A Viagem (Cloud Atlas)

 

Sabe quando você termina de assistir a um filme e sente que sua cabeça expandiu uns três tamanhos? Foi exatamente isso o que aconteceu comigo quando ousei dar o play em A Viagem, um daqueles projetos colossais que desafiam tudo o que a gente conhece por cinema convencional. Lançado no ano de 2012, esse épico de ficção científica e drama me prendeu do primeiro ao último minuto pela sua coragem de chutar o balde da narrativa linear. Se você curte histórias que exigem atenção, que respeitam a inteligência do espectador e que debatem o peso das nossas escolhas através das eras, meu amigo, você está no lugar certo.

O longa carrega o título original de Cloud Atlas e é baseado no aclamado livro de David Mitchell. Atualmente, ele segura uma respeitável nota IMDb de 7,4/10, o que mostra o quanto ele divide opiniões: há quem o ache uma obra-prima incompreendida e quem se perca nas suas três horas de projeção. Eu fico no primeiro grupo, e vou te explicar os motivos que me fazem ver esse filme como um verdadeiro teste de impacto sobre o que deixamos para o mundo.

Como funciona a complexa estrutura de A Viagem?

Para entender o filme, você precisa entender a mecânica por trás dele. Esqueça o formato padrão de começo, meio e fim. Aqui, nós acompanhamos seis histórias diferentes que se passam em épocas totalmente distintas: desde o século XIX no Oceano Pacífico, passando por investigações jornalísticas nos anos 1970, até um futuro pós-apocalíptico primitivo.

O que me impressiona de verdade é o trabalho do trio de peso que assumiu o cargo de diretor. Temos as irmãs Lana e Lilly Wachowski (as mentes por trás da trilogia Matrix) trabalhando ao lado do alemão Tom Tykwer (de Corra, Lola, Corra). Eles conseguiram costurar essas seis tramas cortando de uma para outra de forma cirúrgica. Uma cena de ação no futuro se conecta visualmente com uma fuga em um castelo no século XX. É um soco no estômago de dinamismo que exige que você ligue os pontos o tempo todo.

Quem faz parte do elenco e como eles se dividem?

Aqui está a maior cartada de mestre do filme. O elenco estelar não interpreta apenas um personagem cada. Eles dão vida a múltiplos papéis ao longo das seis eras. Tom Hanks, por exemplo, vai de um médico ganancioso e cruel no passado a um herói tribal hesitante no futuro distante. Halle Berry interpreta desde uma jornalista destemida até uma cientista avançada.

Além deles, nomes pesados como Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Doona Bae, Ben Whishaw e Hugh Grant completam o time. Ver o Hugh Grant, acostumado com comédias românticas, interpretando um chefe tribal canibal sanguinário é algo bizarro e fascinante ao mesmo tempo. Essa decisão de repetir os atores serve para mostrar que, independentemente da época, as almas daquelas pessoas continuam se cruzando, seja para o bem ou para o mal. É a evolução espiritual na prática, escancarada na tela.

Onde o filme foi gravado e quais foram suas locações?

Para dar conta de tanta variedade geográfica e temporal, a produção teve que rodar o mundo. A locação principal teve base nos estúdios na Alemanha, mas a equipe viajou para cenários impressionantes que ajudam a vender o visual do filme.

·         Escócia: As paisagens rurais e as ruas de Edimburgo serviram perfeitamente para os segmentos ambientados no século XX.

·         Maiorca (Espanha): As praias e montanhas da ilha espanhola deram vida às cenas do século XIX no navio e também ao mundo pós-apocalíptico.

·         Alemanha: Além dos estúdios em Berlim, várias cenas urbanas foram capturadas no país para simular diferentes períodos históricos.

Toda essa mistura de ambientes reais com efeitos visuais práticos de maquiagem faz com que cada universo pareça vivo e tridimensional, sem aquela sensação de estarmos olhando apenas para uma tela verde de computador.

Quais são as maiores curiosidades dos bastidores?

Produzir uma máquina desse tamanho não foi fácil, e os bastidores guardam fatos que tornam a experiência de assistir ainda mais rica.

·         Financiamento independente: Mesmo com astros de Hollywood, os grandes estúdios acharam a ideia ousada e arriscada demais. O filme foi bancado de forma quase totalmente independente, tornando-se um dos filmes independentes mais caros da história, custando mais de 100 milhões de dólares.

·         Horas na maquiagem: Os atores passavam até quatro ou cinco horas diárias na cadeira de maquiagem para mudar de etnia, idade e até de gênero biológico para se encaixarem nos diferentes papéis.

·         Fratura no primeiro dia: Tom Hanks quase colocou o cronograma em risco. Logo no início das gravações em Maiorca, Halle Berry quebrou o pé, o que forçou a direção a reorganizar todas as cenas da atriz às pressas enquanto ela se recuperava.

Vale a pena assistir? Minha crítica sincera sobre a obra

Olhando para o resultado final, eu afirmo: A Viagem é um filme para quem gosta de cinema substancial. Ele não entrega respostas mastigadas. A mensagem central foca na ideia de que nossas vidas não nos pertencem. Do útero ao túmulo, estamos interligados com os outros, e cada ato de bondade ou de crueldade que cometemos ecoa no futuro.

A direção de arte e a trilha sonora são espetaculares. A forma como o tema musical se repete e se transforma ao longo dos séculos é de arrepiar. O ponto fraco, para ser bem honesto, fica por conta de algumas maquiagens de mudança étnica que não envelheceram tão bem e podem parecer artificiais hoje em dia. Porém, o peso da narrativa e a coragem de entregar algo tão fora da curva compensam qualquer detalhe técnico menor. É uma obra robusta, que te faz pensar sobre o legado que você deixa no seu dia a dia e sobre como pequenas atitudes podem mudar o rumo da história de alguém gerações à frente.

Se você procura um filme de ação descerebrado para passar o tempo no domingo, passe longe. Mas se você quer uma experiência cinematográfica profunda e marcante, junte-se a mim nessa viagem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe um comentário sobre o filme e compartilhe com seus amigos.