Ao nocautear o adversário, ele
assina sua sentença de morte na França. O alistamento na Legião Estrangeira não
surge como uma escolha heroica, mas sim como o último refúgio de um homem
encurralado.
No forte no meio do deserto, o ambiente é hostil e o
treinamento é desenhado para quebrar o espírito de qualquer um. Alain deixa de
ser um indivíduo e passa a ser apenas mais um soldado descartável na Guerra do
Rife, enfrentando os guerreiros berberes liderados por Abd el-Krim. A narrativa
foca muito na camaradagem que nasce entre homens de diferentes cantos do mundo,
todos unidos pelo mesmo desejo de apagar o passado.
Quem está no comando e no elenco do filme?
A direção ficou nas mãos de Peter MacDonald, um
nome experiente que já tinha comandado Rambo 3 e que sabia
exatamente como filmar a crueza de um cenário de guerra isolado. No papel
principal, temos Jean-Claude Van Damme, que aqui
entrega uma das atuações mais maduras e contidas da sua carreira, deixando as
acrobacias de lado para focar no drama de um homem que perdeu tudo.
O elenco de apoio é fantástico e dá a sustentação
necessária para o peso do filme. Temos Adewale Akinnuoye-Agbaje
(o eterno Sr. Eko de Lost) interpretando Luther, um
americano fugindo do racismo de seu país; Nicholas Farrell
como Mackintosh, um inglês aristocrata caído em desgraça; e Steven Berkoff como
o implacável Sargento Steinkampf, o homem encarregado de transformar aqueles
renegados em soldados profissionais.
Onde o longa foi filmado e quais são suas curiosidades?
A produção não economizou na ambientação. As principais
locações do filme foram em Tânger e Ouarzazate, no Marrocos. O uso de
cenários reais e do deserto de verdade faz toda a diferença na tela, trazendo
um realismo que o CGI moderno dificilmente consegue replicar. Você quase
consegue sentir o calor e a areia entrando nos olhos enquanto assiste.
Nos bastidores, existem alguns fatos bem interessantes
que mostram o envolvimento da equipe:
·
Ideia
original: O próprio Jean-Claude Van
Damme coescreveu a história original que deu origem ao roteiro (ao lado de
Sheldon Lettich) e também assina como um dos produtores do longa.
·
Tom
diferente: A ideia inicial do projeto
era fazer uma comédia de ação estrelada por Van Damme e pelo comediante John
Candy. Com a morte de Candy, o tom mudou radicalmente para um drama de guerra
sério.
·
Trabalho
de campo: Para garantir a autenticidade
da rotina militar, o diretor Peter MacDonald foi a Paris e entrevistou
veteranos reais da Legião Estrangeira Francesa, incluindo um senhor de 80 anos.
Vale a pena assistir Legionário hoje em dia?
Com uma nota de 5,5/10 no IMDB, dá
para dizer com tranquilidade que a obra é injustiçada por parte da crítica
especializada, que na época esperava um filme de artes marciais padrão e acabou
recebendo um drama militar de época. A fotografia de Douglas Milsome é
belíssima, valorizando as paisagens desérticas e o design de produção
reconstrói muito bem os anos 20, desde as roupas até o armamento histórico.
Minha crítica pessoal ao filme é extremamente positiva.
Ele sobrevive muito bem ao teste do tempo justamente porque não pega leve e não
entrega saídas fáceis para os personagens. A famosa frase do Sargento
Steinkampf resume bem o espírito da obra: "Sugiro que guardem uma
última bala no bolso, não para o inimigo, mas para vocês mesmos".
É um filme robusto, focado em sacrifício, lealdade e na dura realidade de pagar
o preço pelas próprias escolhas. Se você quer uma boa história de sobrevivência
com uma pegada firme, vale cada minuto.
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