Sempre fui do tipo de cara que gosta de encarar desafios de peito aberto. Quando decidi me sentar para assistir a Shoah, sabia onde estava me metendo. Já vai um aviso aos navegantes: a jornada é de 9 horas e meia de exibição e basicamente trata-se de entrevistas com sobreviventes, pessoas próximas dos campos de concentração e perpetradores, além de visitas aos lugares onde as barbáries aconteceram. Ou seja, não é para qualquer um. É como ler Guerra e Paz de Tolstoi: muitos conhecem pelo nome, mas poucos têm a coragem de encarar o calhamaço.
Lancei o olhar sobre a obra sem buscar entretenimento rápido, mas sim uma experiência crua sobre a história humana. E o que encontrei ali mudou completamente minha perspectiva sobre o cinema documental.
Qual é o contexto inicial e a
história por trás de Shoah?
Lançado originalmente em 1985, o filme tem como título original apenas Shoah (termo em hebraico que significa "catástrofe" ou "desolação", usado para se referir ao Holocausto).
A direção é do jornalista e cineasta francês Claude Lanzmann, um sujeito de uma obstinação impressionante. Ele levou cerca de 12 anos para pesquisar, gravar e montar esse monumento visual. O ponto mais importante aqui é o que Lanzmann escolheu não fazer: ele não usou nem um único segundo de arquivo de época. Não há fotos antigas, nem cenas de arquivos militares. Tudo o que vemos são os rostos do presente olhando para as cicatrizes do passado.
Com uma avaliação impressionante de 8,5 no IMDb (e 100% de aprovação no Rotten Tomatoes), o projeto não busca o chocante pelo sangue, mas sim pelo peso das palavras.
Quem faz parte do elenco e onde o
filme foi gravado?
Falar em "elenco" aqui pode soar estranho, já que não existem atores contratados interpretando papéis. O "cast" de Lanzmann é composto por pessoas reais que estiveram no olho do furacão:
· Sobreviventes: como Simon Srebnik (um dos poucos a escapar do acampamento de Chelmno) ou Abraham Bomba (um barbeiro forçado a cortar o cabelo das vítimas antes das câmaras de gás).
· Testemunhas e Moradores: camponeses poloneses que viviam ao lado dos campos e viam os trens passando todos os dias.
· Perpetradores: ex-oficiais nazistas e burocratas que ajudaram a organizar a logística do massacre.
· Especialistas: como o historiador Raul Hilberg, que detalha a assustadora máquina administrativa alemã.
As locações funcionam praticamente como personagens silenciosos. Lanzmann viajou para os locais exatos onde tudo aconteceu: a Polônia (visitando as ruínas de Auschwitz-Birkenau, Treblinka e Chelmno), além de rodar cenas na França, Alemanha, Israel e Estados Unidos.
Sobre a trilha sonora: ela simplesmente não existe no sentido tradicional. Não há orquestra ao fundo tentando manipular sua emoção ou indicar quando você deve chorar. O som ambiente — o barulho dos trens, o vento nas árvores da Polônia, o silêncio pesado entre uma resposta e outra — é a única música que você escuta. E garanto: esse silêncio ecoa na mente por dias.
Quais premiações e curiosidades
marcam essa obra-prima?
Um trabalho com essa dimensão não passou despercebido pela crítica internacional. Shoah conquistou prêmios de peso, incluindo:
· Prêmio BAFTA de Melhor Documentário.
· César Honorário da Academia Francesa de Cinema para Claude Lanzmann.
· Prêmios das associações de críticos de Nova York, Los Angeles e Boston.
· Prêmio FIPRESCI no Fórum do Festival de Berlim.
Entre as curiosidades mais marcantes dos bastidores, vale destacar como o diretor conseguiu arrancar depoimentos dos ex-nazistas. Muitos deles se recusavam a falar na câmera. Para contornar isso, Lanzmann usou uma tecnologia pioneira para a época: uma câmera minúscula escondida em uma bolsa (a Paluche), conectada a um transmissor enquanto uma equipe do lado de fora gravava os sinais. Em mais de uma ocasião, o diretor foi descoberto, ameaçado e até agredido fisicamente.
Outro detalhe impressionante: Lanzmann acumulou mais de 350 horas de gravações para chegar aos cortes finais do filme. O nível de obsessão e rigor histórico foi algo poucas vezes visto no cinema.
Qual é a crítica definitiva sobre a
experiência de assistir a Shoah?
Assistir a Shoah é um teste de resistência física e mental, mas é uma daquelas obrigações morais que a gente assume como amante da história e da arte de verdade.
O maior trunfo da abordagem de Lanzmann é expor a banalidade do mal. Ele não foca na monstruosidade abstrata; ele foca nos detalhes burocráticos. Você vê condutores de trem conversando sobre horários de viagens, burocratas discutindo tarifas de passagens ferroviárias para transporte de pessoas, e percebe como o horror foi institucionalizado como um trabalho qualquer de escritório.
Ver o barbeiro Abraham Bomba tentando manter a compostura enquanto simula o corte de cabelo num salão atual, ou ouvir Simon Srebnik cantando num barco no rio enquanto camponeses ao redor lembram dos acontecimentos com uma naturalidade assustadora, são momentos que ficam gravados na retina.
É
uma obra-prima sem precedentes. Se você tem coragem de encarar o passado sem
anestesia e quer entender até onde a humanidade pode ir quando a empatia é
desligada, reserve o seu tempo. Não é um filme para um domingo à tarde
despretensioso, mas garanto que, quando os créditos subirem, você não será
exatamente a mesma pessoa.
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