Amacord

 

Sabe aquele tipo de filme que te pega pelo colarinho, não pela violência, mas pela pura força da nostalgia? É exatamente isso que senti quando assisti a Amarcord pela primeira vez. Se você curte o bom cinema, aquele que mistura a crueza da realidade com a leveza da memória, precisa entender por que essa obra-prima italiana continua dando o que falar mesmo décadas após sua estreia. Vou te guiar pelos bastidores, segredos e pelo impacto real desse clássico.

Qual é o contexto inicial e a história por trás de Amarcord?

Para entender o filme, você precisa entender o significado do título original: Amarcord. Essa palavra não existia no dicionário italiano tradicional; ela vem da expressão fonética "A m'arcord", que no dialeto da região de Rimini significa simplesmente "Eu me lembro".

O longa nos transporta diretamente para a Itália da década de 1930, um período complexo e tenso, marcado pelo auge do regime fascista. Mas a política aqui serve apenas como plano de fundo para a vida real de uma cidadezinha costeira. A narrativa acompanha o amadurecimento de Titta, um jovem cheio de hormônios e dilemas, cercado por uma coleção de personagens excêntricos: desde o pai explosivo até a desejada Gradisca, a mulher que mexe com a cabeça de todos os homens da região. É um retrato visceral, sem filtros, mas com uma poesia visual que pouca gente consegue replicar.

Quem está no comando e quem dá vida aos personagens?

O cérebro por trás de tudo é ninguém menos que Federico Fellini, um dos maiores diretores da história do cinema mundial. Lançado originalmente no ano de 1973, o filme traz a assinatura clássica do diretor: o tom semi-autobiográfico e aquela atmosfera meio circense, meio melancólica. Embora Fellini sempre tenha negado que a história fosse puramente a sua própria biografia, ele admitia que as semelhanças com a sua infância em Rimini eram inegáveis.

No elenco, Fellini optou por não usar grandes astros de Hollywood, preferindo rostos que trouxessem autenticidade para a tela. Temos o jovem Bruno Zanin entregando uma atuação fantástica como Titta, acompanhado por Magali Noël (a inesquecível Gradisca), Pupella Maggio e Armando Brancia. No site do IMDb, a nota atual é 7.9/10, o que mostra o respeito que o público e a crítica mantêm pela produção até hoje.

Onde o filme foi rodado e quais são suas maiores curiosidades?

Quando falamos de locação, a história fica ainda mais interessante. A trama se passa na ensolarada e fria cidade de Rimini, no norte da Itália, terra natal do diretor. No entanto, o perfeccionismo de Fellini falou mais alto: quase todo o filme foi rodado nos lendários estúdios da Cinecittà, em Roma. Ele mandou reconstruir bairros inteiros e até o mar em estúdio, usando imensos panos de plástico para simular as ondas quando os moradores saem de barco para saudar o transatlântico Rex.

Entre as grandes curiosidades da obra, vale destacar:

·         Pioneirismo tecnológico: Amarcord foi o primeiro filme da história a ser lançado no formato doméstico "letterbox" (com aquelas barras pretas em cima e embaixo), em 1984, garantindo que o enquadramento original do cinema fosse mantido nas televisões da época.

·         O Oscar na conta: O filme levou para casa o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1975, consolidando o nome de Fellini de vez na cultura pop mundial.

·         A cena do hospício: A sequência em que a família tira o tio Teo do sanatório para um passeio no campo — e ele sobe em uma árvore gritando desesperadamente que quer uma mulher — é uma das construções mais tragicômicas e brilhantes do cinema.

Por que Amarcord continua sendo uma obra indispensável?

Fazer uma crítica de Amarcord hoje é reconhecer o poder do cinema de transformar o comum em épico. O filme não tem uma estrutura de roteiro tradicional com começo, meio e fim certinhos, baseados em um único conflito. Ele funciona como um álbum de fotografias antigas. Você sente o cheiro da comida nas brigas de mesa da família de Titta, sente o peso sufocante da ignorância política da época e, acima de tudo, a universalidade dos desejos masculinos da juventude — a obsessão pelas mulheres, a cumplicidade entre amigos e a necessidade de se firmar no mundo.

É um filme com muita energia, que transita do humor escatológico à mais profunda melancolia em questão de segundos. Fellini não romantiza o passado; ele apenas o aceita com a beleza e os erros que ele teve. Assistir a Amarcord é um exercício de olhar para as nossas próprias memórias e rir do quão ridículos e humanos nós já fomos. Se você busca uma experiência cinematográfica autêntica e de alto nível, dê o play sem medo de errar.

Almas à Venda (Could Souls)

 

Você já parou para pensar quanto vale a sua alma? Se ela estivesse pesando no seu peito, tirando o seu sono, você aceitaria extraí-la e guardá-la em um potinho de vidro só para ter um pouco de paz? Essa é a premissa bizarra e fascinante de Almas à Venda, um filme que mistura comédia dramática e ficção científica de um jeito que você provavelmente nunca viu por aí.

Se você curte aquele tipo de cinema que te faz dar uma risada nervosa enquanto questiona as suas próprias escolhas de vida, senta aí que hoje vamos destrinchar esse mistério.

Do que se trata a história de Almas à Venda?

Lançado em 2009, o longa traz o título original de Cold Souls (e não Could Souls, como alguns digitam por aí nas buscas). A trama acompanha Paul Giamatti interpretando... o próprio Paul Giamatti. Ele é um ator de teatro em Nova York, completamente estressado e travado nos ensaios da peça Tio Vânia, de Anton Tchekhov. A crise existencial do cara está tão pesada que ele simplesmente não consegue atuar.

Desesperado por uma saída, Paul descobre uma clínica de alta tecnologia que oferece um serviço inusitado: a extração e o armazenamento da alma humana. Ele decide testar o procedimento e descobre que sua alma tem o formato e o tamanho de um grão de bico. Sem o peso da alma, ele se sente leve, mas logo percebe que virou um sujeito frio, sem empatia e um ator ainda pior. As coisas degringolam de vez quando ele tenta recuperar a sua "essência" e descobre que ela foi parar no mercado negro de almas na Rússia.

Quem está por trás da produção desse filme?

A mente por trás desse roteiro original e da direção é de Sophie Barthes. Ela consegue conduzir uma história que tinha tudo para ser uma comédia pastelão e transforma o projeto em uma sátira inteligente sobre a vida moderna, o vazio existencial e a busca implacável pela felicidade instantânea.

No elenco, além do brilhante Paul Giamatti — que entrega aquela atuação cirúrgica de homem comum à beira de um ataque de nervos que a gente adora acompanhar —, temos a atriz russa Dina Korzun, que vive a "mula" de almas contrabandeadas, e a sempre excelente Emily Watson no papel de Claire, a esposa de Paul. O entrosamento deles dá uma base sólida para que a bizarrice da trama pareça assustadoramente real.

Onde o filme foi gravado e quais são suas curiosidades?

A atmosfera do filme depende muito dos seus cenários. A produção usou locações em Nova York para mostrar o caos urbano e a frieza corporativa da clínica, e depois transporta a narrativa para as paisagens gélidas e melancólicas de São Petersburgo, na Rússia. Esse contraste visual funciona muito bem para ditar o ritmo da jornada do protagonista.

Nas curiosidades dos bastidores, destaca-se o fato de Sophie Barthes ter escrito o roteiro após ter um sonho vívido com Woody Allen extraindo a própria alma, que tinha o formato de um feijão. Quando ela tentou falar com Allen, a produção dele não deu muita bola. Sorte a nossa, porque Paul Giamatti caiu como uma luva no papel. Além disso, no circuito de festivais, o longa foi amplamente comparado ao estilo de Charlie Kaufman (roteirista de Quero Ser John Malkovich e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças), o que já dá um belo selo de qualidade para os cinéfilos de plantão.

Qual é a nota IMDb de Almas à Venda e o que esperar da crítica?

No IMDb, o filme ostenta uma nota 6.4. Sendo muito honesto com você, acho que essa pontuação não faz total justiça à obra. O público médio costuma torcer o nariz para ritmos mais lentos e conceitos reflexivos, mas a crítica especializada recebeu o filme muito bem na época, elogiando principalmente a originalidade e o humor ácido.

Olhando para a obra hoje, a minha crítica é bem favorável. O filme funciona como um soco no estômago disfarçado de piada. Ele toca em um ponto crucial para nós, homens, que muitas vezes tentamos engolir as emoções, focar apenas na produtividade e "desligar" o que sentimos para dar conta do recado. O roteiro mostra que, ao tentarmos eliminar nossas angústias e fraquezas, acabamos eliminando também o que nos torna humanos. O desfecho não entrega respostas fáceis ou um final feliz hollywoodiano mastigado, mas deixa aquela sensação incômoda e reflexiva que acompanha a gente por dias após os créditos subirem. Vale cada minuto do seu tempo.

Além da Eternidade (Aways)

 

Sempre tive uma queda por histórias que misturam a adrenalina do perigo real com aquele aperto no peito que só os grandes dramas conseguem provocar. Como alguém que vive imerso no universo do cinema, garanto que existem poucas sensações tão instigantes quanto redescobrir uma obra esquecida de um gigante das telas. Foi exatamente isso que senti ao rever Além da Eternidade, um drama fantástico e romântico que bota o espectador dentro de aviões voando baixo no meio de incêndios florestais colossais, enquanto entrega uma das tramas mais sentimentais e profundas do final dos anos 1980.

A produção acompanha Pete Sandich, um piloto audacioso e indisciplinado que combate focos de incêndio aéreo, mas que acaba morrendo ao salvar seu melhor amigo. Do outro lado da vida, ele recebe a missão de guiar um jovem piloto novato, o problema surge quando esse mesmo novato começa a se apaixonar pela mulher que Pete deixou para trás. É um filme sobre desapego, coragem e a linha tênue entre o heroísmo e a teimosia masculina.

Se você curte clássicos focados em superação, camaradagem e uma boa dose de pilotagem raiz, acompanhe os detalhes dessa joia que merece um espaço na sua lista.

Qual é o contexto e o ano de lançamento de Além da Eternidade?

Lançado nos cinemas em dezembro de 1989, o longa-metragem chegou em uma transição marcante de Hollywood. O cinema de ação estava mudando, e o diretor resolveu apostar em algo com uma forte pegada de nostalgia e sentimentos puros. O título original é Always, e o projeto nasceu do desejo antigo do seu realizador em refazer um clássico de guerra de 1943 chamado A Guy Named Joe.

Em vez de focar em caças de combate na Segunda Guerra Mundial, a trama foi atualizada para mostrar os pilotos civis americanos que arriscam tudo manobrando aviões antigos e pesados carregados de retardantes de chamas sobre florestas em chamas. Atualmente, o longa sustenta uma nota de 6.4 no IMDb, uma pontuação justa que reflete como o público médio o enxerga: uma aventura sólida, emocionante, embora por vezes excessivamente sentimental para os padrões mais modernos.

Quem faz parte da direção e do elenco principal?

O comando da cabine de comando desse filme fica por conta de ninguém menos que Steven Spielberg. É curioso notar que esse trabalho saiu no mesmo ano em que ele entregou Indiana Jones e a Última Cruzada, mostrando a versatilidade absurda do diretor em pular de uma megaprodução de ação arqueológica para um romance espiritual intimista.

Na frente das câmeras, o elenco principal entrega uma química espetacular e muito natural. Richard Dreyfuss brilha como o carismático e teimoso piloto Pete Sandich. Ao seu lado, a talentosa Holly Hunter interpreta Dorinda Durston, a controladora de voo e grande amor da vida de Pete. O alívio cômico e o peso bruto da amizade ficam com o gigante John Goodman no papel de Al Yackey, o fiel parceiro de voo do protagonista. O elenco de apoio conta ainda com Brad Johnson como o tímido piloto novato Ted Baker.

Onde o filme foi gravado e quais são suas locações?

O visual de Além da Eternidade é impressionante, especialmente se pensarmos que tudo foi feito antes da era dos efeitos digitais desenhados em computador. As gravações aconteceram principalmente no estado de Montana, na exuberante Kootenai National Forest, e ao redor da pequena cidade de Libby. O icônico lago que aparece logo na abertura e na icônica cena do pouso forçado no final é o Bull Lake, localizado no noroeste de Montana.

As cenas que se passam na escola de aviação em Flat Rock, no Colorado, foram filmadas na verdade no aeroporto de Ephrata, no leste do estado de Washington. A produção usou mais de 500 moradores locais como figurantes nas cenas que mostram acampamentos de bombeiros florestais, o que trouxe uma sensação palpável de realismo e crueza para o ambiente de trabalho daqueles homens.

Quais são as maiores curiosidades dos bastidores da obra?

Toda grande produção carrega histórias de bastidores que enriquecem a experiência de quem assiste, e com esse clássico não é diferente. Abaixo, separei alguns fatos marcantes sobre a produção:

·         A despedida de uma lenda: O filme traz a última aparição nas telas da lendária atriz Audrey Hepburn, que interpreta Hap, o ser angelical que recebe Pete no além. Ela aceitou o papel pelo salário de um milhão de dólares, quantia que doou integralmente para a UNICEF.

·         Fogo real e histórico: Para as impressionantes sequências aéreas no meio dos incêndios, Spielberg utilizou imagens reais de arquivo do devastador incêndio que atingiu o Parque Nacional de Yellowstone em 1988.

·         O avião do filme: O avião pilotado pelo personagem de Brad Johnson era um Bellanca Super Decathlon. Após as gravações, a aeronave foi restaurada e continuou voando regularmente por anos nos céus do Arizona.

·         Mestre da trilha sonora: Mantendo a parceria histórica de sucesso com o diretor, a trilha sonora instrumental foi composta pelo genial John Williams, trazendo o tom exato de melancolia e aventura para os voos.

Qual é a crítica detalhada sobre Além da Eternidade?

Analisando a obra com o distanciamento do tempo, fica claro que Além da Eternidade ocupa um lugar peculiar na filmografia de Steven Spielberg. Não é o seu melhor trabalho, mas passa longe de ser um fracasso. O filme acerta em cheio quando foca na dinâmica de camaradagem entre os homens da base de aviação. A relação entre Dreyfuss e John Goodman exala aquela parceria genuína de bar, com piadas rápidas, xingamentos bobos e uma lealdade testada no limite da sobrevivência. As cenas de voo são espetaculares, filmadas com um dinamismo que faz o espectador prender a respiração enquanto os motores radiais gritam alto no meio da fumaça cinzenta.

O ponto em que a produção perde um pouco de altitude é no terço final, quando o romance assume o controle total da narrativa. Spielberg, por vezes, se rende ao sentimentalismo exagerado, deixando o ritmo arrastado enquanto o fantasma de Pete tenta, de forma invisível, aceitar que sua mulher precisa seguir em frente.

Ainda assim, a atuação firme de Holly Hunter e a presença quase mística de Audrey Hepburn salvam o filme do tom excessivamente meloso. É um filme sobre honra, sobre o orgulho de cumprir o próprio dever e sobre a dolorosa tarefa de aprender o momento certo de abrir as mãos e deixar quem amamos partir. Se você procura um drama que entrega ação de aviação real e uma história que faz pensar sobre o que realmente deixamos como legado, vale cada minuto do seu tempo.