Eu sempre fico meio impressionado quando me pego assistindo a produções orientais. Para mim, que cresci no Brasil, acostumado com um ritmo de vida e com valores totalmente diferentes, me deparar com a cultura clássica japonesa causa uma estranheza natural. Não estou dizendo que isso diminua a obra, longe disso, mas aquela rigidez e aqueles costumes dos samurais são um choque para quem olha de fora. Foi exatamente com esse sentimento de estranhamento que me sentei para assistir a Harakiri, uma verdadeira aula de cinema que me pegou do início ao fim.
O que torna a história de Harakiri
tão marcante?
O filme se passa no Japão de 1630, um período de paz em que milhares de samurais ficaram sem trabalho e sem rumo, caindo na miséria. A trama acompanha Hanshiro Tsugumo, um guerreiro sem mestre que chega ao palácio de um poderoso clã pedindo um espaço no pátio para cometer o seppuku — o ritual de suicídio honroso, também conhecido como harakiri. Ele afirma que prefere morrer com dignidade a continuar passando fome.
Só que o clã desconfia da intenção dele, já que muitos samurais inventavam essa história apenas para conseguir um trocado ou um prato de comida por pena. A partir daí, o líder do clã resolve contar a história trágica de outro jovem samurai que apareceu ali semanas antes com o mesmo pedido. É nesse momento que o filme engata uma engrenagem fantástica: Tsugumo começa a rebater a narrativa contando a sua própria versão dos fatos. O roteiro vira um jogo de xadrez psicológico sensacional, em que cada revelação expõe a podridão e a hipocrisia de um sistema focado em aparências.
Quais são os grandes nomes por trás
desta obra-prima?
Lançado em 1962, o título original do filme é Seppuku. A direção ficou nas mãos do mestre Masaki Kobayashi, um cara que nunca teve medo de usar suas obras para fazer críticas sociais pesadas. No papel principal temos Tatsuya Nakadai, entregando uma das atuações mais poderosas que já vi no cinema. Ele consegue transmitir uma dor profunda e uma ameaça constante apenas com o olhar. O elenco ainda conta com Rentaro Mikuni, Shima Iwashita e Akira Ishihama, todos impecáveis.
Com nota 8.6 no IMDb, a produção impressiona pelo rigor técnico. A fotografia em preto e branco usa locações e cenários internos de maneira espetacular, criando um clima claustrofóbico e tenso. Para completar a atmosfera, a trilha sonora fantasmagórica do compositor Toru Takemitsu usa instrumentos tradicionais japoneses para dar um tom quase assustador às cenas de tensão, fazendo a gente sentir o peso do destino daquele homem em cada nota.
Como o filme se consagrou nas
premiações e quais são suas curiosidades?
O impacto do filme foi tão grande na época que ele levou o Prêmio do Júri no prestigiado Festival de Cannes em 1963, consolidando o nome de Kobayashi no cenário internacional.
Por trás das câmeras, existem detalhes que deixam tudo ainda mais impressionante:
· Para dar o máximo de realismo às cenas de combate, o diretor exigiu o uso de espadas de verdade e armas de época, fazendo com que os atores ficassem visivelmente tensos durante as gravações.
· As sequências de luta no clímax foram filmadas sob ventos fortíssimos em locações abertas na região de Kyoto, o que deu um ar bruto para os duelos.
· O diretor Masaki Kobayashi era um pacifista convicto que lutou na Segunda Guerra Mundial e foi prisioneiro de guerra; ele usou o filme para escancarar o quanto a obediência cega ao militarismo arruina vidas humanas.
Por que a crítica considera Harakiri
um clássico absoluto?
A minha leitura do filme é que ele vai muito além de uma história sobre samurais com espadas afiadas. Ele é sobre como as instituições usam discursos bonitos sobre honra e tradição apenas para manter o próprio poder, enquanto esmagam o indivíduo comum sem dó nem piedade.
A direção de cena é cirúrgica. A forma como a tensão vai aumentando aos poucos, através de diálogos afiados e de um ritmo paciente, constrói uma atmosfera em que você não consegue tirar os olhos da tela. E quando a ação finalmente acontece no terço final, ela não é gloriosa ou romântica; é dolorosa, suja e desesperada. Harakiri prova que um bom drama não envelhece. Mesmo com o choque cultural de ver um código de conduta tão distante do nosso dia a dia, a dor humana, a busca por justiça e a dor pela perda de quem amamos são sentimentos universais que qualquer um consegue entender perfeitamente.
Se você gosta de cinema forte, com roteiro inteligente e uma mensagem
profunda, este é um daqueles filmes obrigatórios que continuam alugando um
triplex na sua cabeça muito tempo depois que os créditos sobem.
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