O Lamento (The Wailing) (Gokseong) (곡성)

 


Se tem um tipo de filme de terror que consegue me deixar pensando por dias depois que os créditos sobem, é aquele que não entrega tudo de bandeja. O Lamento (The Wailing), lançado em 2016 com o título original Gokseong, faz exatamente isso. Ele não é um terror qualquer de susto barato; é uma experiência pesada, lenta e sufocante que te puxa para dentro de uma espiral de paranoia. 

Com uma nota respeitável de 7.4 no IMDb, essa obra-prima sul-coreana mistura investigação policial, feitiçaria, xamanismo e possessão demoníaca de um jeito que pouca gente no cinema ocidental consegue fazer hoje em dia. 

Como O Lamento constrói uma atmosfera de puro pesadelo? 

O filme começa em um vilarejo rural e pacato chamado Gokseong, na Coreia do Sul. A rotina pacata da região é quebrada quando uma doença misteriosa faz com que os moradores percam a cabeça, fiquem cobertos de feridas e assassinem cruelmente as próprias famílias. O policial Jong-goo (Kwak Do-won) entra na jogada para investigar, mas o sujeito é meio atrapalhado e covarde no início, o que cria um contraste bizarro com a gravidade dos fatos. 

A direção de Na Hong-jin — mestre por trás de suspenses pesados como O Caçador (2008) — transforma a própria locação em um personagem. Filmado nas montanhas e florestas úmidas do condado real de Gokseong, o visual do filme é marcado por chuva constante, lama e uma sensação constante de isolamento. Você quase consegue sentir o cheiro de mofo e o ar gelado daquele lugar. 

A trilha sonora composta por Jang Young-gyu e Dalpalan entra no momento certo para incomodar. Em vez de temas óbvios de suspense, ela usa percussão incômoda e timbres dissonantes que aumentam a sensação de ansiedade a cada cena. 

Qual é o impacto do elenco na intensidade da história? 

O elenco dá um show, mas exige um certo acostumamento se você não está habituado ao cinema coreano. Eu particularmente acho a atuação dos atores coreanos bastante expressiva e exagerada — e aqui não é diferente. Eles não economizam no choro, nos gritos e no desespero físico. No começo, o tom do policial Jong-goo beira o cômico, mas quando a tragédia bate à porta da sua própria família e atinge sua filha (vivida espetacularmente pela jovem Kim Hwan-hee), o desespero do ator fica cru e visceral. 

O time principal ainda conta com:

·         Hwang Jung-min no papel de um xamã extravagante chamado Il-gwang. 

·         Chun Woo-hee como uma mulher misteriosa vestida de branco que aparece nas cenas dos crimes. 

·         Jun Kunimura, o ator japonês veterano que interpreta o forasteiro misterioso isolado na montanha. 

A presença de Kunimura é um dos pontos altos do filme. Ele passa uma ameaça silenciosa impressionante sem precisar dizer quase nenhuma palavra no início. 

Quais curiosidades e prêmios marcam esse clássico do terror? 

Não é à toa que O Lamento foi aclamado internacionalmente, passando pelo Festival de Cannes e varrendo premiações como o Blue Dragon Film Awards e o Asian Film Awards em categorias de Melhor Direção, Ator Coadjuvante (Jun Kunimura) e Música. 

Entre os bastidores que tornam o filme ainda mais interessante:

·         A cena do ritual xamânico liderada por Hwang Jung-min dura cerca de 15 minutos na tela e foi filmada praticamente sem cortes longos. Dizem que consultores xamãs reais acompanharam as gravações para garantir a autenticidade dos ritos. 

·         A fotografia levou mais de seis meses para ser concluída porque o diretor insistia em filmar em condições climáticas reais — se precisava de chuva pesada e neblina, a equipe esperava a natureza colaborar. 

Por que O Lamento é um filme obrigatório para quem gosta de horror psicológico? 

Minha crítica direta a essa obra é simples: O Lamento não tem pena do espectador. O roteiro brinca com a sua percepção o tempo todo. Quando você acha que entendeu quem é o vilão e quem é o protetor, a história joga outra pista que desmorona sua teoria. É uma verdadeira aula de como manipular a fé, a culpa e a paranoia humana. 

A construção de mais de 2 horas e meia não pesa em nenhum momento porque o ritmo vai apertando o nó aos poucos. A sequência final é um dos momentos mais angustiantes e bem montados da história recente do cinema de terror. Se você busca um suspense inteligente, que te deixa com o estômago embrulhado e a cabeça fervendo de teorias, esse filme precisa estar no topo da sua lista.

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