Sabe
aquele tipo de filme que te faz sentar na poltrona, abrir uma boa bebida e
simplesmente admirar o peso da história passando na tela? Pois é. Sempre que
penso em grandes épicos do cinema, minha mente viaja direto para a Sicília do
século XIX. Estou falando de um clássico absoluto que moldou a forma como
enxergamos a transição do poder, a honra e a decadência de uma era. Se você
busca uma obra que equilibra força, elegância e uma baita presença de espírito,
precisa conhecer ou rever essa obra-prima.
Qual
é a história por trás de O Leopardo?
O filme, cujo título original é Il Gattopardo, foi
lançado no marcante ano de lançamento de 1963 e traz
uma narrativa poderosa sobre sobrevivência política e orgulho familiar. A trama
acompanha o Príncipe Don Fabrizio Salina durante o Risorgimento — o
conturbado processo de unificação da Itália. Com a chegada das forças de
Garibaldi, a velha aristocracia percebe que seus dias de glória estão contados.
O coração da história bate forte na famosa frase do
sobrinho do Príncipe, Tancredi: "Para que tudo permaneça como está, é
preciso que tudo mude". É um soco no estômago sobre a arte de
mudar de lado para manter os privilégios. Toda essa genialidade nasceu das
páginas, já que o roteiro é uma adaptação impecável do livro homônimo do autor Lampedusa
(Giuseppe Tomasi di Lampedusa), que sabia como ninguém traduzir o espírito da
nobreza decadente da sua terra natal. Atualmente, a obra ostenta uma
respeitável nota IMDb de 8,0,
refletindo seu status lendário ao longo das décadas.
Quem comanda o elenco de peso desse clássico?
Para dar vida a personagens tão densos, o genial diretor Luchino Visconti
escalou um time que transborda testosterona, charme e talento bruto. O
norte-americano Burt Lancaster entrega a atuação da sua vida como o Príncipe de
Salina — um homem imponente, mas que carrega a melancolia de ver seu mundo
desmoronar. Ao seu lado, o jovem Alain Delon exala a ambição e a astúcia
necessárias para o papel de Tancredi, enquanto a deslumbrante Claudia Cardinale
ilumina a tela como Angelica, a jovem que representa o dinheiro novo e o futuro
daquela sociedade.
O que muita gente deixa passar batido, e que considero um
baita achado para quem gosta de um bom faroeste, é a presença de Terence Hill
no filme. Ainda creditado com seu nome de batismo, Mario Girotti, ele
interpreta o Conde Cavriaghi. É quase um choque ver o homem que anos mais tarde
se tornaria o lendário e canastrão Trinity, dos
clássicos de bang-bang italiano, vestindo farda militar em um drama
aristocrático tão refinado de Visconti.
Onde foram feitas as belíssimas gravações?
A atmosfera do longa é única porque Visconti não
economizou na autenticidade. A locação principal foi a própria
Sicília, na Itália. O diretor transformou a cidade de Palermo e os vilarejos
vizinhos, como Ciminna, em cenários vivos da revolução.
O grande destaque vai para o Palazzo Valguarnera-Gangi,
em Palermo, onde foi filmada a icônica sequência do baile, que dura quase um
terço do filme. A luz natural das velas, os tetos afrescados e a poeira das
estradas sicilianas dão um realismo visual que nenhum efeito digital de hoje
conseguiria replicar. Você praticamente consegue sentir o calor e o cheiro de
pólvora e perfume no ar.
Quais são as maiores curiosidades dos bastidores?
Uma produção desse tamanho é cercada de histórias
fascinantes. Separei algumas curiosidades que mostram a obsessão
de Visconti pela perfeição:
·
Obsessão
por detalhes: O diretor exigia que os
armários e gavetas dos cenários estivessem cheios de roupas de época legítimas,
lenços de seda e objetos reais, mesmo que as câmeras nunca os filmassem
abertos. Ele dizia que isso ajudava os atores a incorporarem a verdade de seus
personagens.
·
O
calor dos mil sóis: A sequência do baile
demorou semanas para ser rodada sob um calor escaldante de verão. Como Visconti
usava milhares de velas reais para iluminar o salão, a cera derretia rapidamente
e o elenco precisava retocar a maquiagem a cada poucos minutos.
·
Dublagem
de titãs: Sendo uma coprodução
internacional, Burt Lancaster gravou suas falas em inglês, enquanto o restante
do elenco falava italiano ou francês. Na versão final lançada na Itália,
Lancaster foi dublado de forma magistral pelo ator italiano Corrado Gaipa.
Por que a crítica considera este filme uma obra-prima?
Fazendo uma crítica da obra com
os pés no chão, o filme se consagra porque não é apenas um retrato histórico; é
um estudo profundo sobre a mortalidade, o tempo e a virilidade diante da
derrota inevitável. O Príncipe Salina não chora as pitangas pelo fim do seu
império; ele aceita o destino como um leão velho que sabe que a savana agora
pertence aos novos predadores.
A direção de Visconti é cirúrgica, tratando cada plano
como uma pintura a óleo. O ritmo é cadenciado, sem pressa, exigindo do
espectador aquela paciência firme de quem sabe apreciar o desenvolvimento de
uma grande história. É um cinema robusto, elegante e feito para homens que
entendem que o verdadeiro poder está em saber como encarar as mudanças
inevitáveis da vida de cabeça erguida.
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