Se
você curte cinema nacional de verdade, daquele que bate no peito e te faz
pensar dias depois que os créditos sobem, senta aí. Hoje a conversa é sobre uma
obra-prima absoluta que todo homem deveria assistir pelo menos uma vez na vida:
O Pagador de Promessas.
Eu me peguei revendo esse clássico outro dia e decidi
colocar no papel por que esse filme não é apenas uma grande história, mas sim
um soco no estômago que continua atual, mesmo décadas após o seu lançamento.
Vamos entender o peso que essa produção carrega.
Qual é a história por trás de O Pagador de Promessas?
Para entender o impacto do filme, a gente precisa voltar
um pouco no tempo. Tudo começa com a peça de teatro homônima de Dias Gomes. A
transição do palco para as telas manteve a essência crua da história de Zé do
Burro, um homem simples do interior do Nordeste.
A trama é direta, sem frescura: o burro de estimação de
Zé, seu melhor amigo e parceiro de trabalho, fica gravemente doente.
Desesperado, ele faz uma promessa em um terreiro de candomblé: se o animal se
curar, ele dividirá suas terras com os mais pobres e carregará uma cruz de
madeira gigante nas costas até a Igreja de Santa Bárbara, em Salvador. O burro
melhora, e o homem cumpre a sua palavra. É aí que o bicho pega. O contexto
inicial nos joga direto no choque cultural e religioso quando Zé chega à
capital baiana, carregando aquele fardo monumental e batendo de frente com a
rigidez da Igreja Católica.
Quem está por trás desse clássico do cinema de 1962?
Lançado oficialmente em 1962, o filme
carrega o título original exato da obra de Dias Gomes: O Pagador de Promessas.
Quem assumiu a bronca de dirigir essa história foi Anselmo Duarte, um
cara que soube conduzir a narrativa com uma tensão crescente fantástica.
No elenco, temos atuações brutas, viscerais. Leonardo Villar dá
vida a Zé do Burro com um olhar de inocência e determinação que te prende desde
a primeira cena. Ao lado dele, a espetacular Glória Menezes interpreta
Rosa, sua esposa, uma mulher dividida entre a lealdade ao marido e as tentações
e perigos da dedicação cega dele. O elenco ainda conta com Dionísio Azevedo
como o intolerante Padre Olavo, e Geraldo Del Rey como o malandro Bonitão.
Até hoje, a crítica internacional respeita demais essa
produção. No IMDb, o filme
ostenta uma nota 8,1, uma média
altíssima que bota muito blockbuster no chinelo.
Onde foi gravado O Pagador de Promessas?
A ambientação desse filme é um personagem à parte. Toda a
locação principal foi na histórica cidade de Salvador, na Bahia.
A jornada de Zé do Burro termina justamente nas escadarias da Igreja do Santíssimo Sacramento
do Passo, localizada no Pelourinho.
A escolha do local foi cirúrgica. Aquelas escadas imensas
e íngremes servem perfeitamente como metáfora visual para o calvário que o
protagonista enfrenta. Filmar ali trouxe uma verdade estética absurda para a
tela: o calor baiano, a arquitetura barroca e o contraste entre a Salvador
urbana e a simplicidade quase bíblica do sertanejo.
Quais são as maiores curiosidades dos bastidores?
Uma obra desse tamanho é cercada de causos que todo fã de
cinema gosta de saber. Separei as melhores curiosidades sobre a produção:
·
O
ápice do cinema nacional: Até hoje, este
é o único filme brasileiro a vencer
a Palma de Ouro no prestigiado Festival de Cannes, o prêmio máximo
do cinema mundial.
·
Indicação
ao Oscar: Além de levar Cannes, ele foi
o primeiro filme da América do Sul a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme
Estrangeiro (hoje Melhor Filme Internacional), em 1963.
·
Bastidores
tensos: Anselmo Duarte era um diretor
exigente e o clima nas filmagens em Salvador era pesado, com calor extremo e o
peso real da cruz de madeira que Leonardo Villar insistiu em carregar em várias
cenas para dar mais realismo.
Por que O Pagador de Promessas é uma crítica social tão
forte?
Olhando para a obra com o distanciamento do tempo, a
minha crítica a O Pagador de Promessas
é que ele não é um filme sobre religião, mas sim sobre a hipocrisia humana e a
manipulação do homem comum pelas instituições de poder.
Zé do Burro é a personificação da honra pura, quase
ingênua. Ele deu a sua palavra e vai cumprir, custe o que custar. Mas o mundo
ao redor dele é corrupto. O padre vê nele um herético; a imprensa local enxerga
um agitador político comunista; o malandro quer tirar proveito da situação.
Ninguém quer entender o milagre ou a fé do cara; todos querem usar a
determinação dele para benefício próprio. É uma narrativa fluída, que avança
sem enrolação e te deixa incomodado com a injustiça que vai se desenhando na
tela.
O final é avassalador. Mostra que, às vezes, a sociedade
só aceita a pureza de um homem depois que o destrói por completo. Se você quer
entender as raízes do cinema brasileiro e ver uma história de obstinação levada
às últimas consequências, precisa assistir a esse filme. É cinema de macho, no
sentido mais profundo da palavra: sobre caráter, sacrifício e sobrevivência.
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