Já assisti a dezenas de dramas pesados, mas poucos me deram um soco no estômago tão bem dado quanto Cafarnaum (Capharnaüm). Assisti ao filme ontem e confesso que esperava só mais um filme sobre mazelas sociais. Quando terminou, fiquei em silêncio um longo tempo, encarando o teto e pensando no rumo que a humanidade está tomando.
Se você chegou até aqui querendo saber se vale a pena investir duas
horas do seu tempo nessa obra-prima do cinema libanês, já te dou a resposta
curta: vale cada segundo, mas prepare o peito. Abaixo, te conto tudo sobre os
bastidores, as curiosidades e por que essa história não vai sair da minha cabeça tão cedo.
O que torna a história de Cafarnaum
tão impactante?
A premissa do filme já começa com um nó no cérebro: acompanhamos Zain,
um garoto de apenas 12 anos que decide processar os próprios pais na justiça. O
motivo? Terem colocado ele no mundo.
Lançado em 2018, o filme se passa nas ruas
miseráveis de Beirute, no Líbano. Acompanhar a saga do Zain pelas favelas da
cidade é uma experiência desconfortante. Ele foge de casa depois que os pais vendem
sua irmã mais nova, de apenas 11 anos, para um casamento forçado. Na rua,
totalmente desamparado, ele acaba encontrando refúgio com Rahil, uma imigrante
ilegal da Etiópia, e passa a cuidar do bebê dela, o pequeno Yanos.
A narrativa te puxa pra dentro da tela. Você sente o calor, a sujeira, o
desespero e a responsabilidade absurda que cai nas costas de uma criança que
deveria estar na escola jogando bola, mas precisa virar homem à força pra não
morrer de fome.
Quem são as mentes e rostos por trás
da obra?
A direção genial fica por conta de Nadine Labaki, que
fez um trabalho absurdo de sensibilidade e coragem ao filmar nas locações reais
das periferias de Beirute. O ambiente não é cenário de estúdio; é a vida real
nua e crua.
O elenco dá um show à parte, principalmente porque a maioria ali nem
ator profissional era:
·
Zain Al Rafeea (como Zain): O garoto dá uma aula de
atuação sem esforço.
·
Yordanos Shiferaw (como Rahil): Uma interpretação
dolorosa e realista da luta das imigrantes.
·
Boluwatife Treasure Bankole (como o bebê
Yanos): Entrega uma carisma inacreditável na tela.
·
Nadine Labaki (como Nadine, a advogada de Zain).
A trilha sonora, composta por Khaled Mouzanar (que
inclusive é marido da diretora), entra nos momentos exatos. Ela não tenta te
obrigar a chorar com violinos dramáticos; as músicas surgem de forma sutil,
quase como um eco do vazio e da solidão daquele cenário.
Quais prêmios e curiosidades marcaram
o filme?
Não é à toa que o filme alcançou a nota incrível de 8.4 no IMDb e conquistou o mundo. A trajetória de
premiações de Cafarnaum foi gigante:
·
Venceu o Prêmio do Júri no prestigiado
Festival de Cannes, onde foi aplaudido de pé por mais de 15 minutos.
·
Foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional
em 2019.
·
Recebeu indicações ao Globo de Ouro e ao BAFTA na mesma categoria.
Mas as curiosidades dos bastidores deixam tudo ainda mais
impressionante. O garoto que interpreta o protagonista, Zain Al Rafeea, era
realmente um refugiado sírio que vivia nas ruas de Beirute e não sabia ler nem
escrever quando foi descoberto pela equipe de elenco. A raiva e o cansaço que
você vê nos olhos dele no filme são reais.
Outro detalhe chocante: a atriz Yordanos Shiferaw (Rahil) foi presa na
vida real por falta de documento de permanência no Líbano apenas dois dias
depois de rodar a cena em que sua personagem é presa pelo mesmo motivo. A
realidade e a ficção se misturaram o tempo todo nessa produção.
A boa notícia no meio de tanta dor é que a repercussão do filme mudou a
vida da equipe. Zain e sua família conseguiram asilo político e hoje moram na
Noruega, em uma casa de frente para o mar, onde ele finalmente estuda e vive
como criança.
Qual é a minha crítica sobre o filme
Cafarnaum?
Pra mim, o maior mérito de Cafarnaum é não ser um filme "piedade
barata". Ele não te pede pena; ele te exige atenção e indignação. Como
homem, me peguei refletindo muito sobre o conceito de responsabilidade,
paternidade e proteção. O pai de Zain não é pintado apenas como um vilão cruel,
mas como o produto de um ciclo de miséria desumano onde adultos ignorantes
continuam gerando filhos sem a menor condição de dar dignidade a eles.
A atuação de Zain Al Rafeea é algo inesquecível. O garoto carrega o
filme nas costas com uma postura firme, um olhar duro de quem aprendeu a se
defender cedo demais, mas que ainda guarda pequenos lampejos de infância no
jeito de brincar com o bebê Yanos.
A direção de Nadine Labaki te coloca no nível do chão, na altura dos
olhos de uma criança abandonada no caos. Não é um filme fácil de assistir, te
deixa desconfortável e incomodado, mas é exatamente por isso que ele é
necessário. Cafarnaum lembra que, enquanto nos preocupamos com bobagens do dia
a dia, existem milhares de Zains espalhados pelo mundo tentando apenas
sobreviver até o pôr do sol. Se você busca um cinema real, humano e que
realmente te faça valorizar o que tem, pode dar o play sem medo.
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