Sabe
aquele tipo de filme que te pega pelo colarinho logo nos primeiros minutos e te
obriga a fritar os neurônios junto com os personagens? Pois é. Sempre fui
aficionado por thrillers psicológicos que tratam o espectador com inteligência,
e Enigmas de Um Crime
entrega exatamente essa pegada. Se você curte uma boa história de mistério
clássica, daquelas com detetives improvisados, reviravoltas e um cenário
imponente, senta aí que hoje vamos dissecar essa obra.
O filme nos joga de cabeça no universo denso e competitivo
da alta academia. A trama acompanha Martin, um jovem estudante americano de
matemática que viaja até a prestigiada Universidade de Oxford para tentar
conseguir que o renomado e arrogante professor Arthur Seldom seja o orientador
de sua tese. O problema é que, logo na chegada, a senhoria de Martin é
brutalmente assassinada. É o início de um jogo de xadrez macabro: o assassino
começa a deixar uma sequência de símbolos matemáticos e lógicos a cada nova
morte, desafiando a mente brilhante do professor e a audácia do estudante.
Qual é o contexto e o ano de lançamento de Enigmas de Um Crime?
Lançado originalmente em 2008, o longa chegou
aos cinemas em uma época em que o público estava sedento por mistérios
cerebrais, surfando ainda um pouco na onda de suspense conspiratório que tomou
conta dos anos 2000. Sob o título original de The Oxford Murders,
o filme é uma coprodução que envolveu Espanha, Reino Unido e França.
O pano de fundo não poderia ser mais cirúrgico: a
histórica e cinzenta cidade de Oxford, na Inglaterra. A escolha das locações
reais na própria universidade e nas ruas de paralelepípedo britânicas traz uma
atmosfera de isolamento e tradição que funciona quase como um personagem extra.
É o contraste perfeito entre a busca pela verdade exata da matemática e a
violência caótica de um assassinato.
Quem comanda o elenco e a direção desse mistério?
A cadeira de diretor é ocupada pelo espanhol Álex de la Iglesia.
Se você conhece o trabalho dele, sabe que o cara costuma ter uma pegada mais
puxada para o humor negro e o bizarro. Aqui, no entanto, ele segura as rédeas e
entrega uma direção muito mais sóbria e elegante, focando no suspense
psicológico tradicional, mas sem perder aquela energia visual dinâmica que o
consagrou. O roteiro foi baseado no elogiado livro Crímenes Imperceptíveis,
do escritor e matemático argentino Guillermo Martínez.
No front do elenco, temos um embate de gerações que
sustenta o filme com firmeza:
·
Elijah
Wood interpreta Martin, o estudante
obstinado. Ele entrega aquela energia de um jovem determinado, mas que se vê
tragado por uma obsessão perigosa.
·
O saudoso John Hurt dá vida ao
professor Arthur Seldom. Hurt, com sua voz imponente e presença madura, rouba a
cena como o mestre veterano que mentoriza o jogo.
·
Leonor
Watling vive Lorna, uma enfermeira
espanhola que se envolve com Martin e traz uma dose necessária de calor humano
e complicação emocional para a frieza dos números.
·
O elenco de apoio
ainda conta com nomes de peso do cinema britânico, como Jim Carter (o eterno
mordomo de Downton Abbey) na pele do Inspetor
Petersen, e Burn Gorman como um matemático
rival bastante excêntrico.
No agregador IMDb, o filme
ostenta uma nota 6.0. É uma
pontuação que mostra bem a divisão das opiniões: enquanto os puristas de
plantão e matemáticos debatem as teorias apresentadas, quem busca um passatempo
tenso e bem amarrado sai satisfeito.
Quais são as maiores curiosidades dos bastidores?
Como todo bom suspense de bastidores intelectuais, a
produção de The Oxford Murders
carrega algumas histórias bem interessantes que vale a pena conhecer:
·
Mudança
no Tabuleiro: O papel do arrogante e
genial professor Arthur Seldom foi originalmente pensado para ninguém menos que
Michael Caine. No fim, a vaga ficou com John Hurt, que trouxe uma carga
dramática espetacular ao personagem.
·
Lógica
na Tela: O filme faz referências diretas
a conceitos reais e pesados da história da ciência e da filosofia, como o
Teorema de Fermat, o Princípio da Incerteza de Heisenberg e a lógica de Ludwig
Wittgenstein. Inclusive, a cena de abertura faz uma menção direta a Wittgenstein
durante a Primeira Guerra Mundial.
·
Plano-Sequência
Monstro: Logo no início do filme, Álex
de la Iglesia exibe sua assinatura técnica com um plano-sequência
impressionante de vários minutos que conecta diferentes personagens e situações
pelas ruas de Oxford até culminar em uma palestra. É um trabalho de câmera
cirúrgico.
Vale a pena assistir? Confira a nossa crítica da obra
Indo direto ao ponto: Enigmas de Um Crime
vale o seu tempo. O grande trunfo do longa é a forma como ele conduz o
mistério. Ele não te subestima. O duelo intelectual entre o pragmatismo jovem
de Elijah Wood e o cinismo experiente de John Hurt dita o ritmo da narrativa,
entregando diálogos afiados sobre a busca humana pela verdade absoluta e se a
realidade pode ou não ser explicada por fórmulas.
A fotografia abusa dos tons frios e da arquitetura gótica
de Oxford para construir aquela clássica sensação de "clube fechado"
onde segredos perigosos são guardados a sete chaves. A edição é ágil, fazendo
as explicações teóricas parecerem dinâmicas em vez de uma aula chata de
faculdade.
Se há um ponto fraco, é que a resolução do mistério e as
reviravoltas finais exigem que você compre a lógica do roteiro sem questionar
demais algumas conveniências. Algumas subtramas românticas perdem um pouco o
fôlego diante da urgência dos assassinatos. Mas, olhando o saldo geral, é um
prato cheio para quem gosta de bancar o detetive no sofá. O desfecho cumpre o
papel de amarrar o quebra-cabeça e deixa aquela pulga atrás da orelha sobre o
que realmente constitui o "crime perfeito". Um suspense honesto, bem
produzido e com uma atmosfera de respeito.
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