Sempre que me perguntam qual é o filme definitivo sobre crime, amizade e o peso inegável do tempo, minha resposta não hesita: Era Uma Vez na América. O título original, Once Upon a Time in America, antecipa que não estamos diante de uma história comum de gângsteres, mas de um verdadeiro conto de fadas sombrio sobre a ambição e o remorso.
Lançado
em 1984, o longa ostenta uma sólida nota 8.3 no IMDb, refletindo
seu status de cult entre os amantes da sétima arte. Dirigido pelo mestre italiano Sergio Leone, este projeto
foi a grande obsessão de sua carreira e, infelizmente, o seu último trabalho no
cinema.
Por que Era Uma Vez na América é
considerado a obra-prima de Sergio Leone?
Para entender o impacto da obra, precisamos voltar ao contexto de sua
criação. Leone já era uma lenda viva pelos faroestes espaguete, mas passou mais
de uma década recusando outros projetos para tirar esse sonho do papel. O roteiro foi baseado no livro autobiográfico The Hoods,
escrito por Harry Grey sob um pseudônimo enquanto cumpria pena.
O diferencial do filme está na forma como aborda a nostalgia e a
decadência. Não há romantização boba da vida do crime. Em vez disso, acompanhamos
como escolhas feitas na juventude cobram seu preço décadas depois. O uso
impecável de transições temporais via flashback faz com
que o espectador navegue entre a infância no gueto judaico de Nova York nos
anos 1920, o ápice do crime organizado na era da Lei Seca nos anos 1930 e a
melancolia do reencontro em 1968.
Qual é a história e como o elenco dá
vida a este épico sobre lealdade e traição?
A trama acompanha David "Noodles" Aaronson e sua gangue de
amigos de infância, com destaque para a relação complexa e tensa entre Noodles
e Max.
O elenco reunido por Leone é simplesmente espetacular:
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Robert De Niro entrega uma atuação magnânima como
Noodles adulto, transmitindo um cansaço e um arrependimento de quem carrega fantasmas
demais na bagagem.
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James Woods dá um show como Max, imprimindo uma
ambição visceral e perigosa ao personagem.
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Elizabeth McGovern e uma jovem Jennifer Connelly (em sua estreia no cinema)
interpretam Deborah, o eterno e inalcançável amor de Noodles.
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O
time ainda conta com participações de peso de Joe Pesci, Burt Young,
Treat Williams e William Forsythe.
A química entre os atores mirins na primeira fase do filme estabelece
uma base emocional forte. Quando o grupo cresce e os laços começam a ruir sob o
peso do dinheiro e da ganância, a dor da traição atinge o espectador com força
total.
Onde o filme foi gravado e qual o
papel da trilha sonora inesquecível?
Visualmente e sonoramente, o filme é impecável. As locações cobrem
pontos icônicos que transportam a gente diretamente para a época:
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A cena clássica da ponte de Brooklyn com as crianças foi filmada na
Washington Street, no bairro DUMBO, em Nova York.
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Várias cenas internas e de estúdio foram gravadas nos lendários estúdios
de Cinecittà, em Roma.
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As sequências de praia e hotel de luxo contaram com gravações em Veneza, Itália, e no Don CeSar Resort na Flórida.
Falando do som, é impossível mencionar este longa sem exaltar a trilha
sonora do maestro Ennio Morricone. A música não é
apenas um acompanhamento, ela é um personagem ativo da narrativa. O tema de
Deborah e as flautas de pã de Gheorghe Zamfir evocam uma melancolia profunda
que permanece na cabeça por dias após o término da sessão.
Quais premiações e curiosidades
envolvem os bastidores desse clássico do cinema?
Apesar de seu status icônico atual, a trajetória da obra nos cinemas foi
turbulenta. Nos Estados Unidos, os distribuidores cortaram brutalmente o filme
de quase 4 horas para apenas 139 minutos, organizando a história em ordem
cronológica e destruindo a estrutura poética do diretor. O resultado foi um
fracasso de bilheteria e a ausência injusta no Oscar.
Ainda assim, a versão original do diretor restaurada conquistou o
respeito que merecia:
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Venceu
2 prêmios BAFTA (Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora).
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Foi indicado a 2 Globos de Ouro, incluindo Melhor
Diretor para Sergio Leone.
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Ganhou o prêmio da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles de
Melhor Trilha Sonora.
Entre
as curiosidades mais marcantes, destaca-se o fato de Leone ter passado quase 20
anos desenvolvendo o projeto. Outro detalhe impressionante é a dedicação do
elenco: Robert De Niro chegou a pedir para conhecer pessoalmente o gângster que
inspirou o livro para estudar seus trejeitos.
Em minha crítica pessoal, vejo o filme como um estudo magistral sobre a
masculinização do orgulho, a fragilidade das amizades e a passagem inexorável
do tempo. A cena final, com o sorriso enigmático de De Niro em meio à névoa de
uma fumaça de ópio, continua sendo um dos encerramentos mais poéticos e abertos
a interpretações da história do cinema. Se você aprecia histórias densas,
atmosferas envolventes e atuações de gala, esta é uma obra que exige e
recompensa a sua atenção.