Coração Satânico (Angel Heart)

 

Se você curte aquele clima de mistério que parece uma névoa pesada, Coração Satânico (ou Angel Heart, no original) é um daqueles filmes que você precisa ver antes de morrer. Lançado em 1987, ele mistura o cinema noir clássico com um terror psicológico que mexe com a cabeça de qualquer um.

Vou te contar por que esse filme do diretor Alan Parker continua sendo uma referência absoluta, mesmo décadas depois.

O detetive, o cliente e o mistério em Nova York

A história começa em 1955, no Brooklyn. Eu acompanho a jornada de Harry Angel, um detetive particular de quinta categoria vivido por Mickey Rourke. Ele é contratado por um sujeito extremamente sinistro chamado Louis Cyphre — interpretado por ninguém menos que Robert De Niro — para encontrar um cantor que desapareceu após a Segunda Guerra.

O que parece ser um caso comum de pessoa desaparecida logo vira uma descida ao inferno. A atuação do Rourke aqui é visceral; ele não é o herói perfeito, é um cara suado, amassado e visivelmente perturbado pelo que vai encontrando pelo caminho. E o De Niro? Bom, ele entrega uma das presenças mais intimidadoras da carreira dele com o mínimo de esforço.

Da sujeira do Brooklyn ao vudu de Nova Orleans

O filme acerta em cheio na ambientação. A gente começa no frio cinzento de Nova York e termina no calor úmido e sufocante de Nova Orleans. As locações de filmagem foram escolhidas a dedo para passar essa sensação de desconforto constante.

A fotografia usa muito fumo, sombras e ventiladores de teto que parecem nunca parar de girar. No elenco, ainda temos a Lisa Bonet, que na época causou um barulho enorme por sair da imagem "fofa" do The Cosby Show para um papel super intenso e maduro. O clima de rituais vudu e becos sujos é tão real que você quase consegue sentir o cheiro de chuva e sangue através da tela.

Trilha sonora, nota IMDB e o peso técnico

Não dá para falar de Angel Heart sem mencionar a trilha sonora de Trevor Jones. O som do saxofone solitário misturado com batimentos cardíacos e sons industriais cria uma ansiedade que não te deixa relaxar um segundo. No IMDB, o filme sustenta uma nota 7.2, o que é bem sólido para um longa que divide opiniões pelo seu conteúdo pesado.

Embora não tenha sido um fenômeno de premiações no Oscar (o que é uma injustiça técnica), o filme virou cult instantâneo. Alan Parker, que também dirigiu O Expresso da Meia-Noite, sabia exatamente como conduzir uma narrativa visual que não precisa de sustos baratos para te dar medo.

Curiosidades que você precisa saber

Para fechar o papo, separei alguns detalhes de bastidores que deixam a experiência de assistir ainda mais interessante:

  • Censura: O filme quase recebeu uma classificação X (pornô) nos EUA por causa de uma cena de sexo envolvendo sangue. Tiveram que cortar alguns segundos para sair como R.

  • Ovos cozidos: Tem uma cena clássica do Robert De Niro descascando um ovo que é pura tensão. Dizem que aquilo simbolizava a alma humana.

  • Mickey vs. De Niro: O clima no set era tenso. Rourke disse anos depois que De Niro não falava com ele fora das cenas para manter a distância real entre os personagens.

  • Base literária: O roteiro é baseado no livro Falling Angel, de William Hjortsberg.

Coração Satânico é um quebra-cabeça sombrio. Ele não te entrega as respostas de bandeja e te obriga a prestar atenção nos detalhes. Se você gosta de finais que te deixam olhando para a parede por cinco minutos depois que os créditos sobem, esse é o seu filme.


A Nova Espécie (Splice)

 

Sempre que penso em ficção científica que mexe com a ética, A Nova Espécie (título original: Splice) é um dos primeiros nomes que me vem à cabeça. Lançado nos cinemas em 4 de junho de 2010, o filme não é apenas mais um suspense de monstros. Ele toca em feridas sobre o que significa brincar de Deus e as consequências de levar a ciência além do que a nossa maturidade permite.

Eu acompanhei o trabalho do diretor Vincenzo Natali desde Cubo, e aqui ele mostra que sabe criar uma atmosfera claustrofóbica como poucos. Vou te contar um pouco sobre o que faz esse filme ser tão relevante até hoje, sem entregar nenhuma surpresa importante da trama.

A direção e o peso do elenco de peso

Vincenzo Natali levou quase dez anos para tirar esse projeto do papel, e essa dedicação transparece na tela. Ele conseguiu escalar dois nomes fortes para os papéis centrais: Adrien Brody, que já tinha um Oscar no currículo, e Sarah Polley. Eles interpretam Clive e Elsa, um casal de cientistas brilhantes que decidem ignorar todas as barreiras legais e éticas para criar um híbrido de DNA humano com o de várias outras espécies.

O resultado dessa experiência é Dren, interpretada por Delphine Chanéac. O trabalho de atuação dela, misturado com efeitos práticos e digitais, é impressionante. Atualmente, o filme sustenta uma nota 5.8 no IMDb. Pode parecer uma nota mediana, mas para o gênero de ficção científica com terror, reflete bem como a obra divide opiniões por ser bastante corajosa e, em certos pontos, bem perturbadora.

O que torna a trama de A Nova Espécie diferente

O que eu acho interessante nesse roteiro é que ele foge do clichê do laboratório que explode e o monstro sai matando todo mundo pela cidade. A história é muito mais íntima e psicológica. O foco está na relação disfuncional que os criadores desenvolvem com a criatura.

Eles começam como cientistas, passam a agir como pais e acabam em um terreno cinzento que é difícil de definir. A narrativa flui de um jeito que te faz questionar quem é o verdadeiro "monstro" da história. Não espere sustos gratuitos, espere um desconforto constante que vai crescendo conforme a Dren evolui e mostra novas habilidades.

Aspectos técnicos e as locações canadenses

Se você gosta de prestar atenção nos detalhes técnicos, a trilha sonora de Cyrille Aufort ajuda muito a manter esse clima de tensão contida. Ela não é invasiva, mas está lá pontuando cada descoberta genética do casal.

Sobre as filmagens, a produção se concentrou basicamente no Canadá, especificamente em Toronto e na cidade de Milton, em Ontário. Aqueles cenários industriais e laboratórios frios que vemos no início do filme ajudam a vender a ideia de uma ciência desalmada, contrastando com os ambientes mais orgânicos que aparecem depois.

Embora não tenha sido um fenômeno de bilheteria, o filme foi reconhecido em nichos específicos. Ele ganhou, por exemplo, o prêmio de Melhores Efeitos Especiais no renomado Festival de Sitges, o que faz total sentido quando você vê a fluidez dos movimentos da Dren.

Curiosidades e os bastidores de Splice

Existem alguns fatos sobre os bastidores que ajudam a entender a obra. Por exemplo, o nome "Dren" é "Nerd" escrito ao contrário, uma brincadeira interna dos personagens que acabou ficando. Além disso, a produção executiva contou com o nome de Guillermo del Toro, o que já explica muito sobre o design de criatura tão detalhado e bizarro.

Outro ponto que pouca gente sabe é que o roteiro original era ainda mais sombrio, mas precisou de alguns ajustes para que o estúdio aceitasse financiar a produção. Mesmo assim, o corte final que chegou até nós não economiza em momentos que fazem o espectador desviar o olhar da tela por puro desconforto moral.

Se você curte filmes que provocam o intelecto e não tem medo de ver o lado mais feio da ambição humana, esse filme merece uma chance na sua lista.


Fúria (Rabid)

 

Eu sempre tive um pé atrás com remakes, especialmente quando mexem em clássicos do David Cronenberg. Mas decidi dar uma chance para Fúria, que lá fora saiu com o título original de Rabid. É um filme que tenta seguir um caminho próprio dentro do subgênero body horror, aquele terror focado em transformações corporais que dão um certo nó no estômago. Se você curte uma narrativa mais visceral e direta, vale a pena entender o que as diretoras buscaram aqui.

O que esperar da história e do título original

O filme, lançado oficialmente em 2019, é uma releitura da obra de 1977. No Brasil, ele recebeu o nome de Fúria, mas o título original, Rabid, faz muito mais sentido quando você entende a dinâmica da trama. A história gira em torno de Rose, uma aspirante a estilista que sofre um acidente terrível e acaba aceitando um tratamento experimental de células-tronco.

A direção ficou nas mãos das Soska Sisters, as gêmeas Jen e Sylvia Soska. Elas são bem conhecidas no cenário de terror independente por um estilo cru e sem muitos rodeios. No elenco, temos Laura Vandervoort entregando uma atuação sólida como Rose, acompanhada por Ben Hollingsworth e Ted Atherton. É um time que consegue manter a tensão sem precisar de exageros dramáticos.

Números, notas e a trilha sonora

Se formos olhar para a recepção fria dos dados, o filme tem uma nota de 5.2 no IMDb. Pode parecer baixo para quem só assiste blockbusters, mas para o gênero de terror alternativo, é uma pontuação comum. O filme não tenta agradar todo mundo, ele foca em um nicho que gosta de ver a carne sendo rasgada, por assim dizer.

trilha sonora foi composta por Claude Foisy. O trabalho dele aqui é interessante porque não tenta roubar a cena com sustos barulhentos. A música serve mais para criar uma atmosfera de desconforto constante, o que combina bem com a estética urbana e fria do filme. Em termos de premiações, o longa circulou bastante por festivais especializados, como o FrightFest de Londres e o BloodGuts UK Horror Awards, onde as diretoras foram reconhecidas pelo esforço em atualizar um clássico.

Locações e a estética visual de Fúria

Uma coisa que me chamou a atenção foram as locações de filmagem. O filme foi rodado em Toronto, no Canadá. Essa escolha ajuda muito na ambientação, já que a cidade tem esse ar cinzento e moderno que casa perfeitamente com a ideia de uma clínica de estética de alta tecnologia e o submundo da moda.

O cenário urbano de Toronto passa aquela sensação de isolamento, mesmo em meio a muita gente. Isso é essencial para o clima de Fúria, onde a protagonista se sente cada vez mais distante da humanidade conforme o tratamento começa a apresentar efeitos colaterais, digamos, peculiares. Não há cenários coloridos ou alegres aqui; é tudo muito estéril ou muito sujo.

Curiosidades que cercam a produção

Existem alguns pontos de bastidores que deixam a experiência de assistir ao filme mais rica. Separei os que achei mais relevantes:

  • Homenagem ao mestre: As irmãs Soska deixaram claro que o filme é uma carta de amor ao Cronenberg, mas com uma perspectiva feminina sobre a vaidade.

  • Participações especiais: Para quem gosta de luta livre, o filme conta com participações de CM Punk e AJ Mendez.

  • Efeitos práticos: Diferente de muitos filmes atuais que abusam do CGI, aqui houve um esforço grande para usar maquiagem e próteses reais, o que dá uma textura muito melhor para o terror.

  • Conexão com a moda: A escolha da protagonista ser uma estilista serve como uma crítica direta aos padrões de beleza atuais, algo que não era o foco principal no original da década de 70.

No fim das contas, Fúria (Rabid) é um filme que cumpre o que promete. É direto, tem uma pegada estética forte e não tenta ser mais profundo do que precisa. Se você gosta de ver como a ficção científica pode se transformar em um pesadelo biológico, é uma boa pedida para o fim de semana.