Se
você curte uma boa ficção científica que bota a cabeça para funcionar, com certeza
já esbarrou no conceito de um futuro onde os livros são proibidos. Mas você
conhece a primeira grande adaptação que levou essa ideia para os cinemas?
Estou falando de um clássico absoluto que resistiu ao
teste do tempo. Hoje, vou te contar tudo sobre uma obra que marcou os anos
sessenta e continua assustadoramente atual. Prepara o café e vem comigo nessa
análise.
Qual
é o contexto inicial e a história por trás desse clássico?
Para entender o peso dessa obra, precisamos voltar um
pouco no tempo. Imagina uma sociedade focada no consumo rápido, nas telas
gigantes e no entretenimento raso, onde pensar por si mesmo virou um ato de
rebeldia. Parece os dias de hoje, né? Mas essa é a premissa de um dos livros
mais importantes do século vinte, escrito por Ray Bradbury.
O sucesso da história foi tão avassalador que não demorou
muito para o cinema de vanguarda crescer os olhos nela. Foi assim que nasceu o
projeto para as telas, mantendo o título original do livro: Fahrenheit 451.
A trama acompanha Montag, um bombeiro que tem um trabalho
bem diferente do que conhecemos hoje. Em vez de apagar incêndios, a missão do
seu esquadrão é queimar livros, já que a leitura é considerada a fonte de toda
a infelicidade e desigualdade humana. O cara segue as ordens sem questionar, até
que uma conversa com uma vizinha excêntrica muda tudo e faz ele começar a
esconder e ler os mesmos volumes que deveria destruir. É um confronto direto
entre a segurança da ignorância e o peso da liberdade.
Quem está na ficha técnica e qual o ano de lançamento?
O filme foi lançado oficialmente no ano de lançamento de 1966,
uma época em que o mundo vivia as tensões da Guerra Fria e o cinema passava por
uma revolução estética absurda.
Na direção, temos ninguém menos que o genial diretor François Truffaut,
um dos pais da Nouvelle Vague
francesa. Esse detalhe é crucial: foi o primeiro e único filme que Truffaut
dirigiu totalmente em inglês, o que trouxe uma pegada artística europeia muito
rica para um cenário distópico que costumava ser dominado pelo padrão de
Hollywood.
O elenco é liderado pelo ator
austríaco Oskar Werner, que
entrega um Montag frio no início, mas que vai quebrando aos poucos conforme a
curiosidade o consome. Ao lado dele, brilhando em um papel duplo genial, está a
atriz Julie Christie. Ela
interpreta tanto Linda, a esposa alienada e viciada em pílulas de Montag,
quanto Clarisse, a jovem professora que acende a faísca da dúvida na mente do
protagonista. Ver a mesma atriz vivendo os dois extremos dessa sociedade é um
baita soco no estômago.
Atualmente, o longa mantém uma respeitável nota IMDb de 7,2,
refletindo o reconhecimento do público cinéfilo ao longo das décadas.
Onde foram feitas as gravações e quais as melhores
curiosidades?
Se você reparar bem na estética visual do filme, vai
notar um contraste interessante entre o moderno e o cinzento. Isso se deve à locação escolhida
para as filmagens. Grande parte das cenas externas foi rodada no Reino Unido,
incluindo complexos habitacionais modernos em Alton Estate (Londres) e os
palcos dos estúdios Pinewood. Algumas cenas adicionais também foram gravadas na
França, dando aquele ar suburbano meio futurista, mas estranhamente familiar.
E por falar nos bastidores, existem algumas curiosidades de
produção que tornam o filme ainda mais fascinante:
·
Tensão
no set: Truffaut e o protagonista Oskar
Werner não se deram bem durante as filmagens. Werner queria interpretar Montag
de um jeito mais heroico, enquanto o diretor insistia em um homem comum e
confuso. A briga foi tão feia que o ator chegou a cortar o cabelo no meio das
gravações só para sacanear a continuidade das cenas.
·
Créditos
falados: Preste atenção logo nos
primeiros segundos. O filme não tem créditos iniciais em texto. Como em um
mundo sem leitura os nomes escritos seriam um contrassenso, Truffaut mandou uma
voz em off ditar o nome do diretor, elenco e equipe técnica enquanto a câmera
passeia por antenas de TV.
·
O
significado do título: O nome faz
referência à temperatura em que o papel dos livros pega fogo e queima
(equivalente a cerca de 233 graus Celsius).
Vale a pena assistir? Confira a nossa crítica da obra
Se você está atrás de efeitos especiais de última geração
ou explosões a cada cinco minutos, esse filme pode não ser o seu foco. Mas se
você busca uma narrativa densa, visualmente hipnotizante e com uma mensagem que
envelheceu como vinho, a resposta é um baita sim.
A minha crítica da obra foca no ritmo
cirúrgico que o diretor imprime. Truffaut não entrega um filme de ação; ele
entrega um suspense psicológico. As cenas em que os livros são queimados são
filmadas quase como um ritual sagrado e sombrio, com a trilha sonora fantástica
de Bernard Herrmann (o mesmo cara que fez a música de Psicose) ditando a
pulsação do nosso coração.
O filme acerta em cheio ao mostrar que o verdadeiro
perigo não são apenas os bombeiros com seus lança-chamas, mas sim a apatia das
próprias pessoas. A sociedade de Fahrenheit 451
escolheu abrir mão da literatura porque ler dava trabalho e gerava debates
desconfortáveis. Preferiram o conforto das telas e das respostas prontas. É uma
porrada direta na nossa geração atual, que muitas vezes troca a profundidade de
um bom livro pela rolagem infinita de vídeos curtos no celular.
É um filme de macho no sentido mais clássico da palavra:
exige atenção, estômago para encarar verdades incômodas e o respeito por uma
boa história bem contada. Um clássico obrigatório para qualquer um que valorize
a própria liberdade de pensar.
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