Se
você curte cinema que foge do óbvio e não tem medo de cutucar o lado mais
sombrio da natureza humana, senta aí que hoje vamos falar de um baita clássico.
Lembro perfeitamente da primeira vez que assisti a esse filme. A sensação foi
de abrir uma porta secreta para um mundo completamente bizarro que existe bem
debaixo do nosso nariz. Estou falando de uma obra-prima que redefiniu o
suspense psicológico e que, mesmo após décadas, continua fritando a mente de
qualquer um que se atreva a dar o play.
Estou falando de Veludo Azul, um soco
no estômago disfarçado de fita de detetive. Se você busca um filme com
atmosfera densa, mistério de verdade e aquela pegada neo-noir psicológica que
te deixa tenso na poltrona, achou o tesouro.
O que torna a atmosfera de Veludo Azul tão marcante?
O filme, cujo título original é Blue Velvet, foi
lançado no ano de 1986. Ele funciona como um espelho
quebrado da sociedade americana perfeita dos anos 50 e 80. A história começa
com Jeffrey Beaumont, um jovem que volta para sua pacata cidade natal após o
pai sofrer um infarto. Até aí, tudo parece um drama comum de cidade de
interior.
O clima muda drasticamente quando Jeffrey encontra uma
orelha humana decepada em um terreno baldio. Em vez de deixar a polícia
resolver, o instinto de investigação do cara fala mais alto. É esse o estopim
que nos joga de cabeça em um submundo bizarro de crime, obsessão e fetiches que
ninguém imaginaria que existia naquela cidadezinha perfeita com cercas brancas
e jardins bem cuidados. Atualmente, o filme ostenta uma nota 7,7 no IMDb, o
que mostra o quanto ele continua relevante e respeitado pelo público cinéfilo.
Quem são as mentes e os rostos por trás desse clássico?
A mente genial — e assumidamente perturbada — por trás
dessa obra é o diretor David Lynch. Ele é o mestre
absoluto do surrealismo no cinema moderno, e aqui ele entrega talvez o seu
trabalho mais coeso e visceral. Lynch não quer apenas te contar uma história;
ele quer que você sinta o incômodo dos personagens.
Para dar vida a essa paranoia, o elenco entrega atuações
absurdas:
·
Kyle
MacLachlan vive o protagonista Jeffrey,
entregando aquela curiosidade obsessiva que todo homem entende quando se depara
com um mistério.
·
Isabella
Rossellini está magnífica e vulnerável
como Dorothy Vallens, uma cantora de boate decadente presa em uma teia de
abusos.
·
Laura
Dern faz a jovem Sandy, o contraponto de
inocência na trama.
·
Dennis
Hopper entrega o papel da sua vida como
Frank Booth, um dos vilões mais psicopatas, insanos e assustadores da história
do cinema.
Toda essa loucura se passa na cidade fictícia de
Lumberton, mas as locações reais rolaram em Wilmington, na Carolina do
Norte. O contraste entre a iluminação pacata do dia e as sombras
sinistras da noite nessas locações é o que dita o ritmo visual do filme.
Quais são as maiores curiosidades dos bastidores?
Nenhum filme do Lynch nasce sem histórias estranhas nos
bastidores, e com este não seria diferente. Separar o real do surreal na
produção é quase tão divertido quanto assistir ao longa.
·
O
renascimento de Dennis Hopper: O ator
estava com a carreira em baixa devido ao abuso de substâncias. Quando leu o
roteiro, ele ligou para Lynch e disse: "Você tem que me dar esse papel,
porque eu sou o Frank Booth!". O
resultado foi uma atuação histórica que ressuscitou a carreira dele.
·
O
sacrifício de Isabella Rossellini: A
atriz foi extremamente corajosa ao aceitar o papel de Dorothy. As cenas de
nudez e violência psicológica eram tão intensas que a agência dela na época a
demitiu, alegando que o filme destruiria sua carreira. Ela provou que eles
estavam errados e foi aclamada.
·
A
orelha realista: A orelha que Jeffrey
encontra no início do filme foi feita de forma tão realista pelo departamento
de efeitos que alguns membros da equipe técnico-policial da cidade foram berrar
com a produção achando que era um membro humano de verdade guardado no set.
Vale a pena assistir a Veludo Azul nos dias de hoje?
A minha crítica sincera é: não só vale a pena, como é
obrigatório para quem quer entender o cinema de suspense moderno. O que mais me
impressiona na obra é como ela trabalha a dualidade. O filme não tem medo de
ser feio, violento e desconfortável quando precisa, mas faz isso com uma
estética visual impecável e uma trilha sonora que gruda na mente (a música
"Blue Velvet" na voz de Bobby Vinton nunca mais vai soar igual para
você).
Lynch nos força a encarar o voyeurismo. Nós,
espectadores, somos como o Jeffrey espiando o armário de Dorothy: estamos
desconfortáveis com o que estamos vendo, mas simplesmente não conseguimos
desviar o olhar. É um filme sobre a perda da inocência e sobre entender que o
perigo e o caos estão sempre a um palmo de distância da nossa rotina pacata. Se
você busca um thriller psicológico com dentes, personalidade e que não te trata
como idiota, passe o café e dê o play. É cinema puro, bruto e inesquecível.
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