Se
você curte cinema clássico ou simplesmente respeita as origens do que assiste
hoje, sabe que existem diretores que não apenas faziam filmes, mas moldavam a
própria história da arte. Charles Chaplin é o maior exemplo disso. Hoje, quero
trocar uma ideia com você sobre uma das obras mais geniais, e às vezes
injustamente esquecidas, dele: O Circo.
Vamos direto ao ponto. Sabe aquela sensação de rir do
desespero de alguém, mas no fundo sentir uma pontada de respeito pela resiliência
do cara? É exatamente isso que esse filme entrega. Prepare o café e vem comigo
desbendar os bastidores e o impacto dessa obra-prima de 1928.
Qual é o contexto histórico e a história por trás de O Circo?
Para entender o peso de O Circo (título
original: The Circus), a gente
precisa voltar para o final da década de 1920. O filme foi lançado em 1928, bem na
transição do cinema mudo para o cinema falado. Enquanto a indústria corria para
enfiar microfones em tudo quanto é canto, Chaplin bateu o pé e provou que a
pantomima — a arte de contar histórias só com o corpo e a expressão facial —
ainda era imbatível.
A trama é aquela velha fórmula que a gente adora: o
Vagabundo (The Tramp), sem um
tostão no bolso, é confundido com um batedor de carteiras e, na fuga
desesperada da polícia, invade o picadeiro de um circo falido. O público acha
que as trapalhadas dele fazem parte do show e morre de rir. O dono do circo, um
cara bem carrasco, percebe que achou uma mina de ouro e contrata o Vagabundo,
mas sem que ele saiba que é a verdadeira estrela do espetáculo. No meio disso,
ele ainda arruma tempo para se apaixonar pela bela acrobata, filha do dono.
No IMDb, o filme ostenta uma nota
pesada de 8.1, o que mostra
como ele envelheceu como um bom vinho e continua relevante quase um século
depois.
Quem faz parte do elenco e onde o filme foi gravado?
Chaplin era o cara do "eu sozinho": ele
escreveu, dirigiu, produziu, editou e compôs a trilha sonora. Mas um bom
capitão precisa de um elenco que aguente o tranco. Ao lado dele, temos Al
Ernest Garcia vivendo o dono do circo tirano, e Merna Kennedy interpretando a
acrobata que mexe com o coração do nosso protagonista. O comediante Harry
Crocker também brilha como o equilibrista rival.
Sobre as locações, a maior parte das filmagens aconteceu
nos próprios estúdios da Chaplin Studios, em Hollywood, Los
Angeles. Para dar o realismo que ele queria, uma lona de circo gigantesca foi
montada nos cenários de fundo. O cara era tão perfeccionista que transformou o
set em um circo de verdade, exigindo o máximo de precisão física de todo o
elenco. Nada de efeitos digitais ou dublês fáceis aqui; a parada era no pelo,
na raça.
Quais são as maiores curiosidades e perrengues dessa
produção?
Se você acha que a sua semana foi difícil, é porque não
conhece os bastidores de O Circo. Esse foi, sem dúvidas, o
filme mais zicado da carreira de Chaplin. O nível de estresse foi tão alto que
ele sequer mencionou o filme em sua autobiografia oficial de 1964. Dá uma
olhada no tamanho do prejuízo:
·
O
incêndio devastador: Um incêndio
destruiu grande parte dos cenários e da lona do circo após nove meses de
filmagens, forçando a produção a recomeçar do zero.
·
Problemas
com o fisco e divórcio: No meio das
gravações, Chaplin enfrentou um divórcio caótico com Lita Grey. Os advogados
dela tentaram confiscar os rolos do filme, forçando Chaplin a contrabandear o
material para outro estado para não perder o trabalho. Para completar, a
receita federal americana resolveu cobrar uma fortuna em impostos atrasados na
mesma época.
·
Ataque
de nervos e cabelo branco: O estresse
foi tanto que o cabelo de Chaplin ficou grisalho em questão de semanas,
obrigando-o a usar ainda mais tintura para manter a continuidade do personagem.
·
O
roubo da lona: Como se não bastasse, uma
noite, um grupo de estudantes roubou a lona do circo para fazer graça.
Mesmo com o mundo desabando, o cara entregou uma
performance impecável. Isso separa os amadores dos profissionais.
Qual é a crítica real sobre o valor dessa obra-prima?
Olhando de fora, O Circo pode parecer
uma comédia física mais leve se comparada a Em Busca do Ouro
(1925) ou Luzes da Cidade
(1931). Mas não se engane: a genialidade aqui está na simplicidade e na
metalinguagem.
O filme funciona como um desabafo do próprio Chaplin
sobre a indústria do entretenimento. O Vagabundo só é engraçado quando não
tenta ser; quando o dono do circo pede para ele "ser engraçado de
propósito", ele falha miseravelmente. É uma crítica velada à pressão que o
artista sofre para performar e gerar lucro para os tubarões do mercado.
A cena do labirinto de espelhos e a sequência em que ele
fica preso na jaula de um leão real (sim, o leão era de verdade e Chaplin
repetiu a cena centenas de vezes) são aulas magnas de timing cômico e tensão. É
um filme honesto, direto, que não apela para o melodrama barato, mas foca no
suor, no esforço físico e na dignidade do homem comum tentando sobreviver ao
caos.
Se você curte entender a evolução do cinema e quer dar risada
com uma história que tem substância e testosterona na medida certa — pela
resiliência de um homem contra as adversidades —, O Circo é
obrigatório na sua lista.
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