Se você curte uma boa história policial com carros roncando alto e aquela atmosfera crua dos anos sessenta, senta aí. Vamos trocar uma ideia sobre um verdadeiro divisor de águas no cinema de ação. Estou falando de Bullitt, um filme que redefiniu o que esperamos de uma perseguição policial e consolidou um estilo que muita produção atual tenta copiar até hoje, mas raramente consegue alcançar.
Por que Bullitt mudou o cinema de
ação para sempre?
Quando pensamos em filmes de detetive clássicos, muitas vezes nos
deparamos com clichês cansativos. O título original, simplesmente Bullitt, chegou quebrando tudo com uma pegada
diferente. Lançado no ano de 1968, o longa trouxe
um realismo estonteante para as telas, deixando de lado os cenários falsos de
estúdio e apostando no asfalto quente.
Com uma respeitável nota de 7,4 no IMDb,
ele não é apenas um filme antigo de transição; é uma aula de ritmo, silêncio e
montagem que garantiu o Oscar de Melhor Edição na época. Se você quer entender
como o gênero policial ganhou as ruas de forma madura, este é o ponto de
partida.
Quem está por trás da câmera e no
volante?
A direção ficou nas mãos do britânico Peter Yates, que
soube usar a câmera como se fosse um passageiro no banco de trás. No papel
principal, temos o cara que era a própria definição de estilo na época: Steve McQueen, interpretando o obstinado tenente da
polícia Frank Bullitt.
O elenco de apoio é pesado e entrega atuações diretas, sem enrolação:
·
Steve McQueen (Frank Bullitt)
·
Jacqueline Bisset (Cathy)
·
Robert Vaughn (Walter Chalmers)
·
Don Gordon (Delgetti)
·
Robert Duvall (Weissberg)
Toda a trama gira em torno de Bullitt tentando proteger uma
testemunha-chave da máfia a pedido de um político ambicioso. Quando as coisas
dão errado, a investigação se transforma em uma caçada humana implacável pelas
ladeiras da cidade.
Como San Francisco se tornou a
verdadeira estrela do filme?
A escolha da locação foi cirúrgica. Em vez de rodar em estúdios fechados
em Los Angeles, a produção se mudou de mala e cuia para San Francisco, na Califórnia. As ladeiras íngremes da
cidade, os bondinhos e a névoa característica deram um tom cinzento e urbano
perfeito para a narrativa.
Cada curva que os carros fazem nas ladeiras de Filbert Street e Larkin Street joga o
espectador para dentro da tela. A cidade não serve apenas de fundo; ela dita o
ritmo da ação e os desafios físicos de cada manobra.
Quais são as maiores curiosidades dos
bastidores?
Uma das coisas mais fascinantes em produções dessa época são os
bastidores reais. Steve McQueen era um apaixonado por velocidade e fez questão
de pilotar o icônico Ford Mustang GT Fastback
verde-musgo na maior parte das cenas de ação, dividindo o volante com o dublê
Bill Hickman, que dirigia o icônico Dodge Charger preto dos vilões.
A famosa cena de perseguição, que dura quase dez minutos, não teve
diálogos e levou semanas para ser filmada. Os carros passavam facilmente dos
160 km/h no meio das ruas reais, algo impensável de se autorizar hoje em dia
por questões de segurança. Além disso, o visual e os trejeitos do personagem de
McQueen foram totalmente inspirados em um inspetor real de San Francisco
chamado Dave Toschi — o mesmo que, anos mais tarde, investigaria o famoso caso
do Assassino do Zodíaco.
Vale a pena assistir a esse clássico
hoje?
Minha crítica sincera sobre a obra é que ela envelheceu como um bom
vinho, mas exige o estado de espírito certo. Se você der o play esperando o
ritmo frenético e cortes a cada dois segundos dos filmes atuais, pode estranhar
o começo. O roteiro é cadenciado, valoriza os procedimentos da polícia, os
olhares e o silêncio.
Porém, quando o motor racha o silêncio da cidade, meu amigo, o filme
entrega uma das experiências mais viscerais do cinema. A ausência de música
durante a perseguição — ouvimos apenas o barulho dos motores, a troca de
marchas e os pneus fritando no asfalto — cria uma tensão absurda que nenhum
efeito digital moderno consegue replicar. É cinema feito na raça, com metal
batendo em metal, ideal para quem respeita uma narrativa sólida e bem
construída.
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