Sabe
aquele tipo de filme que gruda na sua mente e te faz questionar o que você
acabou de assistir pelas próximas duas semanas? É exatamente isso que sinto
toda vez que revisito uma das obras mais perturbadoras e viscerais do cinema
independente. Se você gosta de produções que fogem do feijão com arroz e
desafiam sua percepção, precisa entender o fenômeno por trás desse clássico do
terror psicológico surrealista.
O que é Eraserhead e qual seu contexto inicial?
Quando falamos de cinema que mexe com o subconsciente, o
título original Eraserhead surge
como uma força inevitável. Lançado oficialmente no ano de 1977, o longa-metragem
não é apenas uma história de terror corporal; é um mergulho direto nos medos
mais profundos da responsabilidade, da paternidade indesejada e do isolamento
urbano.
A trama acompanha Henry Spencer, um homem comum com um
penteado vertical impossível de ignorar, que vive em um cenário industrial
cinzento e opressor. Quando sua namorada, Mary X, engravida, Henry se vê preso
a um casamento forçado e ao dever de cuidar de um recém-nascido completamente
deformado, que se parece mais com uma criatura reptiliana chorona do que com um
bebê humano. Atualmente, a obra ostenta uma nota IMDB de 7.3, o
que reflete seu status de divisor de águas, amado por cinéfilos dedicados e
respeitado pelo público que busca algo fora da curva.
Quem está por trás da direção e do elenco?
A mente brilhante (e um tanto perturbada) que concebeu
esse pesadelo foi o diretor David Lynch, em sua estreia em
longa-metragens. Lynch não apenas dirigiu, mas também escreveu, produziu,
editou e criou o design de som ensurdecedor que dá o tom claustrofóbico do
ambiente. Ele transformou suas próprias ansiedades da época em que viveu em
bairros perigosos da Filadélfia nesta obra-prima visual.
No elenco principal, temos atuações brutas e
perfeitamente sintonizadas com o absurdo:
·
Jack
Nance dá vida ao protagonista Henry
Spencer, entregando uma performance minimalista com um olhar constante de
perplexidade.
·
Charlotte
Stewart interpreta Mary X, a namorada à
beira de um colapso nervoso.
·
Allen
Joseph e Jeanne Bates vivem
os sogros bizarros de Henry.
·
Laurel
Near brilha no papel icônico e
melancólico da Mulher no Radiador.
Onde o filme foi rodado e qual a importância da locação?
Para dar vida a essa atmosfera industrial e decadente, a
principal locação utilizada foram os estúdios e instalações do próprio American Film Institute
(AFI) em Los Angeles, Califórnia. Mais especificamente, Lynch utilizou os
estábulos desativados da icônica Greystone Mansion em Beverly Hills.
O diretor praticamente morou nesses sets improvisados
durante os longos anos de produção. Essa escolha de locação enclausurada foi
fundamental para criar a sensação de que o mundo fora daquele apartamento de
Henry simplesmente não existe, ou é composto apenas por fumaça, engrenagens e
escuridão.
Quais são as maiores curiosidades dos bastidores?
A produção de Eraserhead é quase tão lendária quanto o
próprio filme. Separei os fatos mais intrigantes que mostram o nível de
obsessão envolvido no projeto:
·
Cinco
anos de gravação: Devido à falta crônica
de dinheiro, o filme levou cerca de cinco anos para ser concluído. Lynch
recorreu a bicos, como entregar jornais, e recebeu doações de amigos como o
designer Jack Fisk e a atriz Sissy Spacek para manter as filmagens vivas.
·
O
segredo do bebê: Até hoje, ninguém sabe
do que era feito o boneco do bebê deformado. David Lynch cobria os olhos dos
membros da equipe quando ia manusear a criatura e nunca revelou o material
utilizado, gerando boatos que vão desde um feto de coelho embalsamado até
entranhas de animais.
·
Aprovação
de gigantes: Stanley Kubrick era um fã
confesso da obra e chegou a exibi-la para o elenco de O Iluminado para que
eles entrassem no clima de tensão que ele desejava para o seu filme. George
Lucas também se impressionou tanto que convidou Lynch para dirigir Star Wars: O Retorno de Jedi
(convite que Lynch recusou para manter sua liberdade criativa).
Qual é a verdadeira crítica da obra?
Olhando de forma direta, Eraserhead é uma obra-prima do
desconforto. Não espere sustos fáceis ou monstros pulando na tela. O verdadeiro
terror aqui é a ansiedade da vida real amplificada ao extremo. Lynch constrói
uma narrativa fluida baseada na lógica dos sonhos — ou melhor, dos pesadelos —,
onde o som mecânico constante de fundo funciona como um peso esmagador no peito
de quem assiste.
O filme funciona perfeitamente como uma metáfora sobre o
medo da vulnerabilidade e o peso de assumir compromissos para os quais você não
se sente pronto. É cru, é visualmente impactante com sua fotografia em preto e
branco de alto contraste e possui um dos designs de som mais brilhantes da
história do cinema. Se você tiver estômago para a bizarrice, é um clássico
obrigatório que mostra o cinema em sua forma mais artística, pura e sem
concessões de Hollywood.
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