Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias (Multiplicity)

 

Sabe aquele dia em que a lista de tarefas parece não ter fim e você só queria estar em dois (ou três) lugares ao mesmo tempo? Pois é. Eu estava revendo Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias (Multiplicity) e percebi que, mesmo sendo um filme de 1996, a ideia central continua mais atual do que nunca. A diferença é que, na época, a solução do protagonista foi um pouco mais radical do que baixar um app de produtividade.

Vou te contar por que esse filme do Michael Keaton é um clássico que merece sua atenção, sem entregar o jogo ou estragar as surpresas.

Do que se trata a história, afinal?

A trama gira em torno de Doug Kinney, um cara sobrecarregado que tenta equilibrar um emprego estressante na construção civil com a atenção que deve à esposa, Laura (interpretada pela Andie MacDowell), e aos filhos. O sujeito está no limite. É aí que ele conhece um cientista que oferece uma saída inusitada: criar um clone dele.

A lógica é simples: enquanto o clone trabalha, o Doug original aproveita a vida. O problema é que, como todo mundo que tenta pegar um atalho, ele acaba descobrindo que gerenciar uma cópia de si mesmo — e depois outras — é um pesadelo logístico e de identidade. Cada clone acaba manifestando uma faceta diferente da personalidade dele, o que gera situações bizarras, mas sem aquele drama pesado. É uma comédia direta ao ponto.

Direção, elenco e aquela nostalgia dos anos 90

O filme foi lançado em 17 de julho de 1996 e tem a assinatura de Harold Ramis. Se o nome não te soa familiar, ele é o gênio por trás de Feitiço do Tempo e foi um dos Caça-Fantasmas. O cara sabia como filmar comédias com um toque de inteligência sem ser pretensioso.

O Michael Keaton dá um show à parte. Ele interpreta quatro versões do Doug, e você consegue distinguir cada uma delas só pela postura ou pelo jeito de falar. Não é à toa que o filme ainda é lembrado pelo esforço técnico da época para colocar vários "Keatons" na mesma cena sem parecer um efeito de vídeo barato.

Aqui vão alguns dados técnicos pra você se situar:

  • Título Original: Multiplicity

  • Nota IMDb: 6.1/10

  • Premiações: Ganhou o prêmio BMI Film Music Award pela trilha sonora e foi indicado ao Saturn Award na época.

Trilha sonora, locações e os bastidores

A trilha sonora ficou nas mãos de George Fenton, que optou por algo que acompanha bem o ritmo da comédia, sem tentar roubar a cena. Já as filmagens aconteceram basicamente em Los Angeles, na Califórnia. Se você prestar atenção nas cenas de rua e nas casas, vai sentir aquela estética bem específica dos subúrbios americanos de meados da década de 90.

Uma curiosidade interessante é que, para gravar as cenas com os clones, Keaton usava um fone de ouvido escondido para ouvir as falas que ele mesmo tinha gravado antes. Assim, ele conseguia manter o tempo das piadas e das interações. Além disso, o filme usa um conceito de "cópia da cópia" (o clone do clone), que mostra como as coisas podem degringolar quando a gente tenta simplificar demais a vida.

Por que você deveria (re)ver esse filme?

Se você busca uma análise profunda sobre a ética da clonagem, esse não é o seu filme. Mas se quer uma narrativa fluida sobre o caos da vida moderna e como a gente se perde tentando ser produtivo o tempo todo, ele é certeiro. É um filme "homem comum" lidando com problemas extraordinários de um jeito bem prático.

É o tipo de produção que não se faz mais hoje em dia: uma ideia original, um ator principal inspiradíssimo e um roteiro que entrega o que promete sem enrolação. Vale o play, seja pela nostalgia ou pela curiosidade técnica.


Deu a Louca no Mundo (It's a Mad, Mad, Mad, Mad World)

 

Sabe aqueles dias em que você liga a TV e tudo parece uma reprise sem graça? Se você está procurando algo que realmente quebre esse ciclo e te entregue entretenimento puro, do tipo que não se faz mais hoje em dia, precisa conhecer um clássico que definiu o conceito de comédia épica. Eu sou fã de carteira assinada de filmes que não têm medo de ser grandiosos, e "Deu a Louca no Mundo" (1963) é o rei absoluto nesse quesito.

Imagine reunir praticamente todos os maiores comediantes de uma geração em um único filme, dar a eles uma premissa simples — uma corrida maluca por uma fortuna enterrada — e deixar o caos rolar solto por mais de três horas. É exatamente isso que acontece aqui. Lançado em uma época em que o cinema ainda apostava em grandes espetáculos para toda a família, este filme é uma cápsula do tempo de pura diversão, correria e, claro, muita loucura. Se você nunca viu, prepare a pipoca e o sofá, porque a jornada é longa, mas vale cada minuto.

Qual é a história por trás da corrida mais louca do cinema?

Tudo começa em uma estrada desértica na Califórnia. Um motorista imprudente (o lendário Jimmy Durante, em uma participação relâmpago mas inesquecível) sofre um acidente espetacular. Antes de "esticar as canelas" (literalmente, em uma cena clássica), ele revela a um grupo de estranhos que parou para socorrê-lo que enterrou uma fortuna de US$ 350.000 roubados sob um misterioso "W Grande" no Parque Estadual de Santa Rosita.

A partir desse momento, a ganância fala mais alto. O que começa como uma conversa civilizada entre os motoristas logo se transforma em uma competição feroz. Sem regras e sem limites, cada um usa o meio de transporte que consegue — carros, caminhões, aviões biplanos e até bicicletas — para tentar chegar primeiro ao tesouro. É o caos automotivo e aéreo no seu melhor, tudo capturado com a grandiosidade que só o cinema daquela época conseguia entregar.

Quem faz parte desse elenco de lendas da comédia?

O que torna "Deu a Louca no Mundo" realmente único é o seu elenco. O diretor Stanley Kramer, mais conhecido por dramas sérios como "O Julgamento de Nuremberg", decidiu fazer "algo mais leve" e convidou praticamente todos os grandes nomes da comédia de Hollywood da época. É um verdadeiro "Quem é Quem" do humor dourado.

Temos o gigante Spencer Tracy como o Capitão Culpeper, o policial cínico que monitora a corrida e tem seus próprios planos. Ao lado dele, uma constelação de gênios do slapstick e do vaudeville:

  • Milton Berle

  • Sid Caesar

  • Mickey Rooney

  • Buddy Hackett

  • Ethel Merman (como a sogra mais insuportável da história)

  • Jonathan Winters (que quebra um posto de gasolina inteiro sozinho!)

  • Phil Silvers

  • Terry-Thomas (o britânico essencial)

E as participações especiais? Piscou, perdeu. O filme tem cameos de Buster Keaton, Jerry Lewis, Os Três Patetas, Jack Benny e muitos outros. É como se Hollywood inteira tivesse decidido tirar férias no mesmo set de filmagem.

Quais curiosidades fazem deste filme um espetáculo à parte?

A produção de um filme dessa magnitude é cheia de histórias. O título original reflete essa grandiosidade: It's a Mad, Mad, Mad, Mad World. Stanley Kramer não poupou despesas. Ele filmou em Ultra Panavision 70, um formato de tela extra larga que capturava as paisagens do deserto e as perseguições com uma nitidez absurda. O orçamento foi de quase US$ 9,5 milhões, uma fortuna em 1963, mas o retorno foi estrondoso: arrecadou mais de US$ 60 milhões só nos EUA.

Uma das curiosidades mais legais é que a estrada do túnel que aparece aos 1h21m do filme é a mesma usada em "Encurralado" (1971), o primeiro filme de Steven Spielberg. Outro ponto impressionante é que, apesar de ser uma comédia, o filme ganhou um Oscar de Melhor Som e foi indicado em outras cinco categorias, incluindo Fotografia e Montagem, o que prova que a loucura técnica era levada muito a sério. E se você acha as comédias de hoje longas, a versão original envisionada por Kramer tinha pouco mais de três horas, um verdadeiro teste de resistência para a bexiga, mas que, na minha opinião, não cansa um minuto sequer.

Qual é a minha crítica honesta sobre "Deu a Louca no Mundo"?

Eu sei o que você está pensando: "Um filme de comédia de 1963 com três horas de duração? Deve ser datado e cansativo." E, sendo bem sincero com você, em alguns momentos ele é datado. O ritmo do humor mudou muito e algumas piadas podem parecer inocentes demais hoje. Mas é aí que está a beleza da coisa. Este não é um filme para você "rolar de rir" o tempo todo com sacadas rápidas. É um espetáculo de slapstick, de destruição física e de caos organizado.

O olhar aqui é o da apreciação da técnica e da resiliência. É fascinante ver como eles realizavam aquelas perseguições e peripécias aéreas sem CGI, tudo com efeitos práticos e muita coragem dos dublês. É um cinema de engenharia. E, no fim das contas, a mensagem sobre como a ganância transforma pessoas normais em lunáticos é atemporal. É uma comédia ingênua, mas que te deixa com um sorriso de canto de boca o tempo todo. Se você quer ver uma obra-prima da comédia física e uma aula de como reunir talentos, "Deu a Louca no Mundo" é um clássico que merece todo o seu respeito.