Babilônia (Babylon)

 


Se você é daqueles que pulam para os créditos finais de um filme com a cabeça explodindo, tentando processar o que acabou de ver, senta aqui e vamos trocar uma ideia. Poucos filmes nos últimos anos me deixaram tão atordoado, exausto e, de certa forma, fascinado quanto Babilônia (Babylon). É uma obra monumental, barulhenta e completamente desimpedida que mergulha de cabeça nos excessos mais profundos de Hollywood.

Eu acompanho cinema há muito tempo e confesso que poucas produções conseguem capturar a transição histórica de uma indústria com tanta visceralidade. Não é um filme para assistir enquanto mexe no celular; ou você entra na dança frenética dele, ou ele te atropela. Vamos entender como essa loucura foi construída e se realmente vale o seu tempo.

Do que se trata o filme Babilônia?

A história nos transporta para a virada dos anos 1920 para os anos 1930, um dos momentos mais caóticos da história do cinema: a transição dos filmes mudos para o cinema falado. Para quem estava no topo, o som não foi uma evolução, foi uma sentença de morte artística.

A narrativa acompanha três caminhos que se cruzam na lama e no ouro de Los Angeles. Temos Nellie LaRoy, uma jovem destemida e ambiciosa que quer o estrelato a qualquer custo; Manny Torres, um imigrante determinado a crescer nos bastidores da indústria; e Jack Conrad, um astro veterano do cinema mudo que tenta desesperadamente se manter relevante enquanto o mundo ao seu redor muda de sotaque. É uma crônica sobre ambição, decadência e a beleza autodestrutiva de se criar arte.

Quem está por trás e na frente das câmeras em Babilônia?

Lançado nos cinemas no final de 2022 (com distribuição expandida no início de 2023), o filme traz a assinatura pesada de Damien Chazelle na direção e no roteiro. Chazelle, que já tinha mostrado seu amor e sua obsessão pela música e pela velha Hollywood em Whiplash e La La Land, aqui chuta o balde de vez. Ele troca a melancolia romântica por uma energia puramente punk e febril.

O elenco é um espetáculo à parte. Margot Robbie entrega uma atuação elétrica e visceral como Nellie LaRoy, operando no limite da sanidade. Ao lado dela, Brad Pitt esbanja o carisma magnético de sempre como o decadente Jack Conrad, trazendo um tom de melancolia que equilibra o caos da trama. Mas a grande âncora emocional do filme é o ator mexicano Diego Calva, que interpreta Manny Torres e serve como os nossos olhos no meio daquele turbilhão. O time ainda conta com participações absurdas de Tobey Maguire, Jean Smart e Jovan Adepo.

Nas avaliações do público, o filme divide opiniões de forma drástica, o que se reflete na sua nota de 7.2 no IMDb. É o tipo de nota que mostra que quem gostou, amou, e quem odiou, achou insuportável. Eu fico firmemente no primeiro grupo.

Onde foi gravado o filme Babilônia e quais são suas curiosidades?

Para recriar a Los Angeles árida e em expansão da década de 1920, a produção utilizou diversas locações reais na Califórnia, incluindo o deserto de Santa Clarita, vales abertos e palácios históricos no centro de LA, como o Los Angeles Theatre e o Ace Hotel Theater. Essa escolha traz uma textura de poeira e suor que o fundo verde digital jamais conseguiria replicar.

Os bastidores dessa produção são repletos de histórias bizarras e curiosidades que combinam perfeitamente com a loucura vista em tela:

·         O papel quase foi de outra estrela: Originalmente, Emma Stone estava cotada para viver Nellie LaRoy, repetindo a parceria de La La Land com Chazelle, mas teve que sair por conflitos de agenda. Margot Robbie assumiu e transformou o papel em algo totalmente seu.

·         Ritmo insano de filmagem: Chazelle passou semanas ensaiando o filme inteiro no quintal de sua casa com os atores principais e um iPhone, só para garantir que os movimentos de câmera complexos funcionassem no set real.

·         Quantidade absurda de figurinos: A figurinista Mary Zophres criou mais de 7.000 figurinos para o filme. Só a personagem de Margot Robbie tem dezenas de trocas de roupa, cada uma refletindo sua ascensão e queda.

·         Festas reais inspiraram o caos: As cenas de festas hedonistas no início do filme foram baseadas em relatos reais de festas da época organizadas por magnatas como William Randolph Hearst e astros do cinema mudo.

Vale a pena assistir Babilônia hoje?

A minha resposta curta é: com certeza, desde que você tenha estômago e paciência para uma jornada de mais de três horas que não pede desculpas por existir.

Babilônia é uma obra-prima imperfeita. O filme abre com uma sequência de festa de trinta minutos que é um verdadeiro teste para o espectador — envolve excessos de todos os tipos, barulho, fluidos corporais e uma trilha sonora de jazz avassaladora composta por Justin Hurwitz (que, para mim, é a melhor coisa do filme). Chazelle não quer que você assista ao filme de forma confortável; ele quer que você sinta a ressaca junto com os personagens.

O que me conquista nessa obra é a dualidade. Ao mesmo tempo em que o roteiro escancara o quanto Hollywood é uma máquina de moer carne humana — descartando pessoas assim que o lucro diminui —, ele também funciona como uma das maiores cartas de amor ao cinema já filmadas. Há uma cena específica em que Manny assiste a Sinfonia Cantando na Chuva no cinema, anos depois, e percebe que, apesar de toda a dor, ele fez parte de algo eterno. Ali o filme me pegou pelo pescoço.

Se você procura uma narrativa redondinha, linear e comportada, passe longe. Mas se você respeita o cinema corajoso, que assume riscos colossais e entrega imagens que vão ficar gravadas na sua mente por semanas, pegue uma bebida, apague as luzes e encare a Babilônia de Damien Chazelle. É um soco no estômago, mas dos bons.

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