Viajantes: Instinto e Desejo (Voyagers)

 

Se você curte ficção científica psicológica, daquelas que isolam pessoas em um ambiente fechado para ver o circo pegar fogo quando os limites morais desaparecem, provavelmente já se deparou com este título no catálogo do streaming. Eu lembro exatamente de quando assisti a esse filme: a premissa de uma tripulação jovem, criada em laboratório para colonizar um novo planeta, me pegou de cara. Parece o plano perfeito para salvar a humanidade, certo? Mas a verdade é que o confinamento e a ausência de regras têm um preço alto.

O longa aborda exatamente o momento em que a racionalidade dá espaço aos impulsos mais primitivos. Vou te contar tudo sobre os bastidores, os detalhes técnicos e se realmente vale a pena dar o play.

Qual é o enredo de Viajantes: Instinto e Desejo?

O filme nos joga no ano de 2063. A Terra está colapsando e a última esperança da humanidade é colonizar um planeta distante. Como a viagem vai durar 86 anos, a solução foi enviar uma tripulação de crianças geradas por inseminação artificial, criadas em isolamento total para não sentirem falta da vida no nosso planeta. Eles crescem dentro da nave sob a tutela de Richard, o único adulto da missão, interpretado por Colin Farrell.

O problema de verdade começa quando dois jovens da tripulação, Christopher (Tye Sheridan) e Zac (Fionn Whitehead), descobrem que o "líquido azul" que eles são obrigados a beber diariamente é um forte supressor de apetite sexual e de emoções. Quando eles decidem parar de tomar a substância, a represa quebra. O que antes era uma tripulação altamente disciplinada e fria se transforma em um caldeirão de hormônios, paranoia, busca por poder e puro instinto de sobrevivência. É basicamente uma releitura espacial do clássico livro O Senhor das Moscas.

Quem está por trás das câmeras e no elenco?

O grande nome na retaguarda do projeto é o diretor e roteirista Neil Burger, o mesmo cara que comandou Sem Limites (2011) e Divergente (2014). Dá para notar que ele tem uma assinatura visual muito limpa e claustrofóbica, o que funciona bem para a proposta do confinamento.

O título original da obra é Voyagers e ela chegou aos cinemas no ano de lançamento de 2021. No elenco principal, além do veterano Colin Farrell, temos uma nova geração de atores mandando muito bem. Tye Sheridan entrega um Christopher centrado e resiliente, enquanto Fionn Whitehead brilha como o antagonista Zac, canalizando uma agressividade muito crua. O trio central se fecha com Lily-Rose Depp (sim, a filha do Johnny Depp), que interpreta Sela, a peça que equilibra a balança de poder e os desejos dentro daquela lataria espacial.

Atualmente, a nota IMDb do filme está na casa de 5.4/10. É uma pontuação mediana que reflete bem como a produção dividiu as opiniões do público na época.

Onde o filme foi gravado e quais os segredos dos bastidores?

Uma das maiores surpresas que tive ao pesquisar a ficha técnica do longa foi descobrir a sua locação. Toda a atmosfera fria, metálica e labiríntica da nave não foi gerada apenas em computação gráfica pesada. As filmagens aconteceram quase inteiramente em Bucareste, na Romênia. A equipe de produção construiu os cenários internos do cargueiro espacial espalhados por quatro estúdios diferentes para dar aquela sensação real de isolamento e infinitude de corredores.

Como o roteiro exigia bastante ação física e simulação de gravidade zero em alguns momentos, os atores mais jovens passaram por um treinamento pesado de dublês antes de as câmeras começarem a rodar.

Uma das curiosidades mais interessantes dos bastidores é que a produção quase recebeu uma classificação indicativa "R" (para maiores de 17 anos nos EUA) por conta da intensidade das cenas que retratam a liberação dos instintos e da violência dos garotos. No final, o estúdio deu uma segurada na edição para garantir uma classificação mais branda, mas a tensão psicológica continuou ali, bem evidente. Outro detalhe nostálgico para os cinéfilos atentos: há um "Wilhelm Scream" (aquele clássico efeito sonoro de grito do cinema) escondido por volta dos 46 minutos de filme, quando a tripulação assiste a gravações antigas da Terra.

Vale a pena assistir a essa ficção científica?

Na minha opinião de quem consome muito sci-fi, o filme entrega uma experiência sólida, mas que poderia ter ido mais longe. A primeira metade da história é excelente. O diretor constrói muito bem a quebra da rotina robótica dos jovens. Ver a transição daqueles rostos apáticos para expressões de raiva, medo e desejo é o ponto alto da obra. A fotografia usa tons muito frios no início e vai ganhando cores mais quentes e agressivas à medida que o caos se instala na nave.

Onde o filme escorrega um pouco é no terço final. Neil Burger prefere seguir um caminho mais focado na ação de perseguição de corredores do que se aprofundar na discussão filosófica sobre a real natureza humana. Dava para ter explorado muito mais o peso psicológico de se estar preso no vácuo do espaço sem leis. Ainda assim, é um thriller de ritmo ágil, que não te deixa entediado e entrega ótimas atuações da ala jovem de Hollywood. Se você busca um entretenimento tenso para o fim de semana, vale o play sem dúvidas.

 

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