X-A Marca da Morte (X)

 


Eu preciso confessar logo de cara que pisei feio na bola. Assisti recentemente a MaXXXine sem saber que o filme era, na verdade, o encerramento de uma trilogia. Quando a ficha caiu e percebi a burrada, dei um passo para trás na hora e fui direto assistir ao primeiro longa para entender todo o contexto da história. Agora estou aqui, publicando a minha resenha sobre o começo de tudo. Inclusive, amanhã sem falta vou assistir ao segundo capítulo (Pearl) e volto para publicar a análise dele por aqui. 

Se você gosta de um bom filme de terror raiz, daqueles que prestam uma baita homenagem ao cinema dos anos 1970, precisa prestar atenção no que a produtora A24 aprontou desta vez. 

O que torna X - A Marca da Morte um terror tão fora da curva?

Lançado em 2022, o longa carrega o título original simples e direto de X. Ele atualmente mantém uma nota muito sólida de 6,6 no IMDb, o que para o gênero de terror atual é um excelente indicativo de qualidade. 

O filme nos joga de cabeça em 1979. Acompanhamos um grupo de jovens cineastas independentes e atores que alugam uma pequena casa de hóspedes na zona rural do Texas. O objetivo da turma é audacioso e simples: gravar um filme adulto de alta qualidade para faturar alto no emergente mercado de home vídeo. Só que eles cometem o erro fatal de não avisar os idosos donos da propriedade sobre o verdadeiro teor das gravações. Conforme a noite cai e as filmagens acontecem, os proprietários descobrem o que está rolando e o clima festivo transforma-se em um banho de sangue.

Quem está por trás e na frente das câmeras nessa obra?

A mente brilhante no comando do projeto é o diretor Ti West, um velho conhecido de quem aprecia o cinema de horror focado em tensão progressiva. Ele não apenas dirigiu, mas também escreveu e editou o filme, mostrando um controle absoluto sobre o ritmo da narrativa. 

O elenco entrega atuações afiadas e muito acima da média para o gênero slasher:

·         Mia Goth: Dá um show absoluto e brilha em papel duplo como a jovem e ambiciosa Maxine Minx e também como a assustadora idosa Pearl (com uma maquiagem prostética impressionante). 

·         Jenna Ortega: Interpreta Lorraine, a jovem tímida encarregada do som que aos poucos vai se transformando ao longo da trama. 

·         Brittany Snow: Vive Bobby-Lynne, a atriz principal da produção dentro do filme, cheia de carisma. 

·         Kid Cudi (Scott Mescudi): Faz o papel de Jackson, o ator principal e veterano da guerra do Vietnã. 

·         Martin Henderson: Interpreta Wayne, o produtor empolgado e visionário que lidera a equipe. 

Curiosamente, embora a história se passe no interior texano, toda a locação das filmagens aconteceu na Nova Zelândia. O diretor rodou a obra em segredo durante a pandemia de COVID-19, aproveitando a segurança sanitária do país na época para erguer a fazenda do zero.

Como a trilha sonora e o clima do filme te envolvem?

A trilha sonora é um espetáculo à parte e merece destaque. Composta por Tyler Bates ao lado da cantora synth-pop Chelsea Wolfe, a música alterna entre batidas tensas que pesam no peito e canções icônicas da época, como uma versão marcante da clássica Oui, Oui, Marie. O som trabalha o tempo todo para te colocar dentro daquela atmosfera abafada e esquisita do final dos anos 70. 

A aceitação da crítica foi tão pesada que o filme abocanhou diversas premiações em festivais especializados. X venceu categorias de Melhor Filme de Horror no Saturn Awards e no Critics' Choice Super Awards, consolidando Mia Goth como uma das grandes rainhas do grito da nossa geração. 

Uma das maiores curiosidades dos bastidores é que Ti West escreveu o roteiro da pré-sequência, Pearl, enquanto ainda estava rodando X na Nova Zelândia. Ele aproveitou a mesma equipe e o mesmo cenário para gravar os dois filmes praticamente em sequência, algo pouquíssimo visto na indústria.

Vale mesmo a pena assistir a este slasher moderno?

Vale cada minuto investido. O grande mérito de Ti West aqui é não entregar apenas mais um massacre genérico com gente jovem sendo esquartejada. Existe uma camada muito interessante de debate sobre o envelhecimento, a inveja da juventude e a repressão de desejos. 

O visual do filme bebe diretamente na fonte de clássicos como O Massacre da Serra Elétrica (1974), mas sem parecer uma cópia barata. A câmera passeia pela fazenda criando uma sensação constante de que algo terrível está prestes a acontecer no canto da tela. As cenas de morte são brutais, diretas, sem aliviar o impacto, mas usadas no momento exato em que a tensão atinge o limite. 

Mesmo tendo começado a jornada pelo fim ao assistir MaXXXine primeiro, ver como toda essa história começou deu um peso totalmente novo para o universo da franquia. Amanhã é dia de maratonar Pearl e fechar o quebra-cabeça de vez.

 

Maxxxine

 


Quando sentei para assistir a MaXXXine, fecho da trilogia iniciada por Ti West em 2022 com X e Pearl, sabia que não encontraria um slasher comum. O cinema de horror recente tem tentado ser intelectual demais, esquecendo a atitude, o sangue e o impacto. Esse filme resgata exatamente essa energia, entregando uma obra com identidade marcante, visual neoclássico e uma protagonista que recusa o papel de vítima. 

Lançado em 2024, MaXXXine ostenta uma nota média de 6.3 no IMDb, um número honesto para uma produção do gênero que divide opiniões, mas entrega entretenimento cru e direto. O título original mantém o nome da protagonista Maxine Minx, interpretada pela incansável Mia Goth, sob a direção afiada de Ti West.

Como o cenário de Hollywood nos anos 80 transforma a narrativa de MaXXXine?

A trama nos projeta diretamente para Los Angeles em 1985. O pano de fundo é a era de ouro do VHS, o neon dos cinemas de rua e a sombra real do assassino em série conhecido como Night Stalker, que aterrorizou a Califórnia na época. Maxine já deixou o cinema adulto underground para trás e tenta uma chance na sequência de um filme de terror B de grande orçamento. 

A escolha de Los Angeles e dos estúdios da Universal Pictures como locação dá um peso prático e nostálgico absurdo. Há cenas rodadas diretamente nos cenários clássicos do estúdio — incluindo a icônica casa de Psicose —, o que conecta o filme à própria história do cinema de suspense. Essa atmosfera oitentista não funciona apenas como estética, mas como um ambiente hostil onde cada esquina esconde perigo e ambição desmedida.

Qual é o grande diferencial do elenco e da trilha sonora?

O elenco reunido por Ti West entrega atuações sólidas que sustentam a tensão. Mia Goth lidera a produção com uma segurança impressionante. Maxine é implacável, fria quando precisa ser e totalmente focada no objetivo de ser uma estrela. Ao lado dela, temos um time pesado: Kevin Bacon faz um detetive particular de terno barato e moral duvidosa; Giancarlo Esposito brilha como um agente pragmático da indústria adulta; e Elizabeth Debicki interpreta a diretora britânica exigente do filme dentro do filme. Completam o time nomes como Michelle Monaghan, Bobby Cannavale e a cantora Halsey.

A trilha sonora original, composta por Tyler Bates, conversa perfeitamente com faixas clássicas da década de 1980. Músicas como Gimme All Your Lovin' do ZZ Top, Self Control de Laura Branigan e Welcome to the Pleasuredome do Frankie Goes to Hollywood pontuam a jornada de Maxine com batidas pesadas e marcantes. A música atua como combustível nas cenas de ritmo acelerado e dá o tom exato das ruas de L.A. naquela década.

Quais bastidores e curiosidades tornam a produção única?

O desenvolvimento do longa carrega detalhes interessantes de produção e recepção no circuito de festivais:

·         Trilogia gravada em ritmo acelerado: Ti West escreveu o roteiro de Pearl em segredo enquanto filmava X na Nova Zelândia, o que permitiu engrenar a pré-produção de MaXXXine com a franquia no auge da popularidade. 

·         Indicações e Reconhecimento: A obra conquistou espaço no circuito especializado de gênero, recebendo indicações no Saturn Awards de 2025 para Melhor Filme Independente e no Make-Up Artists and Hair Stylists Guild Awards pelo trabalho de maquiagem e caracterização de época. 

·         Gravações em cenários históricos: A produção obteve permissão para filmar no backlot real da Universal Studios, permitindo sequências de perseguição por cenários clássicos que marcaram a era de ouro do cinema norte-americano. 

·         Construção de personagem sem concessões: Ao contrário das "final girls" tradicionais do horror que apenas sobrevivem, Maxine assume uma postura ativa e agressiva contra qualquer ameaça. 

Vale a pena assistir a essa conclusão da franquia?

O filme funciona como um neo-noir manchado de sangue e luzes de neon. Se em X o foco era o horror slasher cru e em Pearl tínhamos um estudo de personagem psicológico, MaXXXine entrega uma sátira da indústria do entretenimento combinada com investigação policial e assassinato. 

A direção de Ti West é precisa nos ângulos de câmera, no uso de telas divididas e na estética VHS que remete aos filmes alugados em locadoras nos anos 80. O roteiro perde um pouco de força no terceiro ato ao resolver o mistério principal de forma mais apressada do que o esperado, mas o carisma e a brutalidade de Mia Goth compensam qualquer deslize técnico. É um encerramento firme, com estilo de sobrou e uma protagonista que não pede licença para se impor no ecrã.

 

Bancando o Águia (Sherlock Jr.)

 


Dia desses, conversando com um amigo no café sobre como os efeitos visuais de hoje parecem artificiais, me deu uma vontade enorme de rever um clássico absoluto que exemplifica a essência do cinema puro. Botei para rodar Bancando o Águia, conhecido no título original como Sherlock Jr.. 

Lançado em 1924, esse clássico do cinema mudo tem apenas 45 minutos de duração, mas entrega mais impacto, audácia e ritmo do que muito blockbuster moderno de três horas. Com uma nota impressionante de 8,2 no IMDb, a obra é uma verdadeira aula de como fazer arte com físico, precisão e uma câmera na mão. 

Se você gosta de produções com tomadas insanas e quer entender de onde vem a inspiração para diretores como Christopher Nolan e atores como Tom Cruise, precisa conhecer a fundo este marco da sétima arte.

Por que a genialidade de Buster Keaton mudou o cinema?

A grande força por trás dessa obra atende pelo nome de Buster Keaton, que além de estrelar o longa, assume a direção com maestria. Conhecido como "O Homem que Nunca Sorri" por conta de sua expressão impassível perante as situações mais absurdas, Keaton construiu aqui uma das narrativas mais inventivas da história. 

A trama é direta e sem enrolação. Ele interpreta um humilde projecionista de cinema que sonha em ser um grande detetive. Quando um rival o incrimina pelo roubo do relógio do pai da garota por quem é apaixonado, ele acaba expulso da casa dela. Desolado, volta para a cabine de projeção e pega no sono. É aí que a mágica acontece: sua "alma" sai do corpo, caminha até a sala de exibição e entra literalmente para dentro da tela do cinema para resolver o mistério no filme que está sendo exibido. 

O elenco conta com nomes fundamentais do cinema mudo:

·         Buster Keaton como o Projeçãoista / Sherlock Jr. 

·         Kathryn McGuire como A Garota 

·         Joe Keaton (pai de Buster na vida real) como o Pai da Garota 

·         Ward Crane como o Rival / Vilão 

·         Erwin Connelly como o Mordomo 

As gravações rolaram em locações na Califórnia, incluindo Los Angeles e os estúdios em Hollywood. A trilha sonora, como era de praxe na era muda, não existia em uma versão única gravada para o lançamento original, sendo executada por orquestras ao vivo nos cinemas. Com o passar das décadas, o filme ganhou partituras memoráveis compostas por nomes como Timothy Brock e a Club Foot Orchestra, que dão a cadência perfeita para o ritmo acelerado das cenas de ação.

Quais são as manobras e truques mais impressionantes do filme?

Falar de Sherlock Jr. sem mencionar os bastidores e os riscos envolvidos é impossível. Naquela época não existia tela verde, dublê de CGI ou recursos digitais. Se um personagem caía de um prédio ou pulava em um trem em movimento, o ator realmente estava lá fazendo aquilo. 

Keaton era um atleta impecável e fazia questão de executar cada uma das suas cenas de perigo. Separando o joio do trigo, reuni os fatos mais insanos sobre a produção:

·         Pescoço quebrado em cena: Durante a famosa cena da torre de água, Keaton se pendura no cano de um reservatório enquanto um trem passa por baixo. A descarga de água que cai sobre ele foi tão violenta que o jogou contra os trilhos de ferro. Ele sentiu dores de cabeça fortíssimas na época, mas seguiu filmando. Décadas depois, em um exame de rotina, descobriu que tinha fraturado uma vértebra do pescoço naquela queda. 

·         Edição de ilusionista: A cena em que ele entra na tela de cinema exigiu que a equipe medisse a distância da câmera e as lentes com precisão milimétrica para alinhar a projeção com a cena real. 

·         Sem premiações na época, mas histórico hoje: Por ser um filme de 1924, antecede a criação do Oscar (que só começou em 1929). No entanto, o reconhecimento veio com o tempo: o filme foi preservado no National Film Registry da Biblioteca do Congresso americano por sua relevância cultural e histórica. 

Como a linguagem visual constrói uma crítica ao próprio cinema?

O que torna Bancando o Águia uma obra-prima que resiste ao tempo é a sua capacidade de ser extremamente divertida e, ao mesmo tempo, reflexiva. Keaton constrói uma crítica sutil e brilhante sobre o poder do cinema como válvula de escapismo. 

No mundo real, o protagonista é um cara comum, meio desajeitado, que ganha pouco e é passado para trás pelo rival. Mas, dentro da tela, ele projeta seus desejos de ser um homem imbatível, elegantemente vestido, capaz de desvendar qualquer enigma e derrotar os vilões com precisão mecânica. 

A sequência em que o cenário ao redor do protagonista muda enquanto ele tenta se adaptar — passando de um jardim para um deserto, depois para um penhasco e para o meio do oceano — é uma metáfora perfeita para a linguagem da montagem cinematográfica. É o cinema consciente de si mesmo, feito por um diretor que entendia a mecânica da câmera melhor do que qualquer um de seu tempo.

Vale a pena assistir Bancando o Águia nos dias de hoje?

Se você aprecia um trabalho técnico feito na raça, a resposta é um sonoro sim. Bancando o Águia não envelheceu um dia sequer no quesito entretenimento. A sequência final, que envolve uma perseguição de motocicleta em que Keaton anda no guidão sem motorista, é de deixar qualquer um de queixo caído pela precisão matemática da execução. 

Diferente de muitas produções antigas que exigem paciência do espectador moderno, a obra de 1924 tem um ritmo rápido, ágil e focado na ação física de altíssimo nível. É o tipo de filme que nos faz recuperar o respeito pelo trabalho braçal dos dublês e pela criatividade pura dos pioneiros do cinema. 

Pegue um café, reserve pouco menos de uma hora do seu dia e assista a essa verdadeira joia. É diversão garantida e uma aula de como se faz cinema de verdade.

 

A Mulher da Fila (La Mujer de la Fila)

 


Se tem uma coisa que aprecio no cinema latino-americano é a capacidade de pegar uma realidade crua, sem maquiagem, e transformar em uma narrativa que te prende do começo ao fim. Foi exatamente com essa expectativa que me sentei para assistir A Mulher da Fila (La mujer de la fila), e preciso confessar que o filme entrega um soco no estômago com extrema precisão. 

O longa argentino, lançado em setembro de 2025, traz uma carga dramática intensa ao acompanhar a jornada de Andrea, interpretada por Natalia Oreiro. A história gira em torno de uma mãe que vê sua vida virar do avesso quando seu filho de 18 anos é preso, acusado de um crime que ela tem certeza de que ele não cometeu. A partir daí, ela se vê forçada a encarar a burocracia, a violência e o preconceito do sistema carcerário, ao mesmo tempo em que precisa encarar as longas e desgastantes filas na porta do presídio todas as semanas. 

Se você curte produções densas, inspiradas em acontecimentos reais e com aquela pegada pé no chão que faz pensar, este filme precisa entrar na sua lista. Abaixo, analiso os principais pontos dessa obra.

Qual é a história por trás de A Mulher da Fila?

O roteiro acompanha Andrea, uma mulher de classe média que nunca se imaginou pisando na porta de uma prisão. Tudo muda quando seu filho, um jovem comum, acaba detido de forma injusta. Para tentar provar a inocência do rapaz e garantir sua sobrevivência lá dentro, ela entra no universo das "mulheres da fila": mães, esposas e irmãs que passam horas em pé aguardando o momento da visita. 

Aos poucos, Andrea percebe que a verdadeira batalha não é apenas contra a lentidão da Justiça, mas contra o próprio preconceito que ela mesma carregava sobre aquele ambiente e sobre as pessoas que ali vivem. O drama ganha camadas de tensão quando uma nova paixão surge no meio desse caos, fazendo-a reavaliar suas crenças sobre redenção, afeto e sobrevivência.

Quem está por trás da produção e do elenco do filme?

A direção de A Mulher da Fila está nas mãos de Benjamín Ávila, cineasta conhecido pelo aclamado Infância Clandestina. Ávila sabe trabalhar o drama humano sem cair no sentimentalismo barato, conduzindo o ritmo com a pegada firme de um suspense psicológico. 

No elenco principal, os destaques são:

·         Natalia Oreiro como Andrea: uma atuação madura, contida e forte. 

·         Amparo Noguera: entrega uma performance sólida como uma das companheiras de fila de Andrea. 

·         Alberto Ammann: traz densidade ao elenco com um papel-chave no desenvolvimento dramático da trama. 

·         Federico Heinrich: interpreta o filho encarcerado, transmitindo o desespero e a vulnerabilidade da situação. 

A trilha sonora opera nos bastidores de forma sutil, usando silêncios prolongados e sons ambientes da própria prisão para construir uma atmosfera sufocante, sem precisar recorrer a músicas melodramáticas para reforçar a emoção.

Onde o longa foi filmado e quais são suas curiosidades?

Um dos pontos mais impressionantes da produção é a sua locação real. As filmagens ocorreram na Argentina, com cenas gravadas diretamente no Complexo Penitenciário Federal I de Ezeiza. Essa escolha trouxe uma textura documental e hiper-realista para as cenas das visitas e das inspeções de segurança. 

Entre as curiosidades da obra, destacam-se:

·         História Real: O filme é baseado na trajetória real de Andrea Casamento, fundadora da Associação de Familiares de Detidos na Argentina. 

·         Pioneirismo nas Filmagens: Foi o primeiro longa-metragem de ficção autorizado a filmar dentro das instalações do presídio de Ezeiza, o que exigiu protocolos rigorosos de segurança durante o rodízio das gravações. 

·         Atuação de Ex-Detentas: A produção contou com a participação de mulheres reais que frequentam as filas de presídios como figurantes e consultoras de roteiro, agregando autenticidade aos diálogos e gestos. 

Com uma nota média na casa dos 6.5 no IMDb, o longa conquistou espaço em festivais internacionais e rodou o mercado de cinema com destaque, garantindo distribuição global via plataformas de streaming como a Netflix.

Vale a pena assistir A Mulher da Fila?

Vale muito a pena, especialmente se você gosta de cinema com substância. O filme não tenta florear a realidade nem oferecer soluções fáceis para problemas estruturais do sistema carcerário. Ele funciona porque foca na perspectiva de quem está do lado de fora, sustentando a rotina do lar enquanto tenta manter a dignidade de quem está lá dentro. 

A direção de Benjamín Ávila acerta ao equilibrar o drama familiar com uma tensão constante de thriller. Não é um filme sobre mocinhos e vilões caricatos; é sobre sobrevivência, empatia e a força do vínculo familiar frente a uma máquina burocrática esmagadora. Se você busca uma narrativa envolvente, bem atuada e sem rodeios, A Mulher da Fila é uma excelente escolha para a sua próxima sessão.

 

Sob o Domínio do Mal (The Manchurian Candidate)

 

Às vezes fico me perguntando para onde a gente está caminhando. Você abre o jornal e vê ex-presidente condenado e depois descondenado, papo de golpe de estado sendo tramado em gabinete, o crime organizado com PCC e Comando Vermelho mandando em estado inteiro e interferindo na política local... Dá a sensação de que o poder de verdade nunca esteve nas mãos de quem a gente vota, mas de peças muito maiores se movendo nos bastidores. 

Foi justamente pensando nessa confusão toda que decidi reassistir a um baita suspense do início dos anos 2000. Um filme que trata exatamente disso: como o sistema pode ser manipulado sem a gente nem perceber.

Por que Sob o Domínio do Mal é tão atual?

Lançado em 2004, Sob o Domínio do Mal (título original: The Manchurian Candidate) é um daqueles thrillers políticos que parecem ter previso a paranoia do mundo moderno. A trama é uma refilmagem do clássico de 1962, mas adaptada com maestria para o cenário pós-Guerra do Golfo. 

O enredo acompanha o major Bennett Marco, um veterano de guerra que começa a ter pesadelos estranhos e flashes de memória que não batem com a versão oficial da sua história. Ele lembra que seu companheiro de tropa, Raymond Shaw, salvou todo mundo e virou um herói nacional condecorado. O problema é que Shaw agora é candidato a vice-presidente dos Estados Unidos, impulsionado por uma mãe ambiciosa e por uma megacorporação sem escrúpulos. Aos poucos, Marco percebe que a mente deles foi manipulada e implantada com microchips para transformá-los em marionetes políticas. 

Com uma nota sólida de 6.6 no IMDb, o filme entrega exatamente aquele tipo de conspiração que faz a gente coçar a cabeça e questionar quem realmente manda nas decisões de uma nação.

Quem são as mentes por trás dessa conspiração?

A direção ficou por conta do talentoso Jonathan Demme — o mesmo cara que dirigiu O Silêncio dos Inocentes —, e ele sabe como deixar o espectador agoniado. O elenco é uma verdadeira seleção de elite:

·         Denzel Washington: interpreta o Major Bennett Marco com aquela intensidade visceral e desesperada de quem sabe que está sendo feito de louco. 

·         Liev Schreiber: vive Raymond Shaw, o soldado transformado em candidato fantoche, entregando uma atuação fria e cheia de camadas. 

·         Meryl Streep: faz a senadora Eleanor Prentiss Shaw, a mãe controladora. Ela rouba cada cena com uma frieza assustadora e uma atuação magistral. 

·         Jon Voight e Vera Farmiga: completam o elenco em papéis chave para o desenrolar do complô político. 

A produção rodou boa parte das suas cenas entre Nova York e Nova Jersey, além de gravar nos estúdios da Paramount na Califórnia. Essa ambientação urbana e corporativa ajuda a dar aquele tom claustrofóbico e realista para a narrativa.

Vale a pena prestar atenção na trilha sonora e nos bastidores?

Com certeza. A trilha sonora composta por Rachel Portman trabalha em silêncio para construir um clima constante de paranoia e tensão. A música não tenta saltar à frente da história, mas serve como um motor contínuo que te deixa desacreditado de tudo o que está vendo na tela. Destaque também para a releitura da música "Fortunate Son" pelo Wyclef Jean, que casa perfeitamente com o tom crítico do filme. 

Nos bastidores e circuito de premiações, quem brilhou de verdade foi Meryl Streep. A atuação dela foi tão marcante que rendeu indicações ao Globo de Ouro e ao BAFTA de Melhor Atriz Coadjuvante. 

Uma curiosidade bacana: no filme original de 1962, a lavagem cerebral era feita por chineses e soviéticos em plena Guerra Fria. Na versão de 2004, o diretor decidiu trocar o inimigo geopolítico por algo muito mais condizente com os dias de hoje: uma corporação privada chamada Manchurian Global. Ou seja, o verdadeiro perigo deixou de ser um país estrangeiro e passou a ser o poder econômico manipulando a democracia por dentro. 

Outro detalhe curioso: Tina Sinatra, filha de Frank Sinatra (que estrelou o filme original), atuou como uma das produtoras executivas deste remake.

Como o filme se sai como uma crítica ao poder?

Olhando para a obra como um todo, o filme é um prato cheio para quem gosta de suspense psicológico de alto nível. Jonathan Demme consegue construir uma atmosfera sufocante, onde a câmera cola no rosto dos personagens de um jeito que você sente a paranoia deles na pele. 

A grande sacada aqui é mostrar que o maior inimigo da liberdade não é necessariamente uma força militar invasora, mas a manipulação invisível. O roteiro escancara o cinismo da política tradicional, a ganância das grandes corporações e a facilidade com que a opinião pública pode ser moldada por narrativas fabricadas. 

Para mim, o filme envelheceu super bem. Em uma era de fake news, algoritmos que moldam o comportamento de massas e manobras políticas duvidosas acontecendo debaixo do nosso nariz no Brasil e no mundo, a história soa quase como um aviso. É o tipo de cinema que diverte, mas que deixa um nó na garganta quando os créditos começam a subir. Se você curte uma trama inteligente, bem atuada e com muita tensão, pode dar o play sem medo.

 


Bom Garoto (Good Boy) (Heel)

 

Sabe aquele tipo de filme que te deixa desconfortável na cadeira, mas de onde você simplesmente não consegue tirar os olhos? Foi exatamente o que senti quando assisti a Bom Garoto (Good Boy, e que também circulou sob o título original Heel). 

Eu estava procurando algo pesado e instigante para o fim de semana, sem essa enrolação habitual de Hollywood. Dei de cara com essa produção britânico-polonesa lançada em 2025, exibida primeiro no Festival de Toronto, e resolvi arriscar. 

O filme conta a história de Tommy, um rapaz de 19 anos atolado até o pescoço em drogas, pequenos crimes e brigas de rua. Só que, numa noite, depois de exagerar na bebida, ele é sequestrado. Quando acorda, está preso por uma corrente no porão de um casal de aparência pacata e rica. A intenção do casal não é pedir resgate ou torturá-lo por sádico prazer, mas algo muito mais bizarro: eles querem "reabilitar" o garoto à força e transformá-lo em um homem de bem. 

O choque de realidade é imediato. Na nota do IMDb o filme marca 6,8, o que acho justo para uma obra tão visceral e fora da curva.

Do que se trata o enredo de Bom Garoto?

A premissa é um soco no estômago. O roteiro acompanha essa dinâmica bizarra de criação militar/paterna forçada. O patriarca Chris, interpretado pelo gigante Stephen Graham, é aquele cara que passa uma calma assustadora, mas resolve qualquer desobediência com surras cirúrgicas ou um choque de taser. Do outro lado temos sua esposa Kathryn, vivida por Andrea Riseborough, que adota uma postura mais maternal, dando livros ao garoto e tentando acolhê-lo. 

No papel do jovem delinquente Tommy, Anson Boon dá um show de interpretação. O rapaz passa da raiva incontrolável a uma mansidão forçada por pura sobrevivência. Aos poucos, você percebe que a relação entre o sequestrador e o refém ganha camadas perturbadoras de uma Síndrome de Estocolmo invertida e distorcida.

Quem está por trás da direção e do elenco?

A direção é do polonês Jan Komasa, o mesmo cara por trás do excelente Corpus Christi e de Rede de Ódio. Komasa tem a mão precisa para filmar a degradação humana e dilemas morais sem julgamentos panfletários. 

No elenco, Stephen Graham entrega mais uma atuação brutal e milimetricamente calculada. O cara domina a tela só no olhar. Andrea Riseborough equilibra o tom com uma persona enigmática, enquanto Anson Boon segura a carga dramática do filme nas costas em cenas físicas e desgastantes. Completam o time principal nomes como Kit Rakusen e Monika Frajczyk. 

A locação ajuda demais a criar esse clima claustrofóbico. Gravado na zona rural de Yorkshire, na Inglaterra, o filme contrasta a beleza natural e isolada das mansões do interior britânico com o confinamento macabro do porão. Para arrematar, a trilha sonora composta por Abel Korzeniowski conduz a tensão sem ser espalhafatosa, usando tons melancólicos que acentuam a loucura daquela rotina.

Quais são as principais curiosidades e premiações da produção?

O filme teve sua grande estreia no circuito dos festivais e passou com moral pelo Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF), além de ser cotado em premiações do cinema independente europeu. 

Uma curiosidade bacana sobre os bastidores é que o roteiro original foi escrito em polonês para se passar em Varsóvia. Foi o lendário produtor Jeremy Thomas quem convenceu o diretor a adaptar o projeto para a língua inglesa e ambientá-lo no Reino Unido, visando um público maior. Outro detalhe marcante é que o título de trabalho durante boa parte da produção foi Heel (termo usado em inglês para mandar o cão andar junto ao calcanhar do dono), o que deixa bem clara a metáfora de adestramento do garoto.

Vale a pena assistir a essa crítica sobre a natureza humana?

Na minha visão, vale muito a pena. Bom Garoto é um thriller psicológico cru que não apela para sustos fáceis. O filme questiona até que ponto a violência do Estado ou da sociedade gera monstros, e se a dita "civilidade" não passa de uma máscara refinada para a própria barbárie. 

A direção de arte coloca você dentro daquela casa, sentindo o peso das correntes e a paranoia constante de uma tentativa de fuga. A transformação psicológica de Tommy ao longo dos 110 minutos de projeção é incômoda, principalmente com o desfecho irônico e provocativo que o diretor entrega. 

Se você curte produções tensas, bem atuadas, focadas em comportamento humano e com aquele toque sombrio do cinema europeu, pode dar o play sem medo. É um filme para trocar uma ideia depois e ficar pensando por um bom tempo.