Se
você curte o cinema dos anos 80, sabe que aquela década tinha uma energia única
para falar sobre ambição, estilo de vida e as reviravoltas que o destino dá na
nossa cara. Hoje, resolvi resgatar um clássico que equilibra perfeitamente a
correria insana do mundo dos negócios com o choque de realidade da vida real.
Estou falando de Baby Boom, uma comédia
dramática que envelheceu como um bom vinho e que nos faz questionar o que
realmente importa quando colocamos a cabeça no travesseiro.
Lançado em 1987, o filme traz uma daquelas
premissas que te prendem logo de cara. No auge do corporativismo agressivo de
Nova York, acompanhamos a rotina de quem vive para o trabalho — até que o
inesperado bate à porta. Com uma ótima recepção da crítica e do público na
época, a obra ostenta hoje uma nota 6.3 no IMDb, uma pontuação
justa para um filme que entrega exatamente o que promete: inteligência, humor e
uma dose cavalar de realidade sobre escolhas de vida.
Qual é a história por trás do título original Baby Boom?
O título original, Baby Boom, faz uma
brincadeira direta com a geração nascida após a Segunda Guerra Mundial, mas no
contexto do filme, funciona quase como uma explosão tática na vida da
protagonista, J.C. Wiatt. Vivida brilhantemente por Diane Keaton, ela é
uma consultora de gerenciamento implacável, apelidada no mercado como a
"Tiger Lady" (Mulher Tigre). J.C. não tem tempo para respirar, divide
um apartamento minimalista com um banqueiro igualmente viciado em trabalho
(interpretado por Harold Ramis) e não tem o menor
interesse em formar uma família.
A engrenagem do roteiro gira quando ela recebe a notícia
de que um primo distante faleceu e lhe deixou uma "herança". O que
ela achava que seriam ações ou dinheiro acaba se revelando uma bebê órfã de
quatorze meses chamada Elizabeth. A partir daí, o homem de negócios ou a mulher
de negócios focada precisa lidar com fraldas, mamadeiras e a completa falta de
tato com o universo infantil. O caos se instala, o relacionamento desmorona
porque o parceiro cai fora, e ela se vê escanteada na empresa por caras mais
jovens e sem amarras familiares — um deles vivido pelo sempre excelente James Spader, que
faz aquele tipo de engravatado ambicioso que a gente adora odiar.
Quem comanda a direção e o elenco de Baby Boom?
Por trás das câmeras, temos a assinatura de um mestre das
comédias sofisticadas: o diretor Charles Shyer. Ele escreveu
o roteiro em parceria com sua então esposa, Nancy Meyers, uma dupla que
praticamente moldou o estilo visual e narrativo das comédias românticas
americanas mais elegantes dos anos 80 e 90.
A direção de Shyer é precisa em mostrar o contraste
visual da história. O elenco de apoio é cirúrgico. Além
de Keaton destruindo no papel principal, temos Sam Shepard como o
veterinário local Dr. Jeff Cooper, que entra na segunda metade da história
trazendo um contraponto rústico e pé no chão ao estresse urbano de J.C. A
química madura entre os dois funciona muito bem, sem firulas ou romantismo
bobo, mostrando dois adultos que já apanharam da vida tentando se entender.
Onde foram feitas as filmagens e qual a importância da
locação?
A escolha da locação é um dos
grandes trunfos da narrativa e atua quase como um personagem vivo. A primeira
metade do filme acontece no cenário cinzento, imponente e acelerado de Nova York,
traduzindo o ambiente corporativo que dita o ritmo da protagonista.
Quando J.C. decide chutar o balde da pressão corporativa,
ela compra uma fazenda antiga e se muda para o interior, mais especificamente
para a cidade de Peru, no estado de Vermont. A
produção realmente filmou nessa região durante o inverno, e as paisagens
cobertas de neve, as estradas isoladas e os problemas estruturais da casa velha
trazem uma sensação palpável de isolamento. Essa transição visual reflete o
isolamento e o recomeço forçado da personagem, longe dos arranha-céus.
Quais são as principais curiosidades dos bastidores da
produção?
Como todo bom clássico daquela época, os bastidores
guardam ótimas histórias. Separando o que há de melhor, aqui estão algumas curiosidades
marcantes sobre a produção:
·
Gêmeas
em cena: A pequena Elizabeth foi
interpretada pelas irmãs gêmeas Kristina e Michelle Kennedy. A produção
precisava revezá-las para cumprir as leis trabalhistas infantis e manter as
filmagens no ritmo.
·
Inspiração
real: Nancy Meyers e Charles Shyer
escreveram o roteiro pensando em como o mercado de trabalho da época era hostil
com mulheres que decidiam ter filhos, forçando-as a escolher entre o topo da
carreira ou a maternidade.
·
A
casa de Vermont: A propriedade que
serviu de cenário no interior se tornou um ponto turístico informal na região
de Peru, Vermont, mantendo até hoje aquele charme rústico que quase levou a
protagonista à loucura com encanamentos congelados.
O veredito: por que Baby Boom ainda vale o seu play?
Fazendo uma crítica da obra com
o distanciamento que o tempo nos dá, fica claro que o filme entrega muito mais
do que uma comédia comum sobre "trocar fraldas". O roteiro é
extremamente perspicaz ao retratar a cultura do trabalho dos anos 80. Ele não suaviza
o fato de que o ambiente de negócios pode ser cruel e descartável.
O foco aqui não é apenas o instinto materno, mas a capacidade de um indivíduo se reinventar quando o sistema o cospe para fora. Quando J.C. usa sua mente afiada de Nova York para criar uma marca de papinhas caseiras no interior, o filme mostra o valor do faro comercial e da resiliência. É uma história sobre recuperar o controle da própria vida e mandar o topo do organograma corporativo para o espaço, ditando as próprias regras do jogo. Vale cada minuto, seja pela nostalgia da década de 80, pelas atuações sólidas ou pela lição prática de estratégia e sobrevivência urbana.
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