O Amante de Lady Chatterley (Lady Chatterley's Lover)


Se você curte clássicos que desafiam as regras do jogo, com certeza já ouviu falar ou esbarrou em alguma versão de uma das histórias mais provocantes do século XX. Mas hoje eu quero bater um papo com você sobre uma adaptação bem específica, aquela que marcou época no início dos anos 80. Vamos falar sobre O Amante de Lady Chatterley (1981), ou, no seu título original, Lady Chatterley's Lover.

Pega um café, se acomoda e vem comigo entender por que esse filme ainda desperta tanta curiosidade e debate.

Qual é o contexto histórico e a origem dessa história?

Para entender o filme lançado em 1981, a gente precisa voltar um pouco no tempo. A trama é baseada no polêmico e revolucionário livro homônimo de D.H. Lawrence, publicado originalmente em 1928. A obra foi banida em diversos países por décadas devido ao seu forte teor erótico e à crítica escancarada às barreiras de classe da sociedade britânica.

Quando o filme estreou, o mundo estava saindo da efervescência sexual dos anos 70 e entrando em uma década de transição estética. O longa trouxe para as telas a história de Constance Chatterley, uma jovem aristocrata casada com Sir Clifford Chatterley, um homem que retorna da Primeira Guerra Mundial paralisado da cintura para baixo e impotente. Sentindo-se solitária, negligenciada e presa em um casamento sem paixão, ela acaba encontrando refúgio e um desejo avassalador nos braços de Oliver Mellors, o rústico guarda-caça da propriedade da família.

Quem está por trás das câmeras e no elenco principal?

O filme foi comandado pelo diretor francês Just Jaeckin. Se esse nome lhe parece familiar, não é por acaso: ele foi o homem por trás de Emmanuelle (1974), um dos maiores fenômenos do cinema erótico mundial. Jaeckin trouxe sua assinatura visual bem característica para esta adaptação, apostando em uma fotografia mais difusa, romântica e com aquela atmosfera sensual e sofisticada que marcou o cinema europeu da época.

No elenco, temos a magnética Sylvia Kristel interpretando Lady Chatterley. Kristel, que já era a musa absoluta de Jaeckin por seu papel em Emmanuelle, entrega uma Constance que transita muito bem entre a fragilidade da aristocracia e a descoberta do próprio desejo.

Para viver o guarda-caça Oliver Mellors, o escolhido foi o ator britânico Nicholas Clay, que traz uma presença física imponente e o contraste bruto necessário para o papel. Completando o trio principal, Shane Briant interpreta o amargurado e aristocrático Sir Clifford Chatterley com uma atuação bastante sólida.

Onde o filme foi gravado e quais são suas locações?

Diferente de produções que se fecham inteiramente em estúdios, a versão de 1981 fez questão de buscar o realismo das paisagens britânicas para retratar o isolamento da propriedade de Wragby Hall.

O filme foi rodado em locações reais no Reino Unido, usando a beleza natural da zona rural inglesa para acentuar o contraste entre a frieza da mansão de pedra dos Chatterley e o calor úmido, quase selvagem, dos bosques onde Mellors trabalha e vive. Essa dualidade visual entre a civilização rígida e a natureza livre é um dos pontos altos da direção de arte da produção.

Quais são as principais curiosidades dos bastidores?

Como toda produção que mexe com temas picantes e censura, O Amante de Lady Chatterley carrega algumas histórias interessantes de bastidores:

·         Selo Cannon Films: O longa foi produzido pela lendária (e muitas vezes infame) Cannon Films, dos produtores Menahem Golan e Yoram Globus. Eles eram conhecidos por filmes de ação rápidos e baratos, mas sabiam exatamente como vender produções sensuais com alto apelo comercial.

·         Reencontro de Peso: O filme marcou o reencontro do diretor Just Jaeckin e da atriz Sylvia Kristel anos após o estrondoso sucesso de Emmanuelle. O apelo do marketing girou fortemente em torno dessa parceria.

·         A Nota IMDB: Se você for pesquisar hoje, o filme conta com uma nota de 5.2/10 no IMDb. É uma pontuação mediana, o que nos leva diretamente ao próximo ponto: a recepção do público e da crítica.

O que a crítica achou e qual é o veredito sobre a obra?

Sendo bem direto com você: a recepção da crítica na época foi mista, e o tempo transformou o filme em uma espécie de clássico cult da "Sexta-Feira Muito Louca" do cinema oitentista.

Muitos críticos apontaram que Jaeckin suavizou demais as discussões políticas e de luta de classes que D.H. Lawrence tanto defendia em seu livro, preferindo focar quase que exclusivamente na estética erótica e no romance visual. O filme adota aquele filtro suave e "enevoado", quase como um ensaio fotográfico romântico de época, o que para alguns tirou a crueza e a urgência da história original.

Por outro lado, não há como negar que o filme cumpre o que promete no quesito atmosfera. A química entre Sylvia Kristel e Nicholas Clay funciona na tela, e a trilha sonora ajuda a ditar o ritmo de uma produção que, se não tem a profundidade literária do livro, entrega um drama romântico visualmente bonito e inegavelmente sensual.

Para quem gosta de produções de época com uma pegada mais ousada e quer entender a transição do cinema erótico dos anos 70 para os 80, é uma obra que merece ser assistida, mesmo que seja para analisar como a estética daquela década envelheceu.

 


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