Além da Eternidade (Aways)

 

Sempre tive uma queda por histórias que misturam a adrenalina do perigo real com aquele aperto no peito que só os grandes dramas conseguem provocar. Como alguém que vive imerso no universo do cinema, garanto que existem poucas sensações tão instigantes quanto redescobrir uma obra esquecida de um gigante das telas. Foi exatamente isso que senti ao rever Além da Eternidade, um drama fantástico e romântico que bota o espectador dentro de aviões voando baixo no meio de incêndios florestais colossais, enquanto entrega uma das tramas mais sentimentais e profundas do final dos anos 1980.

A produção acompanha Pete Sandich, um piloto audacioso e indisciplinado que combate focos de incêndio aéreo, mas que acaba morrendo ao salvar seu melhor amigo. Do outro lado da vida, ele recebe a missão de guiar um jovem piloto novato, o problema surge quando esse mesmo novato começa a se apaixonar pela mulher que Pete deixou para trás. É um filme sobre desapego, coragem e a linha tênue entre o heroísmo e a teimosia masculina.

Se você curte clássicos focados em superação, camaradagem e uma boa dose de pilotagem raiz, acompanhe os detalhes dessa joia que merece um espaço na sua lista.

Qual é o contexto e o ano de lançamento de Além da Eternidade?

Lançado nos cinemas em dezembro de 1989, o longa-metragem chegou em uma transição marcante de Hollywood. O cinema de ação estava mudando, e o diretor resolveu apostar em algo com uma forte pegada de nostalgia e sentimentos puros. O título original é Always, e o projeto nasceu do desejo antigo do seu realizador em refazer um clássico de guerra de 1943 chamado A Guy Named Joe.

Em vez de focar em caças de combate na Segunda Guerra Mundial, a trama foi atualizada para mostrar os pilotos civis americanos que arriscam tudo manobrando aviões antigos e pesados carregados de retardantes de chamas sobre florestas em chamas. Atualmente, o longa sustenta uma nota de 6.4 no IMDb, uma pontuação justa que reflete como o público médio o enxerga: uma aventura sólida, emocionante, embora por vezes excessivamente sentimental para os padrões mais modernos.

Quem faz parte da direção e do elenco principal?

O comando da cabine de comando desse filme fica por conta de ninguém menos que Steven Spielberg. É curioso notar que esse trabalho saiu no mesmo ano em que ele entregou Indiana Jones e a Última Cruzada, mostrando a versatilidade absurda do diretor em pular de uma megaprodução de ação arqueológica para um romance espiritual intimista.

Na frente das câmeras, o elenco principal entrega uma química espetacular e muito natural. Richard Dreyfuss brilha como o carismático e teimoso piloto Pete Sandich. Ao seu lado, a talentosa Holly Hunter interpreta Dorinda Durston, a controladora de voo e grande amor da vida de Pete. O alívio cômico e o peso bruto da amizade ficam com o gigante John Goodman no papel de Al Yackey, o fiel parceiro de voo do protagonista. O elenco de apoio conta ainda com Brad Johnson como o tímido piloto novato Ted Baker.

Onde o filme foi gravado e quais são suas locações?

O visual de Além da Eternidade é impressionante, especialmente se pensarmos que tudo foi feito antes da era dos efeitos digitais desenhados em computador. As gravações aconteceram principalmente no estado de Montana, na exuberante Kootenai National Forest, e ao redor da pequena cidade de Libby. O icônico lago que aparece logo na abertura e na icônica cena do pouso forçado no final é o Bull Lake, localizado no noroeste de Montana.

As cenas que se passam na escola de aviação em Flat Rock, no Colorado, foram filmadas na verdade no aeroporto de Ephrata, no leste do estado de Washington. A produção usou mais de 500 moradores locais como figurantes nas cenas que mostram acampamentos de bombeiros florestais, o que trouxe uma sensação palpável de realismo e crueza para o ambiente de trabalho daqueles homens.

Quais são as maiores curiosidades dos bastidores da obra?

Toda grande produção carrega histórias de bastidores que enriquecem a experiência de quem assiste, e com esse clássico não é diferente. Abaixo, separei alguns fatos marcantes sobre a produção:

·         A despedida de uma lenda: O filme traz a última aparição nas telas da lendária atriz Audrey Hepburn, que interpreta Hap, o ser angelical que recebe Pete no além. Ela aceitou o papel pelo salário de um milhão de dólares, quantia que doou integralmente para a UNICEF.

·         Fogo real e histórico: Para as impressionantes sequências aéreas no meio dos incêndios, Spielberg utilizou imagens reais de arquivo do devastador incêndio que atingiu o Parque Nacional de Yellowstone em 1988.

·         O avião do filme: O avião pilotado pelo personagem de Brad Johnson era um Bellanca Super Decathlon. Após as gravações, a aeronave foi restaurada e continuou voando regularmente por anos nos céus do Arizona.

·         Mestre da trilha sonora: Mantendo a parceria histórica de sucesso com o diretor, a trilha sonora instrumental foi composta pelo genial John Williams, trazendo o tom exato de melancolia e aventura para os voos.

Qual é a crítica detalhada sobre Além da Eternidade?

Analisando a obra com o distanciamento do tempo, fica claro que Além da Eternidade ocupa um lugar peculiar na filmografia de Steven Spielberg. Não é o seu melhor trabalho, mas passa longe de ser um fracasso. O filme acerta em cheio quando foca na dinâmica de camaradagem entre os homens da base de aviação. A relação entre Dreyfuss e John Goodman exala aquela parceria genuína de bar, com piadas rápidas, xingamentos bobos e uma lealdade testada no limite da sobrevivência. As cenas de voo são espetaculares, filmadas com um dinamismo que faz o espectador prender a respiração enquanto os motores radiais gritam alto no meio da fumaça cinzenta.

O ponto em que a produção perde um pouco de altitude é no terço final, quando o romance assume o controle total da narrativa. Spielberg, por vezes, se rende ao sentimentalismo exagerado, deixando o ritmo arrastado enquanto o fantasma de Pete tenta, de forma invisível, aceitar que sua mulher precisa seguir em frente.

Ainda assim, a atuação firme de Holly Hunter e a presença quase mística de Audrey Hepburn salvam o filme do tom excessivamente meloso. É um filme sobre honra, sobre o orgulho de cumprir o próprio dever e sobre a dolorosa tarefa de aprender o momento certo de abrir as mãos e deixar quem amamos partir. Se você procura um drama que entrega ação de aviação real e uma história que faz pensar sobre o que realmente deixamos como legado, vale cada minuto do seu tempo.

 

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