Se
você curte cinema nacional que chuta o balde e foge do óbvio, senta aí que hoje
vamos falar de um clássico absoluto. Vou te contar tudo sobre o filme
Macunaíma, uma obra que pegou a identidade brasileira, bateu no liquidificador
e entregou um dos retratos mais caóticos e geniais da nossa cultura.
Eu lembro da primeira vez que assisti: fiquei
completamente perdido e fascinado ao mesmo tempo. É aquele tipo de filme que te
puxa pelo colarinho e não te deixa piscar. Vamos entender como essa loucura foi
parar nas telas e por que ela ainda importa tanto?
Quem foi o gênio por trás da direção de Macunaíma?
Para dar vida ao "herói sem nenhum caráter",
era preciso alguém com muita coragem e uma visão estética apurada. Quem assumiu
a bronca foi o diretor Joaquim Pedro de Andrade, um dos
grandes nomes do nosso Cinema Novo. O título original do longa manteve o nome
do livro que o inspirou: simplesmente Macunaíma.
Lançado no emblemático ano de 1969, bem no
meio do turbilhão político da ditadura militar, o filme conseguiu passar pelas
brechas da censura usando a comédia e a alegoria para criticar o consumo, a
política e a própria sociedade brasileira. No termômetro do IMDb, o filme ostenta uma nota
7,1, o que é um respeito enorme para uma comédia satírica e
experimental daquela época.
Como o elenco conseguiu transformar o absurdo em
genialidade?
O elenco desse filme é uma constelação do que o Brasil
tinha de melhor na dramaturgia. O papel principal foi dividido em dois momentos
geniais. Quem dá vida ao Macunaíma na fase adulta é o gigante Grande Otelo, que
entrega uma atuação corporal e expressiva que bota muito ator de Hollywood no
chinelo. Mais para a frente, após um banho mágico em uma poça d'água, ele se
transforma em um homem branco, interpretado por Paulo José.
A química e a transição entre os dois são fantásticas. O
time de peso ainda conta com Dina Sfat, interpretando a guerrilheira Ci, e
Jardel Filho no papel do vilão antropófago Venceslau Pietro Pietra. Esse elenco
conseguiu fazer com que uma história completamente surreal parecesse crua, real
e extremamente divertida.
As locações também ajudam a contar essa jornada de
transição. O filme começa na mata profunda, com cenas gravadas no Rio de Janeiro
(simulando a Amazônia), e depois migra para o cenário urbano e caótico da
capital fluminense e de São Paulo, mostrando o choque do
homem do campo descobrindo a selva de pedra.
Quais são as maiores curiosidades dos bastidores de
Macunaíma?
Cara, os bastidores desse filme têm tanta história boa
que dava para fazer outro longa só sobre isso.
·
Metáfora
da Antropofagia: O filme leva a sério a
ideia do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. No filme, as pessoas
literalmente se devoram. O vilão é um gigante comedor de gente e o próprio
Macunaíma quase vira banquete. Era a forma do diretor dizer: o capitalismo no
Brasil está comendo todo mundo vivo.
·
O
nascimento icônico: A cena em que
Macunaíma nasce, já velho e chorando, saindo de dentro de uma cabana na
floresta, foi gravada com o ator Paulo José vestido de bebê, sendo carregado
pela mãe. É bizarro, é engraçado e é puro suco de criatividade visual.
·
Sucesso
internacional: Apesar de ser um filme
profundamente brasileiro, cheio de gírias e referências locais, ele rodou o
mundo e foi super bem recebido em festivais internacionais, provando que o
nosso cinema de vanguarda conversava com qualquer cultura.
Vale a pena assistir a essa comédia satírica hoje em dia?
Sem enrolação: vale cada minuto. Minha crítica sobre
Macunaíma é que ele não envelheceu um dia sequer no quesito originalidade.
Enquanto o cinema atual muitas vezes entrega fórmulas prontas e mastigadas,
esse clássico choca, diverte e faz pensar de um jeito muito autêntico.
O ritmo é frenético e a famosa frase "Ai, que preguiça!"
resume perfeitamente o espírito de um herói que, no fundo, representa as
contradições, os erros e a ginga do povo brasileiro para sobreviver ao caos. É
um filme obrigatório para quem quer entender as raízes do nosso audiovisual e
valorizar o que é genuinamente nosso.
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