Morte no Nilo (Death on the Nilo)

 


Tenho uma confissão para fazer: eu já li praticamente tudo o que a Rainha do Crime colocou no papel. Sou apaixonado pela literatura de Agatha Christie e acompanho cada nova tentativa de Hollywood de levar o lendário detetive belga Hercule Poirot para as telonas. Quando soube que Morte no Nilo ganharia uma nova versão, confesso que fiquei na dúvida. Levar uma das tramas mais redondas da literatura policial para o cinema exige peito — e o resultado final no filme de 2022 entrega uma experiência visual marcante, embora com escolhas adaptativas que dividem opiniões.

Aqui vou mandar a real sobre como essa superprodução se sai, o que funciona na tela, onde o diretor pesou a mão e se vale o seu tempo.

Como Morte no Nilo constrói sua atmosfera de mistério?

A história nos joga direto no luxo dos anos 1930. O cenário inicial é o Egito, onde a jovem, rica e deslumbrante Linnet Ridgeway (Gal Gadot) comemora seu casamento com Simon Doyle (Armie Hammer). O problema é que o marido de Linnet foi roubado de sua melhor amiga, Jacqueline de Bellefort (Emma Mackey), que passa a perseguir o casal obsessivamente.

Para tentar escapar dessa tensão, o grupo embarca em um cruzeiro exclusivo pelo Rio Nilo a bordo do navio S.S. Karnak. Só que a mágoa viaja junto. Quando um assassinato acontece a bordo com portas fechadas, todos os passageiros viram suspeitos — afinal, quase todo mundo ali tinha um motivo plausível para querer a vítima morta. É a fórmula clássica do whodunit em seu estado mais puro, com Poirot tendo que usar suas "células cinzentas" para desatar o nó antes que o barco alcance o destino.

Quem são as mentes e os rostos por trás da adaptação?

Lançado nos cinemas em 2022 sob o título original Death on the Nile, o filme carrega a assinatura marcante de Kenneth Branagh, que acumula a função de diretor e protagonista encarnando o próprio Hercule Poirot. Branagh traz um tom mais dramático, melancólico e até físico para o detetive, diferente das interpretações mais caricatas do passado.

O elenco conta com nomes de peso para atrair o grande público:

·         Gal Gadot como Linnet Ridgeway

·         Armie Hammer como Simon Doyle

·         Emma Mackey como Jacqueline de Bellefort

·         Tom Bateman repetiu o papel de Bouc

·         Annette Bening, Russell Brand, Letitia Wright e Rose Leslie completam o time de suspeitos.

Atualmente, o longa ostenta uma nota 6.3 no IMDb, uma pontuação justa para uma produção que entrega bom entretenimento técnico, mas divide os leitores puristas da obra.

Onde o filme foi gravado e como é a trilha sonora?

Se você assiste ao filme achando que o elenco passou calor nas pirâmides reais do Egito, tenho uma surpresa: a maioria das filmagens não aconteceu no Oriente Médio. A produção usou como locação principal os estúdios Longcross, no Reino Unido. Eles reconstruíram o gigantesco navio S.S. Karnak em tamanho real e simularam o Rio Nilo e os templos de Abu Simbel usando cenários físicos combinados com muita computação gráfica (CGI).

Já no quesito sonoro, a trilha sonora composta por Patrick Doyle cumpre um papel fundamental. Doyle mistura a orquestração clássica de suspense com instrumentos tradicionais egípcios e toques de jazz dos anos 30. A música consegue ditar o ritmo da ganância e do perigo velado em cada salão do navio.

Em termos de premiações, o longa não chegou a dominar o Oscar, mas recebeu indicações técnicas importantes, como no ASCAP Film and Television Music Awards pela trilha e no Ivor Novello Award, além de figurar nas listas de Melhores Efeitos Visuais Coadjuvantes na Visual Effects Society.

Quais são as melhores curiosidades dos bastidores?

Filmes desse porte sempre acumulam histórias interessantes por trás das câmeras:

·         Bigode com passado: Branagh decidiu dar uma história de origem dramática até para o famoso bigode de Poirot, mostrando em um prólogo em preto e branco como ele ganhou as cicatrizes da Primeira Guerra Mundial.

·         O colar milionário: O colar de diamante amarelo usado por Gal Gadot no filme é uma réplica do lendário Tiffany Yellow Diamond de 128 quilates, uma das maiores gemas amarelas já descobertas no mundo.

·         Atrasos em série: O filme sofreu sucessivos adiamentos por conta da pandemia de COVID-19 e por polêmicas envolvendo membros do elenco nos bastidores.

·         Alteração nos livros: Para enxugar a narrativa e dar mais apelo emocional, vários personagens originais da obra de 1937 foram fundidos ou alterados. Salome Otterbourne, por exemplo, deixou de ser uma escritora excêntrica para virar uma cantora de blues.

Vale a pena assistir a Morte no Nilo?

Olhando para a obra como um todo, o saldo é positivo, mas exige que você ajuste suas expectativas. Kenneth Branagh dirige com mão firme quando o assunto é escala e elegância. O ritmo do segundo ato é certeiro; a tensão do confinamento no barco funciona bem e a fotografia abusa de enquadramentos imponentes.

Como leitor ávido de Agatha Christie, confesso que me incomoda um pouco o excesso de efeitos visuais em cenários que poderiam ser mais orgânicos. Às vezes, o Egito digital parece falso demais. Além disso, a escolha de transformar Poirot em uma figura quase trágica e romântica é um desvio considerável do velhinho meticuloso e vaidoso dos livros.

Por outro lado, o conflito central entre amor, obsessão e ganância continua afiado. A atuação de Emma Mackey como a desprezada Jacqueline brilha com uma intensidade impressionante, servindo como o contraponto perfeito para a frieza analítica do detetive.

Morte no Nilo é um thriller elegante, direto ao ponto e muito bem produzido. Se você busca um bom filme de suspense para o fim de semana com uma estética estilizada, vale a pena dar o play. E se você já conhece a escrita da autora, fica o exercício bacana de reparar no que Hollywood escolheu mudar para os cinemas de hoje.

 

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