O Estranho Sem Nome (HIgh Plains Drifter)

 


Estava bobeando no controle remoto ontem à noite e acabei sintonizando no Telecine bem no início de O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, 1973). Fazia anos que eu não assistia a esse filme, e preciso confessar: que pancada de cinema! Clint Eastwood aqui não só estrela como assume a direção no seu primeiro faroeste no comando, entregando algo completamente distante do bangue-bangue tradicional de mocinhos e vilões.

Atualmente sustentando uma nota respeitável de 7,5 no IMDb e com mais de 90% de aprovação da crítica especializada, a obra é uma aula de como construir clima, suspense e moralidade cinzenta. Se você curte o gênero ou quer entender o momento em que Clint se consolidou como cineasta, vem comigo nessa reflexão.

O que torna O Estranho Sem Nome um faroeste tão fora da curva?

Logo nos primeiros minutos, o filme deixa claro que não está para brincadeira. Um cavaleiro misterioso surge do meio da poeira e do calor causticante e entra na pacata cidade de Lago. Em menos de vinte minutos, o sujeito mata três pistoleiros que o provocam na barbearia e demonstra uma atitude fria, quase amoral.

Os moradores de Lago não são vítimas inocentes. Eles escondem um segredo vergonhoso: o antigo xerife Jim Duncan foi espancado até a morte no meio da rua enquanto a população inteira assistia sem mover um dedo. Sabendo que os assassinos do xerife estão prestes a sair da prisão e buscam vingança contra a cidade, os cidadãos acuados resolvem contratar o Estranho para defendê-los.

A partir daí, o filme vira uma sátira sombria sobre covardia e hipocrisia humana. O Estranho aceita a proposta, mas exige carta branca total: ele toma o que quer, nomeia o anão Mordecai (vivido por Billy Curtis) como prefeito e xerife da cidade e obriga todos os moradores a pintarem cada casa da cidade de vermelho sangue, rebatizando o lugar como "HELL" (Inferno).

Quais foram as escolhas de Clint Eastwood nos bastidores e na locação?

A produção deste clássico guarda histórias fascinantes nos bastidores. Em vez de gravar nos cenários prontos e artificiais dos estúdios da Universal em Hollywood, Clint fez questão de procurar uma locação real e isolada. Ele escolheu as margens do congelante e desértico Lago Mono (Mono Lake), na Califórnia.

A equipe construiu a cidade inteira de Lago do zero em apenas 18 dias, ergendo 14 edifícios funcionais com madeira de verdade. Isso permitiu que a câmera gravasse cenas externas e internas sem cortes artificiais, trazendo uma sensação tátil de poeira, vento e isolamento.

A trilha sonora composta por Dee Barton é outro espetáculo à parte. Em vez de trompetes e violões heroicos no estilo Ennio Morricone, Barton usa sons dissonantes, ecos de sinos e ruídos que lembram muito mais um filme de terror psicológico do que um faroeste tradicional.

Ficha Técnica e Curiosidades Rápidas

·         Título Original: High Plains Drifter

·         Ano de Lançamento: 1973

·         Direção: Clint Eastwood

·         Elenco Principal: Clint Eastwood, Verna Bloom, Mariana Hill, Mitchell Ryan, Jack Ging e Billy Curtis

·         Aprovação e Bilheteria: Arrecadou cerca de US$ 15,7 milhões na época (um estrondoso sucesso comercial) e mantém status cult definitivo no gênero.

Entre as curiosidades mais legais, o astro John Wayne odiou abertamente o filme. Wayne chegou a enviar uma carta para Clint Eastwood reclamando que a obra retratava o povo do Oeste de forma covarde, sombria e imoral. Clint simplesmente ignorou a crítica, sabendo que o faroeste precisava evoluir para refletir a desilusão da década de 1970.

O Estranho é um homem em busca de vingança ou uma entidade sobrenatural?

Essa é a grande sacada do roteiro assinado por Ernest Tidyman. O filme flerta o tempo todo com o sobrenatural. O Estranho seria o próprio espírito do xerife Jim Duncan voltando do inferno para punir os moradores covardes, ou seria apenas seu irmão em busca de acerto de contas?

Eastwood deixou pistas bem deliberadas ao longo da projeção. Para interpretar o xerife morto nos pesadelos e flashbacks, Clint não usou a si mesmo, mas colocou seu dublê de longa data, Buddy Van Horn, aproveitando a semelhança física para deixar a dúvida no ar. O resultado é uma atmosfera quase mística em que o protagonista atua como um anjo exterminador ou o próprio diabo cobrando uma dívida.

Por que a crítica e os fãs consideram este filme uma obra-prima imperdível?

Ao rever O Estranho Sem Nome, percebe-se o motivo de a obra ter envelhecido tão bem. É um cinema direto, focado na ação, com diálogos afiados e sem rodeios. Clint Eastwood conseguiu honrar o aprendizado que teve com seus mestres (Sergio Leone e Don Siegel) enquanto imprimia sua própria assinatura pessimista e estilosa.

O filme não busca agradar todo mundo nem pede desculpas pelo comportamento bruto e ambíguo do seu protagonista. É uma história sobre consequências, onde a cobrança do passado chega a cavalo e não poupa ninguém. Se você gosta de histórias bem contadas, com fotografia marcante e clima tenso do começo ao fim, vale a pena dar o play na primeira oportunidade.

 

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