Sempre fui fã de cinema sem frescura, daqueles filmes que não precisam de explosões ou orçamentos milionários para te acertar em cheio no peito. Foi vasculhando produções independentes anos atrás que esbarrei em uma obra-prima irlandesa. Lançado em 2006, o longa atende pelo título original de Once (distribuído no Brasil como Apenas Uma Vez) e tem nota 7.8 no IMDb.
A história gira em torno de um músico de rua de Dublin que conserta
aspiradores de pó de dia e toca violão à noite, e de uma jovem imigrante tcheca
que vende flores e toca piano quando consegue uma brecha. O projeto tem direção e roteiro de John Carney, e os protagonistas
não eram nem atores profissionais: Glen Hansard (vocalista da banda The Frames)
e a cantora tcheca Markéta Irglová. O resultado é uma química crua e absurdamente honesta.
A grande sacada aqui é o realismo. Gravado nas ruas movimentadas de Dublin com câmeras de longe para não assustar os pedestres reais, o filme parece um documentário sobre a vida cotidiana de dois artistas tentando sobreviver. Não há glamour. Você sente o frio da Irlanda, o peso da rotina e a frustração de ter um talento gigante escondido em um canto escuro de uma grande cidade.
Como a trilha sonora se torna o personagem principal da história?
Esqueça os musicais tradicionais em que as pessoas começam a dançar do nada no meio da rua. Em Apenas Uma Vez, a música é a linguagem que os dois usam para desabafar aquilo que não conseguem dizer com palavras. A trilha sonora não serve só de fundo, ela é a espinha dorsal do roteiro. A música "Falling Slowly", composta e cantada pelos próprios protagonistas, é o ápice dessa sintonia. Não à toa, a canção levou o Oscar de Melhor Canção Original em 2008, superando grandes produções de Hollywood.
Quais são as melhores curiosidades sobre os bastidores da produção?
O filme foi feito com um orçamento minúsculo, cerca de 150 mil dólares, o que forçou a equipe a ser extremamente criativa. Glen e Markéta não só interpretaram os papéis principais como compuseram quase todo o repertório do filme. Outro detalhe sensacional é que o relacionamento romântico da vida real entre os dois acabou acontecendo durante as filmagens, o que explica por que a tensão subjetiva entre os dois na tela parece tão verdadeira e palpável.
O que faz da crítica de Apenas Uma Vez um consenso entre os cinéfilos?
Na minha visão, o grande triunfo do filme é a maturidade emocional. Ele se recusa a entregar os clichês fáceis das comédias românticas hollywoodianas. A relação entre o "Cara" e a "Garota" (seus personagens nem chegam a ter nomes revelados no filme) é focada na conexão artística, no respeito mútuo e na dor de escolhas não feitas. É um filme sobre o impacto profundo que certas pessoas causam em nossas vidas, mesmo quando passam por ela por pouco tempo.
Se você curte uma narrativa direta, sem enrolação e movida por uma
trilha sonora memorável, vale cada minuto do seu tempo. É o tipo de cinema
feito com alma e pouca grana que lembra a gente do motivo de gostar tanto dessa
arte.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe um comentário sobre o filme e compartilhe com seus amigos.